domingo, 10 de fevereiro de 2013

A Mentira

Advirto: não leia antes de dormir, pode causar insônia.
Por esses dias vi um filme na televisão cujo título era: "O primeiro mentiroso". O filme é regular, porém achei o argumento bem interessante. Era sobre uma sociedade em que não existia a mentira e muito menos o conceito de verdade, afinal um não existe sem o outro. Era tudo concreto. As pessoas falavam o que pensavam, sem reflexões sobre o que pensavam, falavam apenas, assim se estabeleciam as relações humanas, se é que se poderia definir "aquilo" por relações humanas. Meio complicado de entender, vou dar alguns exemplos: uma moça foi sair com o protagonista e disse que estava saindo com ele só para preencher o tempo porque na verdade ele não era o tipo dela. Disse antes de sair que iria se masturbar, que ele chegou muito cedo e atrapalhou esse seu plano. A secretária do protagonista disse que não tinha anotado nenhum recado porque o chefe iria demiti-lo, que detestava trabalhar com ele, o achava um fracassado. O chefe quando foi demiti-lo falou que talvez não fizesse isso hoje porque se sentia mal com isso e voltaria amanhã para fazê-lo. O protagonista trabalhava em uma empresa de documentários, os filmes nessa sociedade eram só sobre os fatos acontecidos na história do mundo. O protagonista trabalhava com o século 14, século da peste negra, e o iriam demitir porque seus roteiros eram muito deprimentes. Lógico, esse século era deprimente diz o protagonista. Os fatos eram relatados exatamente conforme o acontecido, sem licença poética, sem ficção, sem ilusão, sem histórias paralelas. Era o que era. Ponto. Um vizinho do protagonista ao ser perguntado como estava relatou que passou a noite vomitando por ter tomado muitos comprimidos para se matar. Os diálogos eram muito chatos, depressivos. As pessoas só falavam delas e não viam ao outro. O outro não era levado em consideração em seus pensamentos, só existia o si mesmo. Quando isso mudou no filme? O protagonista foi demitido e seria despejado, por não ter dinheiro para o aluguel. Foi ao banco tirar o que lhe restava na conta. Ao chegar no banco a caixa disse que o sistema estava fora do ar, mas que ele poderia dizer qual a quantia que tinha ........ nesse momento apareceu uma imagem de um "curto" em seus neurônios e ao invés de dizer $ 300 disse $ 800, o que não era verdade. A caixa foi lhe dar o dinheiro e nesse exato momento o sistema voltou. O protagonista ficou arrasado .... a caixa consultou o sistema o informou: "aqui diz $ 300, o senhor disse $ 800, acho que nosso sistema está com algum problema, então vou lhe dar os $ 800". Bizarro, para nossos dias. Totalmente bizarro, naquela sociedade não existia a compreensão, o conceito do não fato, da não verdade, o que era dito por alguém era o que era. O protagonista saiu de lá confuso e foi visitar sua mãe que estava em um asilo. O slogan do asilo era: "lugar para deixar pessoas já sem esperança de vida e que foram abandonadas por seus parentes". A mãe estava morrendo e em seus últimos minutos dizia ao filho que estava com medo de ir para o vazio, porque a morte era o vazio. O filho, comovido com essas palavras, começou a dizer para a mãe que sabia que a morte não era um vazio e sim um lugar com mansões, que ela iria encontrar com outros parentes já mortos e teria uma eternidade de felicidade. A mãe morre com um sorriso e as enfermeiras e médicos que estavam no local se impressionam com o que ele sabia e começaram a divulgar sobre um homem que sabia coisas que ninguém mais sabia. Naquela sociedade não se questionava o dito. O dito era fato, o falado era A verdade. Se os neurônios do protagonista sofreram um "curto-circuito", os meus começaram a bombardear reflexões sobre mentira, verdade, o outro, o lugar da mentira nas relações humanas, etc. E ficou tudo muito confuso, mas também bem interessante. Adoro o complexo, o paradoxo, os acho tão parte do humano que resolvi colocar minhas conexões reflexivas para funcionar. Em nenhum momento me atrevo a pensar que chegarei a alguma conclusão, acredito que muitas teses de sociologia, filosofia, psicologia já foram feitas sobre o assunto. Vou refletir sobre mentira e verdade a partir dessa sociedade descrita no filme. Como os fatos eram só o que existia, desejo ou imaginação estavam fora de questão. Se alguém contasse que foi demitido, nessa sociedade o dito era: "tá ferrado, você é um fracassado". Quem de nós já não consolou uma amiga ou um amigo que perdeu o emprego e nossa fala foi: "tenho certeza que você conseguirá outro emprego logo, é uma questão de tempo, você é tão qualificado, etc.". Mas isso é verdade? Você tem certeza que será assim? Você não sabe, mas mesmo assim diz algo que não sabe porque acredita que isso possa ser verdade e também gosta muito daquele amigo e acha que ele merece essa injeção de ânimo. Dizer: "cara você tá ferrado, já passou dos 40, o mercado de trabalho está muito competitivo, tem gente mais qualificada que você, muito difícil de se recolocar", beira a crueldade. É chutar cachorro morto na calçada. Esse é o cenário, mas será que por ser esse o cenário não haverá outra alternativa? É uma mentira proporcionar consolo ao outro ou é uma ilusão necessária para que outros cenários possam ter lugar? Não só o concreto.  Por que chamar de mentira? A palavra mentira vem tão carregada de preconceito e moralidade que rejeitamos automaticamente dizer que a utilizamos. Mas fazemos isso sempre, vários dias contamos "mentirinhas" para nós mesmos e para outros. Essas mentiras são: pegar os fatos nus e crus, horrorosos, sem nuances e tons, e os colorir com nossos desejos, com nossas expectativas. Esse é o subjetivo, o que nos movimenta, o que dá sentido para continuar. O mentir está ligado ao desejo. Não estou falando sobre mentiras patológicas, o mentir para se sobrepor ou tirar algo do outro. Estou falando do lugar da mentira na construção do meu eu, do outro e dessa relação. E ao mesmo tempo sobre o lugar da verdade nessa mesma construção. Será que existe verdade e mentira ou existe o trânsito entre realidade, desejo e ilusão? Vamos falar das crianças, as super hábeis no universo desse trânsito. Não conheço criança alguma, e nem adulto que não tenha contado muitas mentiras quando criança. Por que criança faz isso com frequência? Por que a criança tem interesse em realizar seus desejos na hora em que aparecem, e por incontáveis vezes para que possam fazê-lo, precisam usar da sabedoria da mentira para os satisfazer. Ainda têm dificuldade em postergar a satisfação do desejo. E os adolescentes, então, são os mestres da mentira.  Estão na fase de se desligar dos modelos paternos e maternos e descobrir o seu modelo. Será que "mentira" e desejo andam juntos? Por que julgar tanto uma mentira e não questionar mais os motivos que me fazem usá-la? O tema vai ficando complexo. Existem tantos nuances na qualificação de verdade, mentira, ilusão, imaginação, que não há fechamento, só aberturas. E assim nos expandimos e não ficamos naquele mundinho concreto, e cinza, em que fato é fato, e só. Outro questão que quero abordar é o quanto no filme eu percebi que essa aparente autenticidade, em dizer tudo o que penso, era, não exatamente uma autenticidade, um egocentrismo extremo. Não há o outro e seus sentimentos, só os meus. Não importa que o que eu diga vá afetá-lo, deixá-lo triste ou abalado, eu digo o que digo e sou assim. Não havia espaço para a afetividade com o outro. Não que eu esteja defendendo que mentir para o outro é considerá-lo, longe disso. Mas considerar o que o outro sente, o que sinto pelo outro, estabelece a comunicação entre a realidade, imaginação, ilusão e desejo. 
O tema é complexo, mas tão interessante ....... são tantas as verdades, e tantas as mentiras, e tantos entres. Por que o verniz social é necessário? Por que deixamos esse verniz muitas vezes modelar nosso eu? Qual o espaço que posso ter nesse trânsito entre social, eu e o outro, afinal eu preciso do outro e o outro também precisa de mim? Mentimos para nós mesmos? ............ Boa reflexão para todos. 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Escolhas

Estou lendo uma biografia do Freud, escrita por Peter Gay, historiador e psicanalista. Está muito interessante,  bem escrito e, como bom historiador, situa a vida de Freud dentro do cenário político e social da época. Mas ..... em determinado momento sofri certa parada respiratória. Freud, na idade em decidir-se pela escolha profissional, cogitou seriamente seguir a carreira jurídica. Fiquei sem ar por alguns segundos. Vários flashes de perguntas vinham a minha mente. Como seria se ele tivesse optado por essa área? Será que em algum momento de sua vida teria chegado a construir tão profundamente uma nova visão do homem como o fez? Como seria a psicologia hoje? 
Uma psicanalista que conheço, em sua monografia de mestrado, abordou um conceito proposto por Foucault: a instauração de um novo campo discursivo. Em linhas gerais é a proposição de "algo" novo, original, e a partir dele, abre-se espaço para novas possibilidades de pensamento, mesmo que sejam contrários. A partir dessa discussão novos conceitos ou novas idéias são construídas e, inegavelmente, para que isso possa acontecer é necessário voltar-se ao conceito original, ao novo campo. Ou seja, sem o novo campo não há desdobramentos, não há extensões, crescimento, mudanças, etc. Então, haveria o novo campo discursivo, a psicanálise? O que teria no lugar? 
São perguntas sem respostas e na sequência dessa enxurrada de questões veio o alívio. Afinal ele não seguiu a carreira jurídica e sim a médica. Mesmo dentro da carreira médica havia tantas opções e Freud escolheu uma que possibilitou-lhe expandir o pensamento e teorizar sobre a psicanálise. E a partir dele tantos outros psicanalistas, Lacan, Ferenczi, Fedida, Winnicott, Melanie Klein, e muitos outros.  
Escolhas .... escolhas .... são sempre presentes em nossas vidas. O tempo todo fazemos escolhas, desde as mais simples, que pouco ou nada afetam nosso cotidiano, como outras que notoriamente trarão mudanças no curso de nossa história pessoal. E com essas escolhas vem a angústia, a dúvida, a incerteza do desdobramento. Mas uma certeza também fazer parte, a certeza que as coisas ficarão diferentes, mudanças acontecerão, desdobramentos desconhecidos surgirão. Ao escolher-se algo deixa-se de escolher outros diversos algos. Várias possibilidades, poucas ou só uma caberá. Escolher, decidir é angustiante. Ganhamos o incerto e ficamos em luto pelas possíveis outras possibilidades. Colocando assim parece aterrorizante, só que o  contrário da escolha é uma paralisação em vida, uma mortalidade do vivente humano. É um encolhimento do si mesmo. Tive uma paciente (já relatei esse caso no texto depressão), com um quadro depressivo moderado, que me descrevia pensamentos e sensações muito angustiantes, mas que não compartilhava com ninguém já que os achava tão estranhos que tinha receio de ouvir-se ou mesmo de ver o semblante confuso para quem contasse. Minha paciente em determinado momento de sua vida tomou uma decisão que viria mudar muitos aspectos de sua vida. Na época ela sabia que era uma decisão muito importante, planejou, traçou metas e acreditou que tudo ocorreria próximo ao imaginado. Mas não foi bem assim. Foi tudo muito diferente e sua vida foi modificada de uma maneira que não estava preparada, com perdas significativas. Foi sentindo-se triste, desamparada e sufocada por si mesma. Tinha insônias frequentes e nessas horas insones uma angústia de aniquilação tomava conta dela. Relatava-me que se sentia como no filme "Efeito borboleta", o qual nunca tinha assistido. Via as chamadas do filme e entendia que era  sobre uma pessoa que voltou ao seu passado para mudar algo, para ficar melhor, mas que ao fazer isso os efeitos eram devastadores. O personagem do filme insistia em tentar consertar isso, voltando novamente ao passado para modificar esse algo, mas as consequências  continuavam devastadoras, sempre piorando o que já estava ruim. Era como ela se sentia. Ao tomar aquela decisão que abrangia aspectos muito importante da sua vida, começou a acreditar que tomou uma decisão equivocada (como o personagem que voltou ao passado) e a partir disso passou a sentir que qualquer ação ou atitude que tomasse só iria se desdobrar em algo pior do que estava vivendo. Não via saída para si mesma. Essa sensação era tão autêntica, não era um pessimismo, era uma certeza. Vivia aterrorizada por si mesma, com medo. Queria sentir-se melhor, fazer alguma coisa, mas tinha medo de tomar qualquer decisão, pois sentia que qualquer coisa que fizesse redundaria em algo pior. Paralisou, sofria muito por isso e não fazia mais escolhas, não tinha mais coragem. Seu maior sofrimento também estava relacionado a isso, a não conseguir mais fazer escolhas, fundamentais para nossa existência, nosso crescimento. 
A vida vivente nos pede que façamos escolhas. Algumas são mais simples de serem tomadas e outras não. É  sem dúvida um processo angustiante o qual precisamos enfrentar se quisermos continuar a expandir. Somos originais, somos singulares e crescer, expandir é parte do vivente. É fácil? Não. É parte? É.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O céu é o limite?

Vez por outra leio reportagens que me deixam confusa . . . . .  confusa no sentido de não conseguir formar uma opinião minimamente consistente. Por outro lado é bom porque me faz pensar . . . . adoro pensar. Li hoje pela manhã na folha de São Paulo que atletas femininas estão tomando medicamentos para alterar seu ciclo menstrual ou eliminar a TPM  para que possam participar com excelência nas competições. Para que essas sensações e incômodos desse período não afetem seu desempenho. Essas intervenções químicas no organismo, com o intuito de fazer com que o organismo tenha seu melhor rendimento, dê aos atletas a oportunidade dele não atrapalhar, sempre acendem uma luz amarela no meu cérebro. Não sou contra intervenções químicas, muitas são necessárias para estabilizações de quadros ou mesmo para o planejamento familiar. O que me faz pensar nessa matéria é o motivo que leva as atletas a interromperem seu ciclo menstrual, é para que tenham um desempenho ótimo. Sua profissão é a competição, portanto, qualquer coisa que venha atrapalhar seu rendimento deve ser eliminado. A menstruação é uma delas, um ciclo natural do organismo, que teoricamente deveríamos respeitar. O organismo feminino foi concebido com essa característica e quando o eliminamos porque nos atrapalha, em parte estamos encapsulando algo que só é próprio da mulher. Bem . . . . se algum atleta estiver lendo isso com certeza deverá pensar: "é bem coisa de psicólogo que não tem mais o que fazer, já que vencer é muito mais importante do que ser mulher". Não posso deixar de concordar, esse é seu objetivo de vida. Sinto um dilema, o esporte é o que movimenta aquele indivíduo, mas ao mesmo tempo negar sua própria condição . . . . . socorro . . . . . qual o limite entre o que se é e o que se faz? Saindo do mundo dos esportes, entrando no mundo do desempenho escolar. Hoje estão prescrevendo para adolescentes medicamentos que aprimoram seu rendimento no aprendizado. Não estou falando da Ritalina (medicamento largamente utilizado hoje para os "diagnósticos" de TDAH (transtorno de deficit de atenção e hiperatividade), mas de medicamentos que estimulam o cérebro do adolescente de maneira que se concentre mais e tenha um desempenho nos estudos mais eficiente. É necessário? Estão sendo denominados até de pílulas da "inteligência". Por que não usá-los? Afinal não se está "inventando" nada, só turbinando o cérebro e por isso o adolescente terá chances maiores de entrar em boas universidade e provavelmente ser um profissional bem sucedido. Isso é algum crime? Vivemos em uma sociedade competitiva e o valorizado é o destaque. Mas, até que ponto, a pessoa não "fabrica" uma idéia sobre si mesma, volta-se só para o externo, para o bem sucedido. Essas temáticas me lembram o livro "Admirável mundo novo" escrito por Aldous Huxley em que as pessoas eram todas "felizinhas", todos os dias tomavam a pílula da felicidade (SOMA). Também eram geneticamente concebidos para as "castas" às quais iriam integrar desde o seu primeiro dia de vida até sua morte. Não havia mobilidade. Era um mundo "perfeito", com equilíbrio social e emocional. Tudo planejado, nada questionado. Ouço com frequência relatos de mulheres ou homens que foram a seus clínicos gerais, ou médicos de confiança e queixaram-se da dificuldade de lidar com a pressão no trabalho, que estavam meio tristes e o médico prescreveu fluoxetina (anti-depressivo). Ou seja, o aprendizado diário para lidar com o cotidiano, com as angústias, com os conflitos é substituído por um medicamento que gera bem estar, por isso tudo fica mais fácil. O que acontece quando tira-se esse medicamento . . . .  tudo volta a ser como era antes, o vestido a ser de chita, a carruagem a ser abóbora e os cavalos, ratinhos. Como equilibrar isso? Não estou levantando a bandeira do sofrimento é importante,  mas como podemos modificar algo em nós se não entramos em contato, se não lidamos com nossas deficiências, com nossas impotências? O adolescente que para destacar-se turbina o cérebro, aparentemente para ingressar em uma faculdade, vai continuar a fazê-lo durante a faculdade para dar conta e vai continuar a fazê-lo quando ingressar em uma empresa, afinal, para virar diretor, tem que se destacar e por isso o cérebro tem que ter o máximo de seu rendimento. E aí, se todo mundo começar a tomar o remédio da inteligência e todos conseguirem dar o máximo de seu desempenho, o que fazer? A indústria farmacêutica vai procurar novos medicamentos? Então, para ser uma atleta mulher, eu tenho que suprimir meu biológico mulher? Quando não for mais atleta, aí meu biológico pode existir naturalmente? Que confusão. Qual é o limite entre o que vem de fora e o que sou por dentro?


domingo, 8 de julho de 2012

A construção de nossa história

Era uma vez . . . . . Cuidei de um paciente que sofria muito com os conflitos vivenciados com seus pais. A maneira como foi educado, a maneira como via que conduziam as própria vidas, a maneira como não se sentia aceito e visto, e outras tantas coisas. Certo dia, em consulta, depois de alguns acontecimentos extremados resolveu que o "problema" não eram os pais, mas ele mesmo, justificando tal afirmativa através da análise que fez da história de de vida de seus pais e de como ele, ainda bebê, era difícil. Concluiu que a culpa era dele. Perguntei-lhe o por quê da necessidade de desculpar seus pais e culpar a si mesmo? E mais, o por quê da necessidade de haver um culpado? Ficou me olhando como se eu tivesse dito tudo isso em hebraico. Naquele momento não fez sentido nenhum para ele a ausência de "culpados", afinal alguém é sempre o culpado, sejam os outros ou sejamos nós mesmos. Ao nascermos, seja lá em que família for, já haverá uma história escrita anterior ao nosso nascimento, com suas marcas, seus brasões e, ao nos inserimos nela, ao iniciarmos nossa existência objetiva e subjetiva nessa história, serão impressos em nossas vidas significados muitas vezes desconhecidos. Somos originários de uma história anterior a nós e continuaremos a escrevê-la mesmo quando não estivermos mais presentes. É uma espécie de imortalidade, que nada tem a ver com potência ou super poderes, mas com continuidade, com construção. Somos antes de nós e seremos depois de nós. Certa vez li um livro, cujo título é "A imortalidade". O desdobramento da obra versava sobre pessoas que buscavam tornarem-se imortais através de relacionamentos com alguns gênios literários, na esperança que, como essas personalidades realizaram produções atemporais, a pessoa que queria tornar-se simbiótica àquela, tinha como busca a imortalidade através do outro. Essas obras ecoavam em algo relacionado ao original do ser humano e por consequência seus autores e obras mantêm-se atemporais no imaginário coletivo. Só para ajudar a ilustrar esse conceito que, aparentemente, parece meio "viajante", Miguel de Cervantes é um excelente exemplo. Quem não conhece, mesmo se não leu, a obra "Dom Quixote" cuja primeira edição foi publicada em 1605, há mais de 400 anos. Hoje, no ano de 2012, tanto os personagens como seu autor continuam vivos. São atuais, imortais de sentido. Mesmo quando não estivermos mais aqui essa obra continuará a produzir significados viventes, produziu isso antes de nós e o continuará a fazer depois de nós. Sua imortalidade não está relacionada ao retrato de uma época, mas com o retrato de processos humanos, com a busca de construção de uma história de si mesmo, desencadeada pela atração a outras histórias, os romances de cavalaria, delineada no subjetivo. O livro não se constrói dentro da realidade objetiva, apesar de precisar sustentar-se dentro dela. Sancho Pança pode ser visto como essa figura, a realidade objetiva, mas a outra história, a história subjetiva, é também pilar de construção da história. Agora uma pergunta. E a história da qual originamos, que foi escrita muito antes de nós, a vivemos na realidade objetiva? Parte dela sim, porém outra não. A história da qual originamos, sem dúvida, está presente em nós, em nosso subjetivo e traz raízes para a construção de nossa própria história. Vejam bem, eu usei traz raízes, não faz ou planta, traz. (Em outro momento, já propus uma reflexão sobre esse tema, como nossa história não é só nossa ou mesmo como pode ser constituída de muito vazio). Comecei esse texto de hoje com "Era uma vez....", início típico de contos de fadas. Por que comecei assim, queria falar sobre fantasia? Não, sobre os significados e as marcas que esse "era uma vez" deixa em nossa linha histórica. Há um conhecido livro, "A psicanálise dos contos de fadas" que elucida o sentido dessas histórias, hoje tidas como aterrorizadoras e politicamente incorretas. Os contos de fadas são recheadas de figuras más, bruxas, magia, angústia, abandono, ciúme, inveja, castigos. Inclusive as versões originais são muito mais aterrorizadoras do que as versões Disney. Têm finais bem "sádicos" para alguns dos vilões. Por exemplo, em Branca de Neve, na versão original a bruxa tem como fim dançar até a morte calçando sapatos de ferro em brasa. Beira a tortura. No livro "A psicanálise dos contos de fadas", o autor explora os significados dessas histórias no subjetivo da criança. Simplificando essa proposta, e muito mesmo, a criança sente angústias, sente o abandono, sente maldade, mas não tem recursos para lidar com isso. Essas histórias de alguma maneira falam sobre o que sentem e de alguma maneira mostram que isso muda. Não dão fórmulas, não é algo que a criança irá aprender a resolver, mas é algo que sentirá como fazendo parte de si, que é real, mesmo sabendo que é uma história. Sua angústia tem um lugar de pertencimento, ela existe e por isso não precisa ser assustador. A criança não se tornará psicopata acreditando que ao torturar fará justiça, sente que o que está sendo contado não é real na objetividade, mas é real em suas sensações. E o adulto, quanto está procurando entender, conhecer a si mesmo, dá para ignorar a história já "escrita" muito antes à sua vinda? Dá para ignorar que as marcas e os contornos dessa história tem a ver com sua própria história? Que marcas essa história imprimiu em mim e que significados se desenrolaram ou se esconderam? É a partir desse olhar, dessa "visita aos mortos vivos" que muitas coisas poderão ter seus contornos modificados, ter seus sentidos desvelados, que marcas poderão ser redesenhas e feridas poderão ser cuidadas. Olhar a história original não é expiar a culpa, procurar o culpado, é tornar parte de si mesmo algo que sempre foi, mas que agora pode ter uma originalidade própria. E essa originalidade própria em conjunto com o anterior já escrito também imprimirá marcas na vida de outro alguém, levará raízes a esse outro alguém, que também, ao olhar para toda essa construção histórica, também terá a oportunidade de dar um contorno próprio. E assim a imortalidade seguirá seu curso e criará novas imortalidades, sempre e através da continuidade da construção da história. Era uma vez . . . . .

domingo, 1 de julho de 2012

Os cuidados da primeira infância

Hoje no jornal diário, que não tenho lido diariamente, li duas reportagens no caderno saúde que me remeteram ao tema dos cuidados da primeira infância. Ambas as reportagens abordavam casos de pessoas com doenças gravíssimas. O interessante é que uma delas era sobre um idoso, bem doente, e a outra sobre um bebê, que no segundo mês de vida desenvolveu uma doença muito grave. Ambos com riscos eminentes de morte. E, coincidência ou não, os dois em momentos opostos do ciclo da vida. Um próximo ao final desse ciclo e o outro logo no início. Só que no caso do senhor idoso a reportagem foi feita porque a família precisou tomar medidas extremas, além das medidas judiciais, para que o plano de saúde liberasse os procedimentos necessários. No caso do bebê foi um transplante de fígado que transcorreu sem as intercorrências capitalistas. Lógico que me mobilizei pelos dois casos, mas no caso do idoso senti aquela sensação de desamparo, tão doente, e tendo os procedimentos negados, como isso é injusto, afinal se nos sentimos doentes precisamos de cuidados. Por que não podemos recebê-los? Estamos nos sentido mal porque não podemos ser cuidados? Na área da saúde essa é uma equação muito complicada, ainda mais em um sistema de mundo capitalista, ou de superpopulação, ou de abismos tecnológicos e discrepâncias de renda, ou mesmo de profissionais desinteressados. Seja lá quais forem os motivos, mas os cuidados da área da saúde nos remetem a nossa primeira infância. Afinal nascemos totalmente desamparados. Não sobreviveremos se não houver um outro para cuidar de nós. Enquanto bebezinhos, quando sentimos uma estranheza, logo nos pomos a chorar (nosso único mecanismo de comunicação) e alguém vem ver o que está acontecendo. Recebemos o leite, o alimento, nos dão banho, nos trocam, nos agasalham, ou seja eu recebo sempre do outro o que estou precisando. E não dou nada em troca por isso, não sou desenvolvido para isso. Por enquanto eu só posso receber, não possuo desenvolvimento suficiente para dar. Não tenho capacidade, ainda, para cuidar de mim mesmo. Na verdade nem tenho ciência do que preciso. Só sinto que não estou bem e aí vem o outro e faz com que eu me sinta bem. Parece até uma descrição ingênua, infantilizada do que acontece, mas é isso mesmo, é uma "troca" ainda bem primitiva, pouco elaborada. Sinto-me mal e alguém faz com que me sinta melhor. Essa é nossa primeira experiência de "troca" com o mundo. E por isso mesmo, já enquanto adultos, quando não nos sentimos bem, nossa primeira experiência de cuidado será acionada, nos sentimos desamparados e é difícil aceitar que para que cuidem de nós precisamos pagar (dinheiro). Temos a lembrança de um cuidado doado e não de um cuidado trocado. E deveria ser assim sempre, se eu perdi a capacidade de me cuidar porque o outro não pode me ajudar nisso sem que eu tenha que pagar?   Sou psicóloga e a hora de acertar o valor da consulta é sempre angustiante tanto para o psicólogo quanto para o paciente. Ele está lá, sofrendo, com dores aparentemente inexplicáveis, como nos primeiros meses de vida cuja ciência dos motivos pelos quais está se sentindo mal é vaga, e aí um profissional da área dos cuidados psíquicos quer cobrar para cuidar. Um pouco ultrajante. E ainda o papel o psicólogo será muito parecido com o papel daquele outro da minha primeira infância. Irá cuidar no sentido do amparo, no sentido acolhedor, no sentido de cobertor, cuidados que eu recebia sem ter que dar nada em troca. Na medicina clínica existem os exames para comprovar, algo pragmático que mostra o que o faz se sentir mal e prescreve uma conduta com algo do externo, remédios, intervenções cirúrgicas, etc. E na psicologia? O que temos para cuidar são as sensações, as emoções, o sofrimento psíquico, um mal estar geral que nada tem haver com o biológico. Não prescrevemos nada que vem de fora (salvo casos em que há a necessidade de em paralelo de intervenção medicamentosa psiquiátrica), nossas "prescrições" estão sempre atreladas à história de vida do indivíduo, às suas experiências, ao que sente, ao seu desamparo, ao seu sofrimento, etc. O "material" que sempre usamos é de "posse" daquele indivíduo que está lá na nossa frente se desnudando e buscando sentir-se melhor. E temos que cobrar por isso ..... como é difícil. E para o paciente também é muito difícil pagar por isso. Sempre há certa transferência de raiva na hora de pagar, mesmo quando sente que está sendo cuidado. Em sua primeira infância esses cuidados sempre foram naturais e ao tornar-se adulto, porque não pode ser como antes? Quando adultos, ao sentirmos que não estamos capazes de cuidar de nós e precisamos de um outro que nos ajude nisso, sempre nos remetemos a nossa primeira infância, em que os cuidados eram espontâneos e, via de regra, faziam com que me sentisse melhor. Acredito que até por isso, quando doentes, do corpo ou do psiquismo, é muito difícil lidar com essa troca financeira que o modelo de saúde da atualidade nos impõe. Acredito que este possa ser um do motivos que o idoso sofra tanto ao necessitar de cuidados e não recebê-los, afinal à medida que se vai envelhecendo a capacidade de cuidar de si mesmo vai diminuindo e ele se aproxima psiquicamente de sua primeira infância. Talvez até por isso as matérias tenham me chamado tanto a atenção. Ambos os casos falavam da primeira infância, do desamparo e da necessidade do cuidado desvestido de troca, apenas uma necessidade primitiva de receber para continuar vivo, que em outro momento de nossa vida foi tão real e tão vital.

sábado, 7 de abril de 2012

Paradoxo

Durante muitos anos e há vários eu trabalhei na Avenida Paulista esquina com a Rua Frei Caneca - São Paulo -  Brasil (pelas estatísticas que recebo do blogger existem leitores que acessam de outros países,  e também com certeza, nesse Brasil enorme, essas ruas devem existir em cidades). Continuando os parênteses (em algum momento vou voltar ao tema principal, título do texto) adoro a Avenida Paulista e seus arredores. Lá tudo cabe. São muitas as pessoas que circulam e só de olhar para o semblante delas uma enxurrada de fantasias sobre suas histórias de vida se faz presente. É muita diversidade. Vê-se pessoas sozinhas ou em duplas e grupo, adolescentes, amigas conversando, rindo, já vi também chorando, homens de terno e gravata, mulheres de terninhos ou conjunto executivo de saia e blazer, saltos altos em calçadas esburacadas, também mulheres de rasteirinhas, homens estátua para ganhar alguns trocados e moedas, rapazes e garotas com mochilas, os anteriormente denominados hippies,  hare krishnas, muitas lojas, alimentação, shoppings, cinemas, teatro, museu, igrejas, colégios, hospitais, um constante circular de pessoas em apenas, para as dimensões paulistanas, 3km. A vida lá mostra muito movimento, muita diversidade, circulam muitas emoções. Pensemos no hospital: muitas pessoas saem de lá contentes, com sentimentos de esperança e alegria porque a família acabou de ganhar um novo serzinho que nasceu muito bem, está saudável. E outros tantos talvez estejam saindo da visita à UTI totalmente desolados, desesperançados porque a perda de um  ente querido parece próxima. Essas pessoas circulam pela mesma avenida e seus afetos junto. O parênteses não exatamente fechou, mas já comecei a falar um pouquinho sobre o paradoxo (talvez o parênteses nunca tivesse aberto, porque o paradoxo já estava presente). Por que citei a Paulista e sua esquina com a Frei Caneca? Lá eu vivia diariamente o que entendo como um paradoxo. Ia de carro e para entrar e sair do estacionamento da empresa precisa enfrentar essa esquina em que uma legião de pedestres atravessava. Se eu ficasse esperando os pedestres me darem passagem o sol iria se pôr e eu continuaria, ali, esperando (essa esquina não tem farol de pedestres). Então de maneira o mais ou menos agressiva, de qualquer forma era agressiva, eu vagarosamente impulsionava meu carro chegando bem perto dos pedestres até que eles paravam e eu seguia com meu carro. Só que no horário do almoço muitas vezes eu atravessava aquela esquina a pé. Então, como pedestre, eu avançava em direção aos carros que ali queriam virar para que me dessem passagem. Para mim era uma equina na qual eu vivenciava um paradoxo. Eu, enquanto motorista, avançava e "ignorava" os pedestres, e enquanto pedestre, avançava e "ignorava" os carros. Essa experiência me fazia pensar pensar no conceito do paradoxo e como ele fazia parte em muitos momentos do dia. Só que por alguma defesa não se menciona ser paradoxal, mas com conflitos . . . . o que não anula o fato de ser um conflito. Qual a diferença entre paradoxo e conflito? Todos admitimos que o conflito é parte do dia a dia do humano. Mas e o paradoxo?
Mães e pais vivem diariamente com o conflito na educação e nos sentimentos em relação aos filhos. Ao mesmo tempo que são afetuosos, carinhosos e compreensivos, também são enérgicos, duros e muitas vezes nada democráticos. É um paradoxo, é um conflito. O interessante é que usar a palavra conflito torna muito mais suave, mais aceitável do que se sentir paradoxal. O paradoxo mostra a necessidade de se posicionar, pois não é aceitável, na lógica, que dois sentimentos contratórios, ou duas idéias contraditórias possam conviver, co-habitar em uma mesma pessoa. Já o conflito parece uma "briguinha" de idéias que com o tempo se resolverá. Recentemente estudei com uma colega um texto sobre a comunicação entre dirigentes e subordinados. O texto era um paradoxo só, mas que tentou com toda a lógica acessível provar sua proposta: que os dirigentes são os grandes vilões na dificuldade da comunicação nas empresas. Até hoje me pergunto que parte da realidade aquela argumentação espelhava? O paradoxo parece ser um conceito imóvel, ele tem "a lógica a seu favor". O conflito tem mobilidade, é pensar a respeito, fazer as mudanças necessárias que ele poderá diluir-se. O paradoxo não dilui, ele é. Continuando a  exemplificar com o texto que estudei com minha colega, havia em determinada parte da defesa de que os dirigentes usavam da comunicação como ferramenta de poder e dominação e instalavam em seus subordinados uma desvalia que os reforçava a continuar a se submeter à dominação dos dirigentes. Discutimos muito, através de uma visão particularmente pessimista, que o sadismo, o egocentrismo e o narcisismo são do humano e os jogos corporativos nada mais são do repetição de anos de história, de movimentos humanos, mas em outra época, com outra roupagem, outro cenário. Mas será que por "concluirmos" isso a "problemática" em questão não tenha solução? Não sabemos, as relações humanas são complexas, o ser humano é complexo e a tentativa de simplificação disso tira a essência de sua característica que é a complexidade. Complexo . . . . como resolver o paradoxo? Sua essência parece ser exatamente a não solução. O conflito pede solução e o paradoxo o que pede? Será que é compreensão e integração ao humano? Minha pretensão não é dar solução a esse aparente "enigma", mas propor reflexões, e muito menos pretendo ser lógica. Acredito que no paradoxo, que por definição exige lógica, a maneira de integrá-lo a nosso humano não é através da lógica, mas da intuição. O paradoxo é parte do humano, da existência pessoal e global e existem experiências e sentimentos que vivenciamos nos quais a lógica não é aplicável. "Apenas" devemos sentir e perceber que aquilo, aparentemente meio estranho, é parte de nós. Será que tudo tem que ter uma resposta cabível no que hoje entendemos como lógica? A integração de algo tão próprio do humano é importante e dar o devido respeito à sua complexidade é ótimo. Somos tão mais amplos do que a dita lógica tenta nos reduzir. 


quinta-feira, 29 de março de 2012

Chefia masculina ou feminina, o que é melhor?



Tema complexo. Recebi em um desses boletins de RH uma matéria sobre os resultados de uma pesquisa cujo tema era: "se as mulheres preferiam ter como chefes homens ou mulheres?". O resultado apresentado afirmou que 82% das mulheres entrevistadas afirmavam preferir homens como chefes. As razões que justificavam tal preferência foram as mais genéricas possíveis. Confesso que pesquisas do gênero me incomodam do começo ao fim, já que procuram padronizar e justificar algo "impadronizável". Cada ser humano é único, cada um tem uma historia de vida, foi criado em uma cultura familiar única que inserida nos valores morais e sociais da época em que vivem, configuram aquele ser humano em particular. Nos dias atuais, no mundo Ocidental, as mulheres estão cada vez mais à frente do mercado de trabalho e talvez por isso estejam mais em evidência na atualidade. Há poucos anos essa configuração social mudou, e toda mudança demora um tempo para se acomodar. Durante muitos anos trabalhei em grandes corporações e independente da empresa o discurso feminino sobre a liderança da figura feminina era o mesmo. Frases do tipo: "prefiro trabalhar com homens, mulher é muito invejosa", "mulher é muito competitiva", "mulher não sabe lidar com o poder", "aposto que está de TPM", "ninguém aguenta esses hormônios", etc.... essas frases eram diariamente repetidas por diferentes mulheres. Sempre me incomodou, afinal era uma mulher generalizando características de outra mulher, então .....  se quem fala é mulher, ela também é assim, segundo sua própria concepção de mulher. Simples, né? Não, a mulher que emitia sua generalização não falava dela e sim da outro tipo de mulher, se colocando então em outro gênero do femino (paradoxal, digamos) em que essas características não eram parte dela.... uma mulher. Confuso .... mas era assim que funcionava, e funciona até hoje. As "falantes" ainda não perceberam que quando falam das característica genéricas do feminino estão falando de si mesmas e generalizando a si mesmas, também. Só que esse grau de conscientização, ou de lógica, não se aplica a elas. Então, conclui-se o que? Outra generalização muito divulgada e anunciada é que mulher é fofoqueira. Nessas empresas conheci vário homens que eram verdadeiras "candinhas" e outras tantas mulheres que eram muito discretas. (Abre parênteses - O "fofocar" fez parte da nossa evolução em sociedade, os motivos, agora não cabem, então o "fofocar" é parte do desenvolvimento social humano e não exclusivo da mulher. Todos "fofocam" (falar sobre a vida de outro, falar do outro), e dentro desse falar do outro existem as "fofocas" perniciosas, destrutivas que são utilizadas para derrubar.. "Fofocas e boatos" com intenção, com uma direção, podem ser armas letais. Fecha parênteses.) Voltando a mulher, ou melhor ao ser humano. Ficar batendo na tecla que o homem é assim e a mulher assado não ajuda em nada na melhoria da relação com a sua chefia, seja homem ou mulher. O que leva é questionar o papel da autoridade em nossa vida, como nos sentimos diante dela. Quem gosta verdadeiramente de ser subordinado? De estar sob o olhar, a vigilância e a crítica de alguém? Lembrem-se de quando éramos adolescentes: o pai, a mãe, a tia o tempo todo vigiando, querendo as "prestações" de conta do que fez, porque fez, do que deixou de fazer, etc....não eram muito bem vindos, pareciam grilhões na época (os sentimentos adolescentes são intensos). Será que a relação com as chefias não dá uma certa reeditada naquilo que já se vivenciou nessa relação de autoridade e castração. Afinal, ter o gostinho de fazer do meu jeito e frequentemente ser podado, é frustrante. E a relação com as chefias também é. Dentro das empresas o campo de atuação do eu, do próprio é limitado, é parte daquele sistema ter contornos bem definidos do que querem e do que não querem. Estar dentro de um sistema que limita tanto o meu eu é angustiante. Uma das saídas para um certo alívio dessa sensação é desqualificação daquilo tudo. E nesse pacote de desqualificações vem a chefia. Naquela organização eles entendem que sua competência não é para o comando, mas para ser comandado. Como isso dói ..... muitas vezes os chefes cometem tantos erros (são seres humanos, não são completos e por muitas vezes desconhecem muita coisa) e pode vir no íntimo aquela sensação de: eu faria melhor, por que não estou naquela posição? Se me desqualificam eu desqualifico também. É uma defesa. O que acredito, generalizando, fazendo exatamente a mesma coisa que estou "condenando" é que as mulheres que hoje ocupam cargos de liderança adquirem um status de poder (subjetivo) que é muito atraente. Que mulher não gostaria de ser citada como uma das poucas que conseguiram chegar ali e enfrentaram uma legião de homens .... uma genuína fêmea-alpha. Os homens, em nossa evolução, aprenderam a lidar com o macho-alpha, já a mulher não, afinal essa figura em nossa cultura social nunca existiu. Sempre foram os machos-alpha que comandaram. Só que agora temos as fêmeas-alpha. O que fazer? Talvez conhecer mais a cultura dos bonobos em que a figura central é uma fêmea-alpha, e além disso sabem se divertir bastante..... já os mencionei em outro texto (Touradas e sadismo). Por fim, deixemos as generalizações de lado e procuremos nossa própria identidade e de que forma consigo encaixá-la no meio que vivo e quero viver, sem que sinta tanta angústia. É um equilíbrio difícil, porém possível, que traz conforto, e o dia a dia fica bem mais suave. Homens ou mulheres como chefia, tanto faz, o que deveria estar em evidência é como sou.