Tema complexo. Recebi em um desses boletins de RH uma matéria sobre os resultados de uma pesquisa cujo tema era: "se as mulheres preferiam ter como chefes homens ou mulheres?". O resultado apresentado afirmou que 82% das mulheres entrevistadas afirmavam preferir homens como chefes. As razões que justificavam tal preferência foram as mais genéricas possíveis. Confesso que pesquisas do gênero me incomodam do começo ao fim, já que procuram padronizar e justificar algo "impadronizável". Cada ser humano é único, cada um tem uma historia de vida, foi criado em uma cultura familiar única que inserida nos valores morais e sociais da época em que vivem, configuram aquele ser humano em particular. Nos dias atuais, no mundo Ocidental, as mulheres estão cada vez mais à frente do mercado de trabalho e talvez por isso estejam mais em evidência na atualidade. Há poucos anos essa configuração social mudou, e toda mudança demora um tempo para se acomodar. Durante muitos anos trabalhei em grandes corporações e independente da empresa o discurso feminino sobre a liderança da figura feminina era o mesmo. Frases do tipo: "prefiro trabalhar com homens, mulher é muito invejosa", "mulher é muito competitiva", "mulher não sabe lidar com o poder", "aposto que está de TPM", "ninguém aguenta esses hormônios", etc.... essas frases eram diariamente repetidas por diferentes mulheres. Sempre me incomodou, afinal era uma mulher generalizando características de outra mulher, então ..... se quem fala é mulher, ela também é assim, segundo sua própria concepção de mulher. Simples, né? Não, a mulher que emitia sua generalização não falava dela e sim da outro tipo de mulher, se colocando então em outro gênero do femino (paradoxal, digamos) em que essas características não eram parte dela.... uma mulher. Confuso .... mas era assim que funcionava, e funciona até hoje. As "falantes" ainda não perceberam que quando falam das característica genéricas do feminino estão falando de si mesmas e generalizando a si mesmas, também. Só que esse grau de conscientização, ou de lógica, não se aplica a elas. Então, conclui-se o que? Outra generalização muito divulgada e anunciada é que mulher é fofoqueira. Nessas empresas conheci vário homens que eram verdadeiras "candinhas" e outras tantas mulheres que eram muito discretas. (Abre parênteses - O "fofocar" fez parte da nossa evolução em sociedade, os motivos, agora não cabem, então o "fofocar" é parte do desenvolvimento social humano e não exclusivo da mulher. Todos "fofocam" (falar sobre a vida de outro, falar do outro), e dentro desse falar do outro existem as "fofocas" perniciosas, destrutivas que são utilizadas para derrubar.. "Fofocas e boatos" com intenção, com uma direção, podem ser armas letais. Fecha parênteses.) Voltando a mulher, ou melhor ao ser humano. Ficar batendo na tecla que o homem é assim e a mulher assado não ajuda em nada na melhoria da relação com a sua chefia, seja homem ou mulher. O que leva é questionar o papel da autoridade em nossa vida, como nos sentimos diante dela. Quem gosta verdadeiramente de ser subordinado? De estar sob o olhar, a vigilância e a crítica de alguém? Lembrem-se de quando éramos adolescentes: o pai, a mãe, a tia o tempo todo vigiando, querendo as "prestações" de conta do que fez, porque fez, do que deixou de fazer, etc....não eram muito bem vindos, pareciam grilhões na época (os sentimentos adolescentes são intensos). Será que a relação com as chefias não dá uma certa reeditada naquilo que já se vivenciou nessa relação de autoridade e castração. Afinal, ter o gostinho de fazer do meu jeito e frequentemente ser podado, é frustrante. E a relação com as chefias também é. Dentro das empresas o campo de atuação do eu, do próprio é limitado, é parte daquele sistema ter contornos bem definidos do que querem e do que não querem. Estar dentro de um sistema que limita tanto o meu eu é angustiante. Uma das saídas para um certo alívio dessa sensação é desqualificação daquilo tudo. E nesse pacote de desqualificações vem a chefia. Naquela organização eles entendem que sua competência não é para o comando, mas para ser comandado. Como isso dói ..... muitas vezes os chefes cometem tantos erros (são seres humanos, não são completos e por muitas vezes desconhecem muita coisa) e pode vir no íntimo aquela sensação de: eu faria melhor, por que não estou naquela posição? Se me desqualificam eu desqualifico também. É uma defesa. O que acredito, generalizando, fazendo exatamente a mesma coisa que estou "condenando" é que as mulheres que hoje ocupam cargos de liderança adquirem um status de poder (subjetivo) que é muito atraente. Que mulher não gostaria de ser citada como uma das poucas que conseguiram chegar ali e enfrentaram uma legião de homens .... uma genuína fêmea-alpha. Os homens, em nossa evolução, aprenderam a lidar com o macho-alpha, já a mulher não, afinal essa figura em nossa cultura social nunca existiu. Sempre foram os machos-alpha que comandaram. Só que agora temos as fêmeas-alpha. O que fazer? Talvez conhecer mais a cultura dos bonobos em que a figura central é uma fêmea-alpha, e além disso sabem se divertir bastante..... já os mencionei em outro texto (Touradas e sadismo). Por fim, deixemos as generalizações de lado e procuremos nossa própria identidade e de que forma consigo encaixá-la no meio que vivo e quero viver, sem que sinta tanta angústia. É um equilíbrio difícil, porém possível, que traz conforto, e o dia a dia fica bem mais suave. Homens ou mulheres como chefia, tanto faz, o que deveria estar em evidência é como sou.
Momentos de reflexão sobre o cotidiano do ser humano a partir do dia a dia que vivemos.
quinta-feira, 29 de março de 2012
sexta-feira, 23 de março de 2012
Quando nosso EU está fora de nós
Todas as manhãs, no percurso que faço de carro ouço uma rádio de notícias. Nesse programa existem vários comentaristas de diversos assuntos. Bem no horário que ouço tem um que não me interessa em nada, a temática é sobre futebol. Mas hoje, para meu espanto, não só ouvi atentamente como provocou-me reflexões. O assunto versava sobre o jogo de ontem, da Libertadores da América, em que o Neymar sofreu faltas graves, caiu muito e o juiz não penalizou o adversário. A discussão (os jornalistas da rádio interagem com o comentarista), era a respeito da arbitragem, que foi ruim, mas que o Neymar estava tornando-se um sinônimo de jogador que cai muito. Compararam-o com o Messi que mesmo sofrendo várias entradas agressivas, mantinha-se em pé. Especulou-se nessa discussão o quanto essa tática de cavar faltas talvez estivesse prejudicando a imagem do jogador, inclusive denegrindo a qualidade de seu futebol. Houve até uma frase do âncora colocando que o Neymar, de vitima passou a ser réu, pois no jogo do dia anterior ele realmente sofreu faltas agressivas, mas não "apareceram" defensores ao jogador, provavelmente por sua imagem e histórico de cair muito. E nessa discussão toda a rádio convidou os ouvintes para assitirem no Youtube um video sobre o Messi, com vários lances nos quais esse jogador sofreu faltas, ou entradas agressivas e manteve-se em pé (vejam bem como era inflamada a temática). Em determinado momento o comentarista relatou que em um almoço com o Neymar Pai, este afirmou que a atitude era estratégica e assumiu que instruía o Júnior a agir assim com o objetivo de cavar faltas. Fiquei pasma, não com o fato do Neymar Pai de ter assumido o teatrinho, mas com a confirmação de que o Neymar Filho não pensa por si, age sempre de acordo com o que o pai pensa e comanda. Freud já disse: "se dois indivíduos estão sempre de acordo em tudo, posso assegurar que um dos dois pensa por ambos". E pelo pouco que sei (se estiver comentando alguma injustiça favor me avisem, caros leitores) não há outra figura a qual o Neymar Filho dê ouvidos, ou siga aos comandos. Onde estão as idéias do Neymar Filho? Onde está o que pensa ou sabe sobre si mesmo? A resposta é simples: estão no Neymar Pai. O Eu do filho está no pai. E quando essa figura paterna não existir mais (não precisa ser a morte, mudanças podem acontecer) o que será do Eu do Neymar Filho? Não será, não há Eu. Irá sucumbir em seu vazio interno, ao seu EU oco. O Neymar não é o primeiro caso da história e não será o último, em que os desejos das figuras paternas são se sobrepõem ao EU dos filhos. Esses pais não permitem (muitas vezes sem consciência disso) seu "sonho" (que não é o filho, mas aquilo que planejaram para o filho) crie uma maneira própria de ser. Muitos pais idealizam vidas para os filhos e seguem obstinadamente esse "projeto", não deixam espaço para o indivíduo descobrir algo sobre si, do que gosta, do que não gosta, o que pensa, etc. Conduzir, dar condução e condição emocional para o filho descobrir a si mesmo é importante e imprescindível. A criança precisa, inicialmente, ser conduzida. Então mostra-se o mundo e as possibilidades ao filho. Coloca o filho ou a filha no ballet, na ginástica, em artes, no teatro, no tênis, no futsal, no volley, etc., com o intuito de favorecer experiências ao filho para ele possa conhecer suas habilidades, e também suas inabilidades, e a partir disso sentir desejo, impulsionar-se, com desejos próprios . Outra ilustração de uma condução destrutiva é o caso tenista Martina Hings. Sua mãe colocou esse nome já com a intenção da menina seguir os passos da grande tenista Martina Navratilova. Então, para essa mãe alcançar o seu ideal colocou a filha desde muito nova no tênis e investiu emocionalmente tudo nessa "empreitada". A Hings quando adolescente ganhou campeonatos e quando jovem já estava afastada das quadras por graves lesões. Essa busca pelas vitórias foi treinada todos os dias em função do ideal da mãe, só que o organismo da Martina Hings não estava de acordo com esse ideal. O que essa mãe se esqueceu de colocar em seu planejamento é que a Hings não era a Navratilova, era a Hings. E, será que algum dia a Hings foi vista apenas como uma menina com característica de criança, sabem, com aqueles olhinhos curiosos? Ou será que toda vez que essa mãe investia na filha ela via a Navratilova e não a própria filha? Para quem assistiu Cisne Negro, este é outro exemplo do desejo da mãe encapsulando qualquer desejo próprio e singular daquele indivíduo. Esses desejos são desejos "dementadores" (figuras do livro Harry Potter), sugam a vida emocional, o que impulsiona, o que nos leva a ser nós mesmos. No caso do Cisne Negro, em uma interpretação bem simplista, uma forma do psiquismo desvencialiar-se desse ataque brutal e mortífero foi a loucura. A loucura é uma linguagem própria para aquele indivíduo, é uma busca de diferenciação, mas como sua estrutura emocional, seu psiquismo é frágil e fragmentado, essa busca não se sustenta. A maneira encontrada de sobrevivência psíquica é o transbordamento de suas fragmentações que não conseguem unir-se. Surge o cindido, o rompido. Nesse indivíduo, é uma maneira própria de escancar como sofre, como é frágil, como é fragmentado. Por fim, quando nosso EU está fora de nós quem somos? E como é bom ter nosso EU com a gente mesmo.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Educação "formal" em casa
Outro dia li em uma revista uma reportagem sobre pais que optaram por dar a educação formal em casa, aos filhos, ao invés de matriculá-los em uma escola. A reportagem era, mas isso nada tem a ver com parar para pensar sobre o tema. Uma das principais características dessa educação que me chamou a atenção ou me causou estranheza é que nessas famílias, os próprios pais, é que assumem o papel do "professor". Não contratam professores particulares ou mesmo os antigos preceptores, eles se incumbem da tarefa. Causou-me certo desconforto . . . . ainda não consigo identificar com riqueza de detalhes o que foi esse desconforto e por isso vou propor algumas idéias soltas. Como fica construído, delimitado no imaginário infantil e do jovem essas figuras maternas e paternas? Como esses pais conseguem ter conhecimento sobre todas as áreas estudadas? Como fica a construção do indivíduo social, afinal não estão inseridos em uma comunidade macro? São questões para pensar! Pergunto-me: "Como fica a circunscrição do papel dos pais?" Sempre debati sobre a temática e o limite na questão sobre o rótulo de amizade na relação mãe e filhos: "mãe deve ser amiga da filha ou não?". Na época que os pais de hoje eram crianças ou adolescentes não havia espaço para o diálogo e muitas famílias hoje compreendem o conceito de diálogo com o seguinte lema: meus filhos podem me contar tudo, sou amiga(o) deles. Nesse discurso será que não está embutido um conceito reducionista que o diálogo só existe entre amigos? Acredito que esquecem que a qualidade do diálogo é estabelecida pelo desenho, pelos contornos daquela relação. São esses contornos que estabelecerão o que haverá de comum nesse diálogo e o que haverá de incomum. Uma das características da amizade, principalmente entre adolescentes, é o acobertamento. Quando se é adolescente, vez por outra, se faz coisas escondidas dos pais e por incontáveis vezes os amigos acobertam. E caso sejam descobertos, juntos assumirão a responsabilidade. Faz parte. E como mãe e pai, cabe o tal acobertamento? Na verdade não deveria, mas tem acontecido com frequência. Mães e pais com medo de perderem seu status de legal e amigo acabam por cair no campo da permissividade. Tudo permitem e por incontáveis vezes já ouvi a seguinte frase: "deixei que fossem sozinhos acampar, sem nenhum maior responsável, porque confio e já esclareci sobre tudo (drogas, álcool, sexo) e sei que também me contarão tudo." Onde está o limite, onde está o amparo? Parece até que ouço: "vá filho, experimente o mundo e me conte como foi", ao invés de: "não concordo, não faz parte desse período, não preciso saber de detalhes de sua intimidade, porque ela é sua, não é coletiva, e você tem que aprender a lidar com sua intimidade, não vou deixar porque não acho adequado, não deixarei você viajar mais com sua turma porque vi sua foto na internet cercado de garrafas de pinga (ao invés de colocar curtir), não chore meu filho, sei que hoje é difícil, você tem uma vida pela frente, vai conhecer outras pessoas e gostar de outras pessoas, vem deita no meu colo que vou fazer um cafuné." É essa a figura paterna, aquela que contém (tanto no sentido de delimitar como de guardar e de acolher). Então, como ficam as figuras paternas e maternas quando se é ao mesmo tempo pais e professores. Será que como no caso anterior não há uma mistura de papéis que tiram a referência afetiva? Outro dia minhas filhas de 7 anos estavam discutindo e, confesso, como é frequente a situação e não era nada grave, eu estava em outra estratosfera. Dali há pouco fui chamada para a terra ao ouvir de uma delas: "você não está fazendo seu trabalho, como você não deu bronca na fulana, afinal seu trabalho é nos educar e você deveria ter visto que não foi adequado o que ela fez". Esse educar no sentido que ela usou é um educar subjetivo, de formação de valores, de constituição de sujeito, de cidadão, de afetos, nada relacionado com a educação escolar. No caso que estou colocando me causa certo incômodo essa mistura de papéis, o educador subjetivo e o objetivo. Também outro aspecto me gera desconforto. E o convívio da criança ou do adolescente com os diferentes? E o enfrentamento de situações adversas e frustantes que a escola proporciona? Será que essas situações não farão falta na "composição" subjetiva desse indivíduo? O ambiente familiar é um ambiente seguro e previsível, lida-se frequentemente com o mesmo. Será que não são esses pais que sentem dificuldade em lidar com as próprias frustrações. Nenhuma escola reúne todos os requisitos e lidar com essa falta faz parte da vida. Na matéria um dos argumentos desses pais é por acreditarem que os filhos não precisam aprender coisas que para eles não fazem sentido. Só que a vida por incontáveis vezes não faz sentido, acontece. Será que aprender a lidar com o que não faz sentido também não é importante na formação subjetivo do sujeito. No grupo de estudos que faço parte estamos justamente discutindo sobre essa temática. Do quanto a análise por vezes precisa se aproximar do que não faz sentido, ver isso e buscar um sentido. E aí que o processo criativo acontece, que as mudanças e transformações se mostram e a singularidade do sujeito é descoberta. Talvez a dificuladade em lidar com a angústia e com as frustrações sejam desses pais. Não lidam com sentidos e não sentidos fluidos e por isso precisam estabelecer limites muito restritos. A bolha na criação. É menos angustiantes, o campo de observação e controle é ilusorimante controlável. E com essa postura vão perpetuando em seus filhos a dificuldade em aprender a lidar com contrariedades, frustrações e não sentidos. Para mim a educação formal em casa não faz sentido, mas pensar sobre isso, tentar buscar sentido faz parte, nem que seja para perceber que para mim não há sentido nisso e minha singularidade poderá vivenciar sua originalidade.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Nem tudo está perdido: "Revista de Errologia"
Hoje li uma matéria, no caderno de ciências da folha que me deixou bem contente. "Hipóteses perdidas, experimentos que falharam e resultados que não foram encontrados em pesquisas científicas agora terão um lugar ao sol. Ou pelo menos um lugar para serem publicados. Um novo periódico científico, batizado de "Journal of Errorology" ("Revista de Errologia"), surgiu para contar a história de trabalhos que não seguiram o rumo esperado". É uma quebra de paradigma na onipotência científica, é fantástico. No paradigma científico atual são valorizados os experimentos que "deram certo", cujos resultados são tidos pela classe científica como positivos. Esse dar certo é: a hipótese inicial do pesquisador se confirmou, portanto contribuiu para o "progresso" da ciência. E nesse dar certo muitas vezes tem cabido alguns arranjos nos dados ou supressão de outros para que a hipótese inicial se confirme. Não é adulteração de dados, é mais uma acomodação direcionada para a hipótese inicial. Isso gera muitas vezes outros experimentos, baseados nos resultados do anterior e a manutenção das "distorções". A produtividade "positiva" é o que é valorizada e não a pesquisa. Até ler essa matéria não tinha refletido sobre a importância dos experimentos que não "deram certo". Sem sombra de dúvida contribuem cientificamente. Mostram caminhos, lugares novos e seus resultados. São dados, são respostas, efetivamente uma contribuição. Outra informação que me deixou muito satisfeita é pelo fato da iniciativa ser de um brasileiro da UFRJ: "Conhecer um experimento que falhou ou teve um resultados inesperados pode ser muito interessante para os cientistas", explica o editor. Mas me pergunto: será que haverá aderência? Será que a classe científica irá conseguir desvestir-se de sua onipotência e vivenciar feridas narcísicas. Afinal, admitir e publicar pensamentos e hipóteses que não redundaram em explicações lógicas ou resultados aplicáveis é admitir globalmente que não se é um gênio, que se é falível, que não se sabe tudo. É admitir que é humano. Qual parcela dessa classe será a primeira a dar o passo nessa direção e assumir corajosamente sua posição de falível? Será que esses gladiadores serão marginalizados? A matéria ilustra um dos exemplos de experimentos que não "deram certo" com o caso do Viagra. Era um medicamento testado para doenças cardíacas que mostrou-se muito eficaz para disfunções eréteis. Duvido que alguém diga que foi um experimento que deu "errado", afinal existem milhares de homens que têm agradecido diariamente esse "erro". Os cientistas dessa pesquisa, com certeza, tanto no imaginário popular, como no imaginário científico são consagrados, são "salvadores". Casos como esse, como o da penicilina ou do Zyban, não produzem feridas narcísicas. Atirou-se em uma direção, errou-se o alvo, só que acertou-se em uma mina muito mais valiosa. Esse "errado" torna-se fantástico, é um errado que traz alívio. Não acredito que o foco dessa publicação deva ser a manutenção desse status quo, mas aproximar a ciência ao natural humano. Por incontáveis vezes somos provocados pela vida a levantar hipóteses e fazer escolhas baseadas nelas. Algumas vezes os resultados são satisfatórios e por outras desastrosos. Aprendemos com eles. É isso que acontece, aprendemos e continuamos a levantar hipóteses e fazer escolhas. Com a ciência o processo é o mesmo. Então, mostrar resultados, sejam eles quais forem, talvez produza muito mais aprendizado do que divulgar apenas os "positivos". Que seja muito bem vinda a "Revista de Errologia".
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
A chuva e outros desdobramentos
Nesses dias que têm chovido, por várias vezes me peguei observando o fenômeno, e lembrei-me de algo marcante. Lembrei-me de um período bem longínquo da minha vida, a infância, em que a chuva representou um momento de afirmação sobre minhas idéias e sobre mim mesma. O cenário foi o ambiente escolar, mais precisamente as aulas de português. Tempo: 8, 9 10 anos. Eu gostava muito de fazer redações, gostava das minhas idéias, mas sempre tirava notas baixas e nunca obtive nenhum elogio de nenhuma das professoras. Tinham outros alunos cujas redações eram elogiadas e as achava comuns, não via motivos para tal alarde (mas era a minha modesta opinião). Ficava sempre pensando que minha avaliação de mim mesma era estranha, não batia com o retorno das professoras, não conseguia encontrar o que havia de "errado". Os anos foram passando e eu mantinha o mesmo desempenho, a mesma frustração, a mesma estranheza. Estava então, na sexta série, tinha 11 anos, e no primeiro dia da aula de português o professor pediu para que escrevêssemos uma redação descritiva com tema livre. Eu estava sentada junto a janela e, ao olhar para fora, vi que chovia e resolvi escrever sobre a chuva. Não lembro do conteúdo exato, faz muitos anos, mas lembro que escrevi sobre os diversos aspectos da chuva, as diferentes intensidades, sobre suas consequências, sua serventia e lembro que finalizei a redação reunindo todos esses aspectos e destacando sua importância. Gostei do que escrevi, mas deixei minha expectativa de molho, esse professor era "secão", esperava algo semelhante aos anos anteriores . . . . a indiferença. Qual não foi a minha surpresa, quando na próxima aula da matéria, o professor disse que tinha lido todas as redações, em sua avaliação havia muito trabalho a ser feito, e dentre todas as da sala iria ler uma redação para usar como exemplo. Leu o título: A chuva. Quase desmaiei, o tempo parou. Leu a redação inteira e finalizou dizendo que aquela redação estava boa, tinha começo meio e fim e com um bom desenvolvimento das idéias. Flutuei, tamanha a minha satisfação. Ele não citou o autor e isso pouco me importou. Meu maior prazer foi finalmente ver que a imagem que eu tinha sobre mim tinha um reflexo. Eu gostava do que eu escrevia (nada extraordinário, mas eu gostava) e, além de mim, mais alguém reconheceu isso. Não precisava do reconhecimento dos colegas, não queria o prêmio Nobel (na verdade nunca contei que a autoria era minha) eu só queria de um eco, um testemunho de reconhecimento. As aulas de português com esse professor tornarem-se um prazer. Não porque ele me elogiava, acho que nem sabia meu nome. E não era por gostar da matéria. O principal motivo era porque eu sabia que esse professor conseguia ver em mim a mesma coisa que eu via. Era uma satisfação sentir-se vista como eu me via. Só que durou pouco. Mais ou menos com um mês, logo depois do início do ano letivo, ele ficou doente e teve que sair em licença médica. Senti tanta tristeza. Tudo voltou muito parecido com o antes, só que agora eu não tinha mais a frustração do não ser vista, isso já tinha acontecido. Essa experiência, por mais banal que pareça, é importante. Basear sua opinião sobre si mesmo através da própria percepção, e não só através do censo comum, é importante para desenvolver individualidade, singularidade e sentido. E os jovens de hoje têm conseguido realizar esse processo tão importante para o amadurecimento, para o tornar-se adulto? Não sei. Para mim, hoje os jovens parecem muito soltos de si mesmos e mostram pouco sentido singular no que fazem. Outro dia fiquei estarrecida com o que uma amiga me contou, que a filha contou sobre uma situação que uma amiga dela vivenciou. O enrosco já começa em como a história chegou até mim. Alguns adolescentes, entre meninas e meninos, menores de 18 anos, foram passar os dias na praia, beberam muito e liberaram seus instintos. O que queriam com isso, por que agiram assim, não souberam responder. Fizeram porque fizeram e porque todo mundo faz. O que extraíram da experiência? Nada, o impulso veio do nada interno. Eles conseguem relatar a história, mas não conseguem nomear o que sentiram, não vêem motivos para pensar ou refletir a respeito, foi do momento, essa é a máxima: o momento. Ou seja, pouco ou nada sabem sobre o que sentem, o que querem, muito menos algo sobre si mesmos. É uma história triste. É uma história vazia. Vazia de sentido, de singularidade, vazia do reconhecimento de si mesmo naquilo que é vivenciado. Não percebem, não conseguem saber que uma das formas possíveis do prazer está em ver-se e ser visto naquilo que se está vivenciando. Reconhecer-se, saber sobre si, apreciar a própria singularidade, além de prazeroso também é fundação para experiências que, além de gerarem prazer, também trazem sustentação para os momentos difíceis que a vida apresenta.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
A expressão do não falado
Outro dia conversando com uma colega sobre os pacientes internados em psiquiatria eu discorria sobre a dificuldade em lidar com quadros de extrema desorganização psíquica, nos quais delírios e alucinações estão fortemente presentes, e o trabalho psicológico ficava muito limitado e dependente da atuação do medicamento. Além dessa espera havia a possibilidade do primeiro remédio prescrito não ser o que o paciente melhor responde e ser necessária a troca de medicação. Mais tempo... Já vi quadros em que o paciente ficou várias semanas em surto porque os medicamentos inicialmente prescritos tinham efeitos inócuos, fazia-se a troca, pouca resposta e só na terceira tentativa o início da remissão dos sintomas. E esse não acertar de primeira nada tem a ver com má assistência. É característico da psiquiatria o método empírico na descoberta do medicamento que melhor o paciente responde. Nesse processo todo, muitas vezes, a família do paciente é quem mais sofre. É muito difícil e angustiante para eles compreenderem e aceitarem quando dizemos que o remédio X não estava mostrando um resultado esperado e por isso tentaríamos o Y. A família sempre pergunta: então agora é o medicamento certo? E a resposta é sempre meio evasiva porque é necessário aguardar o resultado. E a dose? Também outra caixinha de surpresas. É difícil em uma sociedade tão cartesiana compreender que a psiquiatria é diferente nesse quesito. A família sofre muito nesse processo. E por isso, muitas vezes, a família precisa ser psicologicamente mais acolhida do que o paciente. Como a medicação tem seu tempo a família sente um desamparo "científico" e precisa ser cuidada. Sentem-se inseguros em suas decisões, se depositam confiança no que estão ouvindo, na instituição e nos psiquiatras. São mais incertezas, são mais pontos de interrogação do que respostas. Inclusive no que se refere ao desencadeador da patologia. Muitos sempre perguntam: por que isso aconteceu, qual a explicação? Pontos de interrogação e os tais "mistérios" na psiquiatria. Quando acompanha-se o dia a dia um paciente em surto, intuitivamente só de olhá-lo sabe-se como ele está, se houve evolução do quadro ou não. Algo na postura do seu corpo, algo em seu olhar já delatam um psiquismo confuso. Não há necessidade dele se expressar verbalmente, outras expressões já o denunciam. E é impressionante, quando a organização psíquica melhora, é a mesma sensação. Só de olhar para a fisionomia do paciente, para sua postura corporal já se percebe a melhora. Fisicamente tudo muda. A intensidade muda. A expressão fica diferente. E essa mudança pode ser percebida de um dia para o outro. Lembro-me de um paciente jovem, em surto psicótico agudo, internado na clínica em que eu trabalhava. Estava muito desorganizado psiquicamente, apresentava delírios, pensamento e fala confusos, agitação psicomotora, persecutoriedade. No caso dele a medicação demorou semanas para fazer efeito e foi trocada algumas vezes. Em toda visita seu pai saia chorando da clínica de tão angustiado por ver o estado desorganizado e confuso do filho. Lembro que após umas três semanas, logo pela manhã, olhei para o rapaz e vi o despertar de uma melhora, apesar de seu discurso ainda manter-se empobrecido e confuso. Logo que encontrei o pai disse-lhe que iria se surpreender, que o filho estava melhor, seu discurso não havia mudado muito, mas que sua melhora era perceptível. O pai me olhou com um ar de interrogação e foi ver o filho. Após a visita presenciei esse pai sorrir pela primeira vez e me disse: "ele realmente está muito melhor". E esse melhor nada tinha a ver com a fala do rapaz, tinha a ver com a afetividade que se mostrando mais organizada. Inclusive esse rapaz mobilizou afetivamente muitos dos funcionários da clínica. Ele passava o dia todo sentado perto da porta pela qual os parentes entravam no pátio, repetindo que seu pai estava naquela salinha e que estava esperando-o para levá-lo para casa. Passava o dia todo lá, sozinho. Por incontáveis vezes eu abria a porta, mostrava que o pai não estava, dizia que ele viria outro dia, para não se preocupar, que estávamos cuidando dele. Mesmo assim, ele se sentava na escada, ao lado da porta, e dizia aguardar o pai: "ele está aqui, eu sei" (sic). Era a expressão do afeto.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Cuidado afetivo
Ontem conversando com minha tia (que já citei em outro texto - QI coeficiente de inteligência, uma bobagem) versávamos sobre a tópica dessa infantilização que a sociedade está incentivando em seus jovens em função dessa rede proteção e garantias ilusórias proliferada por todos os cantos do planeta. Para ilustrar ela contou-me que em sua fase de menina, quando ia ao sítio de sua madrinha, andava de bicicleta em chão de terra batida, com "obstáculos", divertia-se muito, mas também machucava-se muito. Contou-me que uma vez ralou toda a perna e que não contou para a madrinha pois achava que a dor do machucado era menor do que a dor do unguento que ela passava (pelo que entendi tinha álcool misturado com mais algo). Porém, durante a noite disse gemer tanto que a madrinha foi ver o que estava acontecendo e . . . . . não deu outra, uma super compressa desse unguento e a outra dor. Continuamos a conversar sobre outras coisas, mas desde o momento em que ela me contou esse episódio comecei algumas divagações. Algumas lembranças também me surgiram (eu conhecia a madrinha da minha tia, era uma das minhas tias avós). Ao desligar senti que minha tia não tinha só contado uma história sobre molecagens. Ela também me contou uma história de carinho, de afetividade. Lembrei de algumas outras histórias dela e de sua madrinha: um dia fugiu de casa e foi se abrigar na madrinha, nas férias que lá passava e nos cuidados que recebia. Os cuidados dos quais vou procurar refletir nada têm a ver com os cuidados hoje tão difundidos como o top do cuidado para nossas crianças. Quero refletir sobre o cuidado afetivo. Os cuidados atuais envolvem dieta equilibrada, outras línguas, equipamentos de proteção, celular com gps, etc., mas e o cuidado afetivo? Quando tento denominar esse cuidado como afetivo não quero dizer a preocupação com o humor da criança ou seu estado emocional, mas do sentir o afeto e a realizar troca afetiva. Estou buscando falar de um cuidado que nada tem a ver com o normatizado, palpável e mensurável. Estou tentando me referir a um cuidado que é essencial para a criação dos laços e vínculos afetivos. Sem esse cuidado o que fica é o abandono, é o sozinho. Recentemente no grupo de estudos que faço parte discutimos sobre um texto psicanalítico cujo título é: "Figuras do cuidado na contemporaneidade: testemunho, hospitalidade e empatia". Nesse texto há uma abordagem social do indivíduo em que o autor para ilustrar esse conceito fez uso de uma história acontecida em Bagdá durante a ocupação americana em 2003. O diretor da Biblioteca e Arquivo Nacional do Iraque optou por não deixar a capital. Não quis refugiar-se em outro país e, na intenção de manter seus afetos presentes, de organizar suas emoções, criou um diário, que manteve na internet, com relatos acerca da situação vivida em Bagdá, como também algumas reflexões suas sobre o que lá acontecia. O diretor persistia em manter-se no Iraque apesar da precaridade e da pressão dos familiares para se exilar em Londres, dizia: "Se formos embora, ganha a violência". De maneira simplista o diretor não queria abandonar o que sempre lhe fez sentido e com isso também tentava não ceder ao mecanismo de defesa da insensibilidade, do anestesiar-se. Saindo do cenário, não vejo, não sinto e não sofro, fico anestesiado. Tornar-se insensível, abandonar a si mesmo a ao outro não foi a escolha do diretor. Porém a situação era de extrema insegurança e ameaça de morte e para manter seu psiquismos estável lançou mão do cuidar. Fazia o relato do que vivia diariamente, buscando testumunhas para o que acontecia. Buscava testemunhas para seu estado de ânimo, para o como mostrava-se não anestesiado. Com o diário sentia sensibilização, que seu sofrimento tinha eco. Esse cuidar envolve pelo menos dois. O cuidar do qual estou falando não é ir lá, tirá-lo da biblioteca, não é minimizar seu sofrimento ou eliminá-lo e sim acompanhá-lo . . . . "apenas" acompanhar. Ele queria companhia, testumunho ao que vivia diariamente. Era o que precisava. Assim sentia-se sendo cuidado e conseguir manter-se sensível. Voltemos a minha tia. Será que sentiria-se tão afetivamente cuidada se sua madrinha ficasse o tempo todo vendo-a andar de bicicleta e toda vez que a visse cair corresse com um unguento? Ou será que sentiria-se sensivelmente cuidada quando no final do dia, ao sorrir, sua madrinha era testemunha de sua alegria? Aposto na segunda. É um acompanhar subjetivo que nada tem a ver com presença. É testemunhar e dar valor ao que o outro sente . . . . e vice-versa, o outro também testemunhar o que sentimos. Os momentos em que nos sentimos acompanhados vão sempre nos acompanhar e o momento que acompanhamos o outro também.
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