Isso sempre me faz pensar na questão da individualidade versus o ser social? Como conseguimos ter nossa marca, nossa identidade preservada e ainda assim fazer parte da sociedade, cuja liberdade de expressão é entoada, mas na prática o esperado é que sejamos padronizados. Já abordei essa temática outras vezes, inclusive foi meu primeiro texto, quando debutei ao expandir minhas reflexões em um blog, e continuo com questionamentos parecidos. Um tema complexo, não acredito que tenha uma resposta fechada, precisamos da sociedade, o que ela nos oferece, mas também precisamos de nosso EU. Como equilibrar os dois? Há alguns meses vi no Facebook um vídeo de um comercial de telefonia de um pais europeu. O vídeo é ótimo, divertido, recomendo que assistam, são 30 segundos. É sobre um gato que questiona sua vida, acha-a sem graça e resolve que se "transformar" em cachorro, por acreditar vida é muito mais dinâmica, que tem muito mais a ver com ele. O gato fica só no sofá, na cozinha, parado, e começa a questionar seu modo vida, até diz que se odeia. "Magicamente" resolve ter atitudes de cachorro... rola na grama, corre atrás dos carros, joga frisbee, cava buracos, nada na água, corre com outros cachorros e além de tudo faz passeio de carro com a cabeça para fora. O gato se mostra tão feliz .....tendo comportamentos de cachorro. Não é que ser gato é ruim, para aquele gato a vida do cachorro é mais interessante e ao experimentá-la encontrou-se. E nós, quando nos permitimos isso? É inegável, o homem é um animal gregário, precisamos do outro, todos queremos carinho, amor, afeto, nascemos desamparados, e frequentemente essa sensação original se faz presente em nosso dia a dia. Mas ..... quem são esses outros? São todos ou podemos escolher? Talvez aí esteja "o pulo do gato".... Se conseguirmos nos entender, olhar para nossos buracos, vazios, dificuldades, nossa carência, saberemos encontrar um lugar em que possam ser mostradas sem que nos sintamos ameaçados, nossa "fragilidade" estará presente, além de nossas ideias, sentimentos e histórias de vida. Quando buscamos preencher o vazio com qualquer coisa (advirto: o vazio existe, estará sempre lá, o que muda é a forma de olharmos para ele), com o que não faz eco dentro de nós, o vazio aumenta por nos distanciarmos mais uma vez de nós mesmos. Será que o equilíbrio entre o ser social, o verniz que usamos não está na busca de lugares e momentos no dia a dia que nos permitam entrar contato com nossa singularidade sem que nos sintamos ameaçados ou rejeitados? Fácil? Não sei, mas não impossível. Ser quem se é com o padrão social sempre presente, existe, não é utópico. Nossa singularidade está presente conosco o tempo todo e mostrá-la, dar-lhe um lugar em nosso dia a dia nos enriquece e não necessariamente nos destruirá ou nos tornará alguém à margem do social. Seremos alguém que junto com o social consegue ser si mesmo. Haverá rejeições, com certeza, não conseguimos ser amados por todos. Esse é nosso mais velado segredo, nosso desejo primário, que o mundo nos ame. Mas será que não é muita prepontência? Meio sufocante, eu acho. Então... sejamos mais simples .... mais nós sem termos que ser sós.
Momentos de reflexão sobre o cotidiano do ser humano a partir do dia a dia que vivemos.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Sociedade lego .... um lugar em que tudo se encaixa
sábado, 15 de fevereiro de 2014
As várias facetas da solidão
O homem é um animal gregário. Nunca esqueci essa frase inicial de um texto do Freud (psicologia das massas). Uma frase aparentemente simples, com 6 palavras, mas de uma verdade incontestável. Não é preciso dizer mais nada. Precisamos sempre do outro. Seja lá por quais motivos, em nossa natureza já vem impressa essa necessidade, a do outro. Somos um animal gregário (ponto). A partir disso muitos pensamentos podem ser colocados, mas gostaria de direcionar minhas reflexões para a solidão, sentimento tão difícil de coexistir, mas tão presente em nosso dia a dia. Quero começar com uma reflexão que fiz há mais ou menos uns seis meses, junto a uma amiga analista, sobre a solidão do analista. Durante muitos anos eu trabalhei no mundo corporativo e a dinâmica de tal instituição dilui a solidão que muitas vezes sentimos em nossas vidas, principalmente quando passamos por dificuldades, porque ao encontrarmos com outros (uma grei de certa forma), trocamos palavras, às vezes contamos sobre nosso humor, ou até para algumas pessoas mais próximas colocamos o que estamos passando. Há também a situação relacionada ao próprio trabalho em si, sempre temos com quem dividir a angústia de algo que não está indo bem, ou dúvidas que temos sobre o caminho a seguir, ou mesmo compartilhar uma conquista. Temos uma grei, temos pares, temos um conforto, mas também temos as desavenças, as dificuldades, mas sempre temos nossa grei. E no consultório? Estamos ali frente a frente com um ser em sofrimento, que traz questões muito próprias e íntimas, estamos lá ouvindo-o, tentando compreendê-lo, ajuda-lo de alguma forma, e estamos sós nessa escuta. No momento que a história é contada, que os sentimentos são expostos, não temos ninguém com quem dividir nossa percepção, nossas dúvidas. Por vezes ouvimos e nos sentimos angustiados, desconfortáveis, surgem dúvidas se vamos conseguir ajudá-lo, percebemos angústias muito profundas, e guardamos isso só para nós. Somos sós nessa percepção e além de sós temos que acreditar que o que percebemos é o que está acontecendo. Não há testemunho para aquele momento. Via de regra, um caso muito complicado, sempre levamos para a supervisão, o testemunho acontece lá, mas enquanto isso, ficamos sós em nossa percepção, em nossa angústia. E antes de analistas também somos pessoas com famílias e histórias de vida e por vezes elas entram conosco nas sessões, mas precisamos deixá-las de lado para conseguir ouvir ao pacientes. Não dá para bater papo com o paciente, ele está lá para ser ouvido e não ouvir. Mais uma vez nos desvestimos de nossa história, ficamos sós de nós mesmos, para conseguir compreender a solidão do outro. Esse retirar-se não é carteziano, não se separa integralmente um eu do outro, mas à medida que entro em contato com minha solidão como analista dou lugar para a solidão do outro - Isso é lindo!!!! E por mais contraditório que possa parecer uma das grandes conquistas na análise é o paciente conseguir entrar em contato com a própria solidão e suportá-la. É um paradoxo, somos gregários, em nossa natureza, mas em nossa essência também somos sós. Faz parte do viver com si mesmo, lidar com sua solidão, algo tão duro, angustiante, mas que ao olharmos para ela, lhe darmos o devido valor e respeito, o espaço para nossa singularidade se expande, criamos, e nos tornamos menos sós, dando espaço para o outro e não mutilando-nos ou nos deixando ser invadidos por aquilo que não é nosso. Nos fortalecemos ao conseguirmos ficar com nossa solidão. Nossa solidão é colorida, como também preta e branca, por dúvidas, angústias, incertezas, esperanças, isolamento, sonhos, coisas nossas, nossa singularidade. Então.... somos um animal gregário, precisamos de nossa grei, de nossos pares, das trocas afetivas, morais, das amizades, da família, mas também precisamos de nós .... sós. Essa interrelação é que cria a dinâmica do encontro com o outro, da troca com o outro e nos garante nossa individualidade. Adoro os paradoxos, eles nos enriquecem, é um espaço criativo, e a solidão precisa conviver com nossa grei.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
A Mentira
Advirto: não leia antes de dormir, pode causar insônia.
Por esses dias vi um filme na televisão cujo título era: "O primeiro mentiroso". O filme é regular, porém achei o argumento bem interessante. Era sobre uma sociedade em que não existia a mentira e muito menos o conceito de verdade, afinal um não existe sem o outro. Era tudo concreto. As pessoas falavam o que pensavam, sem reflexões sobre o que pensavam, falavam apenas, assim se estabeleciam as relações humanas, se é que se poderia definir "aquilo" por relações humanas. Meio complicado de entender, vou dar alguns exemplos: uma moça foi sair com o protagonista e disse que estava saindo com ele só para preencher o tempo porque na verdade ele não era o tipo dela. Disse antes de sair que iria se masturbar, que ele chegou muito cedo e atrapalhou esse seu plano. A secretária do protagonista disse que não tinha anotado nenhum recado porque o chefe iria demiti-lo, que detestava trabalhar com ele, o achava um fracassado. O chefe quando foi demiti-lo falou que talvez não fizesse isso hoje porque se sentia mal com isso e voltaria amanhã para fazê-lo. O protagonista trabalhava em uma empresa de documentários, os filmes nessa sociedade eram só sobre os fatos acontecidos na história do mundo. O protagonista trabalhava com o século 14, século da peste negra, e o iriam demitir porque seus roteiros eram muito deprimentes. Lógico, esse século era deprimente diz o protagonista. Os fatos eram relatados exatamente conforme o acontecido, sem licença poética, sem ficção, sem ilusão, sem histórias paralelas. Era o que era. Ponto. Um vizinho do protagonista ao ser perguntado como estava relatou que passou a noite vomitando por ter tomado muitos comprimidos para se matar. Os diálogos eram muito chatos, depressivos. As pessoas só falavam delas e não viam ao outro. O outro não era levado em consideração em seus pensamentos, só existia o si mesmo. Quando isso mudou no filme? O protagonista foi demitido e seria despejado, por não ter dinheiro para o aluguel. Foi ao banco tirar o que lhe restava na conta. Ao chegar no banco a caixa disse que o sistema estava fora do ar, mas que ele poderia dizer qual a quantia que tinha ........ nesse momento apareceu uma imagem de um "curto" em seus neurônios e ao invés de dizer $ 300 disse $ 800, o que não era verdade. A caixa foi lhe dar o dinheiro e nesse exato momento o sistema voltou. O protagonista ficou arrasado .... a caixa consultou o sistema o informou: "aqui diz $ 300, o senhor disse $ 800, acho que nosso sistema está com algum problema, então vou lhe dar os $ 800". Bizarro, para nossos dias. Totalmente bizarro, naquela sociedade não existia a compreensão, o conceito do não fato, da não verdade, o que era dito por alguém era o que era. O protagonista saiu de lá confuso e foi visitar sua mãe que estava em um asilo. O slogan do asilo era: "lugar para deixar pessoas já sem esperança de vida e que foram abandonadas por seus parentes". A mãe estava morrendo e em seus últimos minutos dizia ao filho que estava com medo de ir para o vazio, porque a morte era o vazio. O filho, comovido com essas palavras, começou a dizer para a mãe que sabia que a morte não era um vazio e sim um lugar com mansões, que ela iria encontrar com outros parentes já mortos e teria uma eternidade de felicidade. A mãe morre com um sorriso e as enfermeiras e médicos que estavam no local se impressionam com o que ele sabia e começaram a divulgar sobre um homem que sabia coisas que ninguém mais sabia. Naquela sociedade não se questionava o dito. O dito era fato, o falado era A verdade. Se os neurônios do protagonista sofreram um "curto-circuito", os meus começaram a bombardear reflexões sobre mentira, verdade, o outro, o lugar da mentira nas relações humanas, etc. E ficou tudo muito confuso, mas também bem interessante. Adoro o complexo, o paradoxo, os acho tão parte do humano que resolvi colocar minhas conexões reflexivas para funcionar. Em nenhum momento me atrevo a pensar que chegarei a alguma conclusão, acredito que muitas teses de sociologia, filosofia, psicologia já foram feitas sobre o assunto. Vou refletir sobre mentira e verdade a partir dessa sociedade descrita no filme. Como os fatos eram só o que existia, desejo ou imaginação estavam fora de questão. Se alguém contasse que foi demitido, nessa sociedade o dito era: "tá ferrado, você é um fracassado". Quem de nós já não consolou uma amiga ou um amigo que perdeu o emprego e nossa fala foi: "tenho certeza que você conseguirá outro emprego logo, é uma questão de tempo, você é tão qualificado, etc.". Mas isso é verdade? Você tem certeza que será assim? Você não sabe, mas mesmo assim diz algo que não sabe porque acredita que isso possa ser verdade e também gosta muito daquele amigo e acha que ele merece essa injeção de ânimo. Dizer: "cara você tá ferrado, já passou dos 40, o mercado de trabalho está muito competitivo, tem gente mais qualificada que você, muito difícil de se recolocar", beira a crueldade. É chutar cachorro morto na calçada. Esse é o cenário, mas será que por ser esse o cenário não haverá outra alternativa? É uma mentira proporcionar consolo ao outro ou é uma ilusão necessária para que outros cenários possam ter lugar? Não só o concreto. Por que chamar de mentira? A palavra mentira vem tão carregada de preconceito e moralidade que rejeitamos automaticamente dizer que a utilizamos. Mas fazemos isso sempre, vários dias contamos "mentirinhas" para nós mesmos e para outros. Essas mentiras são: pegar os fatos nus e crus, horrorosos, sem nuances e tons, e os colorir com nossos desejos, com nossas expectativas. Esse é o subjetivo, o que nos movimenta, o que dá sentido para continuar. O mentir está ligado ao desejo. Não estou falando sobre mentiras patológicas, o mentir para se sobrepor ou tirar algo do outro. Estou falando do lugar da mentira na construção do meu eu, do outro e dessa relação. E ao mesmo tempo sobre o lugar da verdade nessa mesma construção. Será que existe verdade e mentira ou existe o trânsito entre realidade, desejo e ilusão? Vamos falar das crianças, as super hábeis no universo desse trânsito. Não conheço criança alguma, e nem adulto que não tenha contado muitas mentiras quando criança. Por que criança faz isso com frequência? Por que a criança tem interesse em realizar seus desejos na hora em que aparecem, e por incontáveis vezes para que possam fazê-lo, precisam usar da sabedoria da mentira para os satisfazer. Ainda têm dificuldade em postergar a satisfação do desejo. E os adolescentes, então, são os mestres da mentira. Estão na fase de se desligar dos modelos paternos e maternos e descobrir o seu modelo. Será que "mentira" e desejo andam juntos? Por que julgar tanto uma mentira e não questionar mais os motivos que me fazem usá-la? O tema vai ficando complexo. Existem tantos nuances na qualificação de verdade, mentira, ilusão, imaginação, que não há fechamento, só aberturas. E assim nos expandimos e não ficamos naquele mundinho concreto, e cinza, em que fato é fato, e só. Outro questão que quero abordar é o quanto no filme eu percebi que essa aparente autenticidade, em dizer tudo o que penso, era, não exatamente uma autenticidade, um egocentrismo extremo. Não há o outro e seus sentimentos, só os meus. Não importa que o que eu diga vá afetá-lo, deixá-lo triste ou abalado, eu digo o que digo e sou assim. Não havia espaço para a afetividade com o outro. Não que eu esteja defendendo que mentir para o outro é considerá-lo, longe disso. Mas considerar o que o outro sente, o que sinto pelo outro, estabelece a comunicação entre a realidade, imaginação, ilusão e desejo.
O tema é complexo, mas tão interessante ....... são tantas as verdades, e tantas as mentiras, e tantos entres. Por que o verniz social é necessário? Por que deixamos esse verniz muitas vezes modelar nosso eu? Qual o espaço que posso ter nesse trânsito entre social, eu e o outro, afinal eu preciso do outro e o outro também precisa de mim? Mentimos para nós mesmos? ............ Boa reflexão para todos.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Escolhas
Estou lendo uma biografia do Freud, escrita por Peter Gay, historiador e psicanalista. Está muito interessante, bem escrito e, como bom historiador, situa a vida de Freud dentro do cenário político e social da época. Mas ..... em determinado momento sofri certa parada respiratória. Freud, na idade em decidir-se pela escolha profissional, cogitou seriamente seguir a carreira jurídica. Fiquei sem ar por alguns segundos. Vários flashes de perguntas vinham a minha mente. Como seria se ele tivesse optado por essa área? Será que em algum momento de sua vida teria chegado a construir tão profundamente uma nova visão do homem como o fez? Como seria a psicologia hoje?
Uma psicanalista que conheço, em sua monografia de mestrado, abordou um conceito proposto por Foucault: a instauração de um novo campo discursivo. Em linhas gerais é a proposição de "algo" novo, original, e a partir dele, abre-se espaço para novas possibilidades de pensamento, mesmo que sejam contrários. A partir dessa discussão novos conceitos ou novas idéias são construídas e, inegavelmente, para que isso possa acontecer é necessário voltar-se ao conceito original, ao novo campo. Ou seja, sem o novo campo não há desdobramentos, não há extensões, crescimento, mudanças, etc. Então, haveria o novo campo discursivo, a psicanálise? O que teria no lugar?
São perguntas sem respostas e na sequência dessa enxurrada de questões veio o alívio. Afinal ele não seguiu a carreira jurídica e sim a médica. Mesmo dentro da carreira médica havia tantas opções e Freud escolheu uma que possibilitou-lhe expandir o pensamento e teorizar sobre a psicanálise. E a partir dele tantos outros psicanalistas, Lacan, Ferenczi, Fedida, Winnicott, Melanie Klein, e muitos outros.
Escolhas .... escolhas .... são sempre presentes em nossas vidas. O tempo todo fazemos escolhas, desde as mais simples, que pouco ou nada afetam nosso cotidiano, como outras que notoriamente trarão mudanças no curso de nossa história pessoal. E com essas escolhas vem a angústia, a dúvida, a incerteza do desdobramento. Mas uma certeza também fazer parte, a certeza que as coisas ficarão diferentes, mudanças acontecerão, desdobramentos desconhecidos surgirão. Ao escolher-se algo deixa-se de escolher outros diversos algos. Várias possibilidades, poucas ou só uma caberá. Escolher, decidir é angustiante. Ganhamos o incerto e ficamos em luto pelas possíveis outras possibilidades. Colocando assim parece aterrorizante, só que o contrário da escolha é uma paralisação em vida, uma mortalidade do vivente humano. É um encolhimento do si mesmo. Tive uma paciente (já relatei esse caso no texto depressão), com um quadro depressivo moderado, que me descrevia pensamentos e sensações muito angustiantes, mas que não compartilhava com ninguém já que os achava tão estranhos que tinha receio de ouvir-se ou mesmo de ver o semblante confuso para quem contasse. Minha paciente em determinado momento de sua vida tomou uma decisão que viria mudar muitos aspectos de sua vida. Na época ela sabia que era uma decisão muito importante, planejou, traçou metas e acreditou que tudo ocorreria próximo ao imaginado. Mas não foi bem assim. Foi tudo muito diferente e sua vida foi modificada de uma maneira que não estava preparada, com perdas significativas. Foi sentindo-se triste, desamparada e sufocada por si mesma. Tinha insônias frequentes e nessas horas insones uma angústia de aniquilação tomava conta dela. Relatava-me que se sentia como no filme "Efeito borboleta", o qual nunca tinha assistido. Via as chamadas do filme e entendia que era sobre uma pessoa que voltou ao seu passado para mudar algo, para ficar melhor, mas que ao fazer isso os efeitos eram devastadores. O personagem do filme insistia em tentar consertar isso, voltando novamente ao passado para modificar esse algo, mas as consequências continuavam devastadoras, sempre piorando o que já estava ruim. Era como ela se sentia. Ao tomar aquela decisão que abrangia aspectos muito importante da sua vida, começou a acreditar que tomou uma decisão equivocada (como o personagem que voltou ao passado) e a partir disso passou a sentir que qualquer ação ou atitude que tomasse só iria se desdobrar em algo pior do que estava vivendo. Não via saída para si mesma. Essa sensação era tão autêntica, não era um pessimismo, era uma certeza. Vivia aterrorizada por si mesma, com medo. Queria sentir-se melhor, fazer alguma coisa, mas tinha medo de tomar qualquer decisão, pois sentia que qualquer coisa que fizesse redundaria em algo pior. Paralisou, sofria muito por isso e não fazia mais escolhas, não tinha mais coragem. Seu maior sofrimento também estava relacionado a isso, a não conseguir mais fazer escolhas, fundamentais para nossa existência, nosso crescimento.
A vida vivente nos pede que façamos escolhas. Algumas são mais simples de serem tomadas e outras não. É sem dúvida um processo angustiante o qual precisamos enfrentar se quisermos continuar a expandir. Somos originais, somos singulares e crescer, expandir é parte do vivente. É fácil? Não. É parte? É.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
O céu é o limite?
Vez por outra leio reportagens que me deixam confusa . . . . . confusa no sentido de não conseguir formar uma opinião minimamente consistente. Por outro lado é bom porque me faz pensar . . . . adoro pensar. Li hoje pela manhã na folha de São Paulo que atletas femininas estão tomando medicamentos para alterar seu ciclo menstrual ou eliminar a TPM para que possam participar com excelência nas competições. Para que essas sensações e incômodos desse período não afetem seu desempenho. Essas intervenções químicas no organismo, com o intuito de fazer com que o organismo tenha seu melhor rendimento, dê aos atletas a oportunidade dele não atrapalhar, sempre acendem uma luz amarela no meu cérebro. Não sou contra intervenções químicas, muitas são necessárias para estabilizações de quadros ou mesmo para o planejamento familiar. O que me faz pensar nessa matéria é o motivo que leva as atletas a interromperem seu ciclo menstrual, é para que tenham um desempenho ótimo. Sua profissão é a competição, portanto, qualquer coisa que venha atrapalhar seu rendimento deve ser eliminado. A menstruação é uma delas, um ciclo natural do organismo, que teoricamente deveríamos respeitar. O organismo feminino foi concebido com essa característica e quando o eliminamos porque nos atrapalha, em parte estamos encapsulando algo que só é próprio da mulher. Bem . . . . se algum atleta estiver lendo isso com certeza deverá pensar: "é bem coisa de psicólogo que não tem mais o que fazer, já que vencer é muito mais importante do que ser mulher". Não posso deixar de concordar, esse é seu objetivo de vida. Sinto um dilema, o esporte é o que movimenta aquele indivíduo, mas ao mesmo tempo negar sua própria condição . . . . . socorro . . . . . qual o limite entre o que se é e o que se faz? Saindo do mundo dos esportes, entrando no mundo do desempenho escolar. Hoje estão prescrevendo para adolescentes medicamentos que aprimoram seu rendimento no aprendizado. Não estou falando da Ritalina (medicamento largamente utilizado hoje para os "diagnósticos" de TDAH (transtorno de deficit de atenção e hiperatividade), mas de medicamentos que estimulam o cérebro do adolescente de maneira que se concentre mais e tenha um desempenho nos estudos mais eficiente. É necessário? Estão sendo denominados até de pílulas da "inteligência". Por que não usá-los? Afinal não se está "inventando" nada, só turbinando o cérebro e por isso o adolescente terá chances maiores de entrar em boas universidade e provavelmente ser um profissional bem sucedido. Isso é algum crime? Vivemos em uma sociedade competitiva e o valorizado é o destaque. Mas, até que ponto, a pessoa não "fabrica" uma idéia sobre si mesma, volta-se só para o externo, para o bem sucedido. Essas temáticas me lembram o livro "Admirável mundo novo" escrito por Aldous Huxley em que as pessoas eram todas "felizinhas", todos os dias tomavam a pílula da felicidade (SOMA). Também eram geneticamente concebidos para as "castas" às quais iriam integrar desde o seu primeiro dia de vida até sua morte. Não havia mobilidade. Era um mundo "perfeito", com equilíbrio social e emocional. Tudo planejado, nada questionado. Ouço com frequência relatos de mulheres ou homens que foram a seus clínicos gerais, ou médicos de confiança e queixaram-se da dificuldade de lidar com a pressão no trabalho, que estavam meio tristes e o médico prescreveu fluoxetina (anti-depressivo). Ou seja, o aprendizado diário para lidar com o cotidiano, com as angústias, com os conflitos é substituído por um medicamento que gera bem estar, por isso tudo fica mais fácil. O que acontece quando tira-se esse medicamento . . . . tudo volta a ser como era antes, o vestido a ser de chita, a carruagem a ser abóbora e os cavalos, ratinhos. Como equilibrar isso? Não estou levantando a bandeira do sofrimento é importante, mas como podemos modificar algo em nós se não entramos em contato, se não lidamos com nossas deficiências, com nossas impotências? O adolescente que para destacar-se turbina o cérebro, aparentemente para ingressar em uma faculdade, vai continuar a fazê-lo durante a faculdade para dar conta e vai continuar a fazê-lo quando ingressar em uma empresa, afinal, para virar diretor, tem que se destacar e por isso o cérebro tem que ter o máximo de seu rendimento. E aí, se todo mundo começar a tomar o remédio da inteligência e todos conseguirem dar o máximo de seu desempenho, o que fazer? A indústria farmacêutica vai procurar novos medicamentos? Então, para ser uma atleta mulher, eu tenho que suprimir meu biológico mulher? Quando não for mais atleta, aí meu biológico pode existir naturalmente? Que confusão. Qual é o limite entre o que vem de fora e o que sou por dentro?
domingo, 8 de julho de 2012
A construção de nossa história
Era uma vez . . . . . Cuidei de um paciente que sofria muito com os conflitos vivenciados com seus pais. A maneira como foi educado, a maneira como via que conduziam as própria vidas, a maneira como não se sentia aceito e visto, e outras tantas coisas. Certo dia, em consulta, depois de alguns acontecimentos extremados resolveu que o "problema" não eram os pais, mas ele mesmo, justificando tal afirmativa através da análise que fez da história de de vida de seus pais e de como ele, ainda bebê, era difícil. Concluiu que a culpa era dele. Perguntei-lhe o por quê da necessidade de desculpar seus pais e culpar a si mesmo? E mais, o por quê da necessidade de haver um culpado? Ficou me olhando como se eu tivesse dito tudo isso em hebraico. Naquele momento não fez sentido nenhum para ele a ausência de "culpados", afinal alguém é sempre o culpado, sejam os outros ou sejamos nós mesmos. Ao nascermos, seja lá em que família for, já haverá uma história escrita anterior ao nosso nascimento, com suas marcas, seus brasões e, ao nos inserimos nela, ao iniciarmos nossa existência objetiva e subjetiva nessa história, serão impressos em nossas vidas significados muitas vezes desconhecidos. Somos originários de uma história anterior a nós e continuaremos a escrevê-la mesmo quando não estivermos mais presentes. É uma espécie de imortalidade, que nada tem a ver com potência ou super poderes, mas com continuidade, com construção. Somos antes de nós e seremos depois de nós. Certa vez li um livro, cujo título é "A imortalidade". O desdobramento da obra versava sobre pessoas que buscavam tornarem-se imortais através de relacionamentos com alguns gênios literários, na esperança que, como essas personalidades realizaram produções atemporais, a pessoa que queria tornar-se simbiótica àquela, tinha como busca a imortalidade através do outro. Essas obras ecoavam em algo relacionado ao original do ser humano e por consequência seus autores e obras mantêm-se atemporais no imaginário coletivo. Só para ajudar a ilustrar esse conceito que, aparentemente, parece meio "viajante", Miguel de Cervantes é um excelente exemplo. Quem não conhece, mesmo se não leu, a obra "Dom Quixote" cuja primeira edição foi publicada em 1605, há mais de 400 anos. Hoje, no ano de 2012, tanto os personagens como seu autor continuam vivos. São atuais, imortais de sentido. Mesmo quando não estivermos mais aqui essa obra continuará a produzir significados viventes, produziu isso antes de nós e o continuará a fazer depois de nós. Sua imortalidade não está relacionada ao retrato de uma época, mas com o retrato de processos humanos, com a busca de construção de uma história de si mesmo, desencadeada pela atração a outras histórias, os romances de cavalaria, delineada no subjetivo. O livro não se constrói dentro da realidade objetiva, apesar de precisar sustentar-se dentro dela. Sancho Pança pode ser visto como essa figura, a realidade objetiva, mas a outra história, a história subjetiva, é também pilar de construção da história. Agora uma pergunta. E a história da qual originamos, que foi escrita muito antes de nós, a vivemos na realidade objetiva? Parte dela sim, porém outra não. A história da qual originamos, sem dúvida, está presente em nós, em nosso subjetivo e traz raízes para a construção de nossa própria história. Vejam bem, eu usei traz raízes, não faz ou planta, traz. (Em outro momento, já propus uma reflexão sobre esse tema, como nossa história não é só nossa ou mesmo como pode ser constituída de muito vazio). Comecei esse texto de hoje com "Era uma vez....", início típico de contos de fadas. Por que comecei assim, queria falar sobre fantasia? Não, sobre os significados e as marcas que esse "era uma vez" deixa em nossa linha histórica. Há um conhecido livro, "A psicanálise dos contos de fadas" que elucida o sentido dessas histórias, hoje tidas como aterrorizadoras e politicamente incorretas. Os contos de fadas são recheadas de figuras más, bruxas, magia, angústia, abandono, ciúme, inveja, castigos. Inclusive as versões originais são muito mais aterrorizadoras do que as versões Disney. Têm finais bem "sádicos" para alguns dos vilões. Por exemplo, em Branca de Neve, na versão original a bruxa tem como fim dançar até a morte calçando sapatos de ferro em brasa. Beira a tortura. No livro "A psicanálise dos contos de fadas", o autor explora os significados dessas histórias no subjetivo da criança. Simplificando essa proposta, e muito mesmo, a criança sente angústias, sente o abandono, sente maldade, mas não tem recursos para lidar com isso. Essas histórias de alguma maneira falam sobre o que sentem e de alguma maneira mostram que isso muda. Não dão fórmulas, não é algo que a criança irá aprender a resolver, mas é algo que sentirá como fazendo parte de si, que é real, mesmo sabendo que é uma história. Sua angústia tem um lugar de pertencimento, ela existe e por isso não precisa ser assustador. A criança não se tornará psicopata acreditando que ao torturar fará justiça, sente que o que está sendo contado não é real na objetividade, mas é real em suas sensações. E o adulto, quanto está procurando entender, conhecer a si mesmo, dá para ignorar a história já "escrita" muito antes à sua vinda? Dá para ignorar que as marcas e os contornos dessa história tem a ver com sua própria história? Que marcas essa história imprimiu em mim e que significados se desenrolaram ou se esconderam? É a partir desse olhar, dessa "visita aos mortos vivos" que muitas coisas poderão ter seus contornos modificados, ter seus sentidos desvelados, que marcas poderão ser redesenhas e feridas poderão ser cuidadas. Olhar a história original não é expiar a culpa, procurar o culpado, é tornar parte de si mesmo algo que sempre foi, mas que agora pode ter uma originalidade própria. E essa originalidade própria em conjunto com o anterior já escrito também imprimirá marcas na vida de outro alguém, levará raízes a esse outro alguém, que também, ao olhar para toda essa construção histórica, também terá a oportunidade de dar um contorno próprio. E assim a imortalidade seguirá seu curso e criará novas imortalidades, sempre e através da continuidade da construção da história. Era uma vez . . . . .
domingo, 1 de julho de 2012
Os cuidados da primeira infância
Hoje no jornal diário, que não tenho lido diariamente, li duas reportagens no caderno saúde que me remeteram ao tema dos cuidados da primeira infância. Ambas as reportagens abordavam casos de pessoas com doenças gravíssimas. O interessante é que uma delas era sobre um idoso, bem doente, e a outra sobre um bebê, que no segundo mês de vida desenvolveu uma doença muito grave. Ambos com riscos eminentes de morte. E, coincidência ou não, os dois em momentos opostos do ciclo da vida. Um próximo ao final desse ciclo e o outro logo no início. Só que no caso do senhor idoso a reportagem foi feita porque a família precisou tomar medidas extremas, além das medidas judiciais, para que o plano de saúde liberasse os procedimentos necessários. No caso do bebê foi um transplante de fígado que transcorreu sem as intercorrências capitalistas. Lógico que me mobilizei pelos dois casos, mas no caso do idoso senti aquela sensação de desamparo, tão doente, e tendo os procedimentos negados, como isso é injusto, afinal se nos sentimos doentes precisamos de cuidados. Por que não podemos recebê-los? Estamos nos sentido mal porque não podemos ser cuidados? Na área da saúde essa é uma equação muito complicada, ainda mais em um sistema de mundo capitalista, ou de superpopulação, ou de abismos tecnológicos e discrepâncias de renda, ou mesmo de profissionais desinteressados. Seja lá quais forem os motivos, mas os cuidados da área da saúde nos remetem a nossa primeira infância. Afinal nascemos totalmente desamparados. Não sobreviveremos se não houver um outro para cuidar de nós. Enquanto bebezinhos, quando sentimos uma estranheza, logo nos pomos a chorar (nosso único mecanismo de comunicação) e alguém vem ver o que está acontecendo. Recebemos o leite, o alimento, nos dão banho, nos trocam, nos agasalham, ou seja eu recebo sempre do outro o que estou precisando. E não dou nada em troca por isso, não sou desenvolvido para isso. Por enquanto eu só posso receber, não possuo desenvolvimento suficiente para dar. Não tenho capacidade, ainda, para cuidar de mim mesmo. Na verdade nem tenho ciência do que preciso. Só sinto que não estou bem e aí vem o outro e faz com que eu me sinta bem. Parece até uma descrição ingênua, infantilizada do que acontece, mas é isso mesmo, é uma "troca" ainda bem primitiva, pouco elaborada. Sinto-me mal e alguém faz com que me sinta melhor. Essa é nossa primeira experiência de "troca" com o mundo. E por isso mesmo, já enquanto adultos, quando não nos sentimos bem, nossa primeira experiência de cuidado será acionada, nos sentimos desamparados e é difícil aceitar que para que cuidem de nós precisamos pagar (dinheiro). Temos a lembrança de um cuidado doado e não de um cuidado trocado. E deveria ser assim sempre, se eu perdi a capacidade de me cuidar porque o outro não pode me ajudar nisso sem que eu tenha que pagar? Sou psicóloga e a hora de acertar o valor da consulta é sempre angustiante tanto para o psicólogo quanto para o paciente. Ele está lá, sofrendo, com dores aparentemente inexplicáveis, como nos primeiros meses de vida cuja ciência dos motivos pelos quais está se sentindo mal é vaga, e aí um profissional da área dos cuidados psíquicos quer cobrar para cuidar. Um pouco ultrajante. E ainda o papel o psicólogo será muito parecido com o papel daquele outro da minha primeira infância. Irá cuidar no sentido do amparo, no sentido acolhedor, no sentido de cobertor, cuidados que eu recebia sem ter que dar nada em troca. Na medicina clínica existem os exames para comprovar, algo pragmático que mostra o que o faz se sentir mal e prescreve uma conduta com algo do externo, remédios, intervenções cirúrgicas, etc. E na psicologia? O que temos para cuidar são as sensações, as emoções, o sofrimento psíquico, um mal estar geral que nada tem haver com o biológico. Não prescrevemos nada que vem de fora (salvo casos em que há a necessidade de em paralelo de intervenção medicamentosa psiquiátrica), nossas "prescrições" estão sempre atreladas à história de vida do indivíduo, às suas experiências, ao que sente, ao seu desamparo, ao seu sofrimento, etc. O "material" que sempre usamos é de "posse" daquele indivíduo que está lá na nossa frente se desnudando e buscando sentir-se melhor. E temos que cobrar por isso ..... como é difícil. E para o paciente também é muito difícil pagar por isso. Sempre há certa transferência de raiva na hora de pagar, mesmo quando sente que está sendo cuidado. Em sua primeira infância esses cuidados sempre foram naturais e ao tornar-se adulto, porque não pode ser como antes? Quando adultos, ao sentirmos que não estamos capazes de cuidar de nós e precisamos de um outro que nos ajude nisso, sempre nos remetemos a nossa primeira infância, em que os cuidados eram espontâneos e, via de regra, faziam com que me sentisse melhor. Acredito que até por isso, quando doentes, do corpo ou do psiquismo, é muito difícil lidar com essa troca financeira que o modelo de saúde da atualidade nos impõe. Acredito que este possa ser um do motivos que o idoso sofra tanto ao necessitar de cuidados e não recebê-los, afinal à medida que se vai envelhecendo a capacidade de cuidar de si mesmo vai diminuindo e ele se aproxima psiquicamente de sua primeira infância. Talvez até por isso as matérias tenham me chamado tanto a atenção. Ambos os casos falavam da primeira infância, do desamparo e da necessidade do cuidado desvestido de troca, apenas uma necessidade primitiva de receber para continuar vivo, que em outro momento de nossa vida foi tão real e tão vital.
Assinar:
Postagens (Atom)

.jpg)




