Ontem conversando com minha tia (que já citei em outro texto - QI coeficiente de inteligência, uma bobagem) versávamos sobre a tópica dessa infantilização que a sociedade está incentivando em seus jovens em função dessa rede proteção e garantias ilusórias proliferada por todos os cantos do planeta. Para ilustrar ela contou-me que em sua fase de menina, quando ia ao sítio de sua madrinha, andava de bicicleta em chão de terra batida, com "obstáculos", divertia-se muito, mas também machucava-se muito. Contou-me que uma vez ralou toda a perna e que não contou para a madrinha pois achava que a dor do machucado era menor do que a dor do unguento que ela passava (pelo que entendi tinha álcool misturado com mais algo). Porém, durante a noite disse gemer tanto que a madrinha foi ver o que estava acontecendo e . . . . . não deu outra, uma super compressa desse unguento e a outra dor. Continuamos a conversar sobre outras coisas, mas desde o momento em que ela me contou esse episódio comecei algumas divagações. Algumas lembranças também me surgiram (eu conhecia a madrinha da minha tia, era uma das minhas tias avós). Ao desligar senti que minha tia não tinha só contado uma história sobre molecagens. Ela também me contou uma história de carinho, de afetividade. Lembrei de algumas outras histórias dela e de sua madrinha: um dia fugiu de casa e foi se abrigar na madrinha, nas férias que lá passava e nos cuidados que recebia. Os cuidados dos quais vou procurar refletir nada têm a ver com os cuidados hoje tão difundidos como o top do cuidado para nossas crianças. Quero refletir sobre o cuidado afetivo. Os cuidados atuais envolvem dieta equilibrada, outras línguas, equipamentos de proteção, celular com gps, etc., mas e o cuidado afetivo? Quando tento denominar esse cuidado como afetivo não quero dizer a preocupação com o humor da criança ou seu estado emocional, mas do sentir o afeto e a realizar troca afetiva. Estou buscando falar de um cuidado que nada tem a ver com o normatizado, palpável e mensurável. Estou tentando me referir a um cuidado que é essencial para a criação dos laços e vínculos afetivos. Sem esse cuidado o que fica é o abandono, é o sozinho. Recentemente no grupo de estudos que faço parte discutimos sobre um texto psicanalítico cujo título é: "Figuras do cuidado na contemporaneidade: testemunho, hospitalidade e empatia". Nesse texto há uma abordagem social do indivíduo em que o autor para ilustrar esse conceito fez uso de uma história acontecida em Bagdá durante a ocupação americana em 2003. O diretor da Biblioteca e Arquivo Nacional do Iraque optou por não deixar a capital. Não quis refugiar-se em outro país e, na intenção de manter seus afetos presentes, de organizar suas emoções, criou um diário, que manteve na internet, com relatos acerca da situação vivida em Bagdá, como também algumas reflexões suas sobre o que lá acontecia. O diretor persistia em manter-se no Iraque apesar da precaridade e da pressão dos familiares para se exilar em Londres, dizia: "Se formos embora, ganha a violência". De maneira simplista o diretor não queria abandonar o que sempre lhe fez sentido e com isso também tentava não ceder ao mecanismo de defesa da insensibilidade, do anestesiar-se. Saindo do cenário, não vejo, não sinto e não sofro, fico anestesiado. Tornar-se insensível, abandonar a si mesmo a ao outro não foi a escolha do diretor. Porém a situação era de extrema insegurança e ameaça de morte e para manter seu psiquismos estável lançou mão do cuidar. Fazia o relato do que vivia diariamente, buscando testumunhas para o que acontecia. Buscava testemunhas para seu estado de ânimo, para o como mostrava-se não anestesiado. Com o diário sentia sensibilização, que seu sofrimento tinha eco. Esse cuidar envolve pelo menos dois. O cuidar do qual estou falando não é ir lá, tirá-lo da biblioteca, não é minimizar seu sofrimento ou eliminá-lo e sim acompanhá-lo . . . . "apenas" acompanhar. Ele queria companhia, testumunho ao que vivia diariamente. Era o que precisava. Assim sentia-se sendo cuidado e conseguir manter-se sensível. Voltemos a minha tia. Será que sentiria-se tão afetivamente cuidada se sua madrinha ficasse o tempo todo vendo-a andar de bicicleta e toda vez que a visse cair corresse com um unguento? Ou será que sentiria-se sensivelmente cuidada quando no final do dia, ao sorrir, sua madrinha era testemunha de sua alegria? Aposto na segunda. É um acompanhar subjetivo que nada tem a ver com presença. É testemunhar e dar valor ao que o outro sente . . . . e vice-versa, o outro também testemunhar o que sentimos. Os momentos em que nos sentimos acompanhados vão sempre nos acompanhar e o momento que acompanhamos o outro também.
Momentos de reflexão sobre o cotidiano do ser humano a partir do dia a dia que vivemos.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Curtas: O branco do ano novo
Há algum tempo não tenho seguido religiosamente a tradição do uso de roupa branca no ano novo. Ano passado meu vestido era vermelho. Neste ano usei branco, um vestido novo que ganhei do qual gostei muito. Só que, apesar de estar de branco e me sentindo bem, foi mais forte que eu, questionei o uso do branco, mais por uma reflexão de sentido do que qualquer outra razão. Isso aconteceu porque quando entrei no salão do local fomos passar o ano novo, que já estava cheio, quase todas as pessoas estavam de branco. Tive uma sensação de um ambiente todo igual, um sentimento de falta de originalidade que comecei a pensar no sentido do branco para o ano novo, afinal deveria ter algum. Pensei na paz, mas será que esse era o único sentido para essa tradição? Lembrei das baianas, sempre de branco, então pensei: "o sentido do branco para nós poderia ter relação com a cultura africana, do candomblé? Pensei no ano novo chinês, todo colorido, com muitos artefatos e figuras arquetípicas, então nosso branco também deveria ter alguma origem ligada a nossa cultura. Resolvi fazer uma rápida busca na internet e confirmei as hipóteses que tinha levantado. O significado do branco vem de nossa cultura africana, do candomblé, que significa paz. Mas acho que além da paz existem outros significados também muito importantes nessa passagem, já que simbolicamente remete ao fechamento de um ciclo e o início de outro. É um momento de reflexão, de balanço, de esperança e de projetos. O ano novo motiva. É o período propício para voltar-se ao que aconteceu e voltar-se ao que se quer que aconteça. Talvez o ano novo seja um momento em que passado e futuro se misturam, acontecem juntos. As imagens de um se fundem no outro e a partir disso criamos o que será possível. É um momento individualmente importante e coletivamente também. Nessa comemoração cabe, sem censuras, falar de nosso passado e falar de nossas aspirações. Nossas idéias, nossas divagações e por vezes lamentações são acolhidas. No ano novo vale sonhar sem ser questionado se aquele sonho é realidade ou devaneio. Faz parte, é um devaneio aceito e compartilhado por todos a nossa volta. Então, talvez, no significado do branco possamos acrescentar um sentido de passagem, um sentido de criação. Temos a experiência vivida realizando uma trajetória, transmutando-se em suporte para sustentar os impulsos do novo do que está por vir. Mais cores talvez venham enfeitar um processo tão bonito e momentâneo que é o enlace do passado com o futuro. Aos meus fiéis leitores e aos também eventuais desejo que o devaneio e a completude do vivido se integrem. Desejo um 2012 repleto de experiências e, em 31 de dezembro de 2012, elas venham a fundir-se no que está por vir e criar o novo . . . . de novo. Feliz ano novo.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Segurança 100% . . . tem como?
No dia natal, as crianças estão brincando com os presentes que ganharam na véspera . Minhas filhotas também ganharam seus presentes e, dentre eles, uns "meio perigosos": uma pediu um patinete e a outra um par de patins. Como hoje o politicamente correto é garantir a segurança total dos filhos, cada uma ganhou junto ao seu tão desejado presente um kit "segurança" . . . . capacete, joelheira e cotoveleira. Inclusive, Feliz, quando pediu seu patinete disse que esse kit era importantíssimo, pois eu não iria querer que ela de maneira alguma se machucasse (palavras dela). Apesar de eu achar um exagero não iríamos querer o rótulo de displicentes, que não se preocupam com a segurança dos filhos, então seguimos a "tendência" mundial. Estávamos na pracinha vendo-as equilibrarem-se em suas novidades do natal quando avisto uma outra criança, de aproximadamente uns 4 anos, vindo com sua provável bicicleta nova com rodinhas e, além disso, um acessório de segurança . . . . um capacete. Fiquei me perguntando: será que é preciso toda essa parafernália? Será que o menino, já com as rodinhas, ainda precisava do capacete? Ao mesmo tempo olhava para minhas filhotas e os tombos que levaram foram todos de bumbum. Ou seja, o kit não "protegeu", não haviam "bumbunzeiras". Claro que acredito em vários equipamentos de segurança, o cinto de segurança em carros, as cadeirinhas para crianças, afinal o carro atinge velocidades elevadas e os impactos podem não só machucar mas também levar a óbito. Mas para brincar, para viver o dia a dia, será que é necessário tudo isso, será que dá para garantir que nada sairá errado, que não haverão arranhões e machucados? O que me preocupa não é só o exagero, mas como esse cerco de segurança ilusória pode desenvolver adultos medrosos, que tem medo de arriscar, que tem medo de viver se as coisas não estiverem 100% dentro do esperado, dentro do "adequado". Para mim por trás de toda essa parafernália estamos dando outra mensagem, que emocionalmente pode ser muito mais danosa do que arranhões ou braços quebrados. Será que com esse exagero de segurança não estamos transformando nossas crianças em pessoinhas infantilizadas emocionalmente? Pessoas que vão acreditar que algo do externo estará sempre pronto a lhes proteger e por isso não amadurecem, não conseguem desenvolver um acreditar em si mesmo para arriscar e, caso se machuquem saibam cuidar de si mesmas, levantar, sacudir a poeira e continuar. Acredito que a sociedade de hoje está infantilizando muito o ser humano, incentivando-o a olhar e acreditar no que vem de fora e consequentemente ignorar o de dentro. Acreditar em si mesmo é coisa do passado, hoje temos que acreditar nos equipamentos. Para ilustrar: dá para imaginar as ginastas olímpicas treinando de capacete, joelheira e tornozeleira?
Sempre que eu assisto uma apresentação dessas me dá muito frio na barriga quando vão dar aqueles mortais, aquelas piruetas, saltar no cavalo . . . . fico imaginando não só o quanto treinaram mas o quanto de coragem e segurança em si mesmas desenvolveram para se "aventurarem" em tais exercícios. E os artistas do circo de soleil . . . . será que nos proporcionariam espetáculos tão lindos e interessantes se ficassem aprisionados pela segurança e seus kits? Quantos jovens hoje, ao se formarem, desejam trabalhar na empresa X ou Z porque é "segura", está há anos no mercado de trabalho e é líder a outros tantos. Será que esses jovens entram nessa empresa porque se sentem profissionalmente maduros para contribuir ou porque querem um porto seguro já que sua segurança em si mesmo é deficiente? Na vida temos poucas certezas (se é que temos alguma), temos muito mais dúvidas e incertezas, só que o imaginário social está tentando a fórceps derrubar uma das poucas certezas que o ser humano pode ter . . . . si mesmo.
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Desorganização e excesso
Já escrevi várias vezes sobre arrumações: arrumação 1 e arrumações 2. Só que outro dia me "toquei", nunca falei sobre a desorganização. E falar sobre desorganização está totalmente relacionado à fase que estou vivendo. Faz mais de um mês que postei minha última reflexão e de lá para cá vários assuntos têm passado pela minha mente porém nenhum deles eu desenvolvo. Comecei até achar que eu estava esvaziada de sentido, esvaziada do cotidiano, afinal minha proposta está relacionada ao dia a dia que vivemos, que enfrentamos . . . . então, se pouco sentido estava vindo desse dia a dia era bem possível que eu estivesse ou pouco reflexiva ou anestesiada. Só que reflexão é minha principal ferramenta de trabalho, é como me desenvolvi, então essa hipótese foi descartada. Anestesiada, também difícil, lido com saúde mental, com desorganização psíquica, com sofrimento, se estivesse anestesiada não estaria conseguindo ouvir o outro. O ponto de interrogação se manteve até que, acredito ter tido uma luz sobre o principal "responsável" pela escassez de textos. O excesso . . . . . a desorganização . . . um certo caos interno e psíquico. Muitas coisas tem acontecido, tenho ocupado demais o espaço criativo para organizar questões internas, pessoais e por isso tem me sobrado pouco espaço interno ao olhar o dia a dia, ao olhar para fora e fazer conexão com o de dentro. E essa desorganização, esse excesso de estímulos têm me mobilizado a procurar formas de organizar, de produzir novos sentidos. O excesso provoca distorções, provoca uma aparente perda de sentido porque muitas são as possibilidades, muitas são as ideias para a organizar, finalizar e quando o excesso está "atuando" a organização parece muito difícil. É por isso que vários temas têm me surgido à mente e não consigo desenvolvê-los, do mesmo jeito que surgem, somem e logo na sequência surge outro e . . . . aparentemente só mais uma ideia solta. Há muito tempo, há mais de ano escrevi uma reflexão sobre um conceito (depressividade) que o psicanalista Fedida introduziu. Vou usar parte dessa reflexão para ilustrar algo que tenho percebido como necessário para organizar-se no excesso: a necessidade de permeabilidade. O caos é caracterizado pelo excesso de "coisas" e para organizá-las é preciso vê-las em separado e não absorver tudo de uma única vez. Para que o indivíduo possa continuar "abrindo espaços psíquicos", produção de sentidos de novas experiências é necessária uma certa seletividade nas experiências subjetivas e intersubjetivas vivenciadas. É como se esse mecanismo fosse uma membrana semipermeável. Um conceito aparentemente simples, mas em sua essência resguarda uma complexidade a ser respeitada. Para auxiliar na ilustração usarei nossa pele como exemplo. Ela tem um papel fundamental e muito importante na manutenção de nosso equilíbrio orgânico sendo responsável por excretar o suor e sais, ou seja, através de seus poros substâncias saem. Também é responsável por impedir a entrada de substâncias que alterariam o equilíbrio orgânico. Ao mesmo tempo que é barreira de entrada para a água não o é para uma pomada, caso tenhamos que tratar alguma lesão. Nesse caso a pele terá a capacidade de absorção. Então, a pele deixa tanto entrar como sair, mas não é qualquer coisa que entra ou sai, há uma seletividade. A pele é sempre a mesma e o que a faz deixar entrar ou sair está relacionado à característica da substância que está interagindo com ela. E lidar com os excessos é similar a esse processo seletivo. Saber o que está dentro, o que está fora e as possibilidade de interação e intercâmbio é que produzirá um novo sentido, antes não experenciado por aquele indivíduo. Esse novo sentido será um sentido organizador. Então o excesso diminui, o caos diminui e a possibilidade de organização já se mostra. A desorganização faz isso por nós, nos dá possibilidade de criarmos novos sentidos, de revermos velhas maneiras e criarmos novas. A desorganização pode ser criativa mas exige muita, mas muita paciência. Termino o texto com uma certa sensação de pouca organização e de talvez não ter conseguido expressar-me adequadamente. Ao mesmo tempo uma sensação de originalidade (sentido de origem, tudo que veio foi a partir da desorganização) porque esse excesso têm estado muito presente no meu cotidiano e posso tê-lo espelhado no texto, algo consonante em relação ao meu momento. Quem sabe já não é um sentido de organização?
domingo, 6 de novembro de 2011
Curtas: Politicamente correto, solo fértil para . . . . . .
Trabalho em uma instituição psiquiátrica e tenho ficado cada dia mais impressionada com a quantidade de pessoas que são internadas com distúrbios de desorganização psíquica grave cuja família parece vir de um comercial de margarina. Ouço o relato da família sobre o desenvolvimento do paciente e fico estarrecida, perdida porque tudo parece tão no lugar. Fico me perguntando: o que aconteceu para aquele sujeito ter se desorganizado tanto? Os relatos dos cuidados são tão redondos. . . . . . os discursos de afetividade são tão amorosos . . . . que fico me perguntando, onde está a "loucura" nessa família. É fato que, para um sujeito desenvolver um transtorno mental grave a ponto de precisar ser internado, há uma disfunção familiar, é sistêmico. A desorganização psíquica é intrínseca nas relações parentais, não há como dizer que a criança não é afetada pela desorganização do adulto. Mas, no passado, essa desorganização era escancarada, não havia a casca do politicamente correto para encobrir as disfunções familiares. Hoje, os adultos colam em seus corpos maneiras de lidar com o outro e a naturalidade fica completamente esquecida, fica obsoleta. A naturalidade não é ferramenta para esconder-se. Na verdade a naturalidade hoje é banida dos círculos sociais, afinal pode ser uma denunciadora do que não está bem. Só que se vemos o que não está bem existe a possibilidade do cuidar . . . . . . mas também alguém pode apontar. Você não sabia? Você não viu? Você não leu? A sociedade de hoje prega sucesso, perfeição, maneiras de usar todo o seu potencial, é de uma prepotência e arrogância intensa. Como uma mãe vai poder admitir que acredita ter deixado de ser suficientemente boa em alguma coisa. Simplesmente, se assumir isso, será apedrejada em praça pública. Terá cometido o maior dos pecados, terá admitido que errou, que surtou, que cansou, mas também existe a possibilidade dela ter, junto com tudo isso, cuidado, acarinhado, amado e acompanhado. Atendo as famílias e as vejo dissociadas. Tudo foi tão bem. Quando criança o paciente era ótimo, na escola ótimo, os pais sempre ótimos, sempre acompanhando . . . . de repente tudo mudou. E a família fica me dizendo isso de uma maneira tão superficial que fico procurando onde está o encoberto, o que não estão me contando, como descobrir isso? Antes do politicamente correto, dos livros com dicas de educação perfeita, de faça isso que acontecerá aquilo, havia espaço para a ira, o ressentimento, o ciúme, a loucura, a desorganização, mas também para a união, para o amor e o carinho. Hoje tudo tem que ser plástico, perfeito. Ninguém pode ser pessoa, sujeito desejante, frustrado, amoroso e raivoso. Tem que ser perfeito e politicamente correto. Se o politicamente correto é trocar a fralda do meu filho a cada duas horas é o que vou fazer. Não vou esperá-lo chorar, ou não vou no cansaço do cuidar tirar um cochilinho fora de hora e acordar com meu pequeno chorando precisando de ajuda. Não . . . . . para ser boa mãe, politicamente correta eu tenho que ficar olhando no relógio a hora de dar o suquinho, a hora da mamadeira, a hora do cochilo e não ter espaço para colocar o que de fato estou sentindo junto com aquele serzinho, que pode ser medo, aflição, ignorância, amor, cansaço, um monte de coisa junta. Não, vou abstrair tudo o que sinto e no lugar colocar o que deve ser feito para que meu filho tenha a melhor assistência possível. E aí ele cresce no vazio, e a mãe educa no vazio e aí mais tarde interna o filho em uma instituição psiquiátrica e conta uma história de vida do filho que não preenche uma folha, tudo meio vazio. Mas para preencher esse vazio temos o politicamente correto, ajuda na manutenção dos códigos sociais e diz que humaniza mais as relações, será?
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Curtas: Touradas e sadismo
Insônia . . . . fui ler notícias na internet. Havia uma notícia sobre um toureiro ferido pelo touro e a reportagem advertia que a imagem era forte. Mesmo assim fui olhar, não sei porque, queria ver como o toureiro tinha sido ferido. Achei a imagem chocante, mais pelo sangue que escorria do lombo do touro do que pelo toureiro. Foi estranho, ao olhar a foto não pude deixar de sentir que o touro nada mais fez do que reagir com raiva e atacou quem o machucava. Aparentemente o touro deveria estar sentindo muita dor. Não entendo nada de touradas e também não conheço muito da cultura espanhola, mas existe algo que é universal, o sadismo. Na tourada o objetivo nada mais é do que inflingir dor, mostrar superioridade e poder. É uma tortura lenta. É um sadismo atuante e perverso, tanto do toureiro como de quem assiste. E em toda a história de nossa "civilização" tem exemplos e mais exemplos do homem sádico, às vezes uma nação inteira sádica, se sobrepondo ao outro em função de um narcisismo e um egocentrismo. A vida do outro existe para que sinta dor e com isso alimentar o prazer no sádico. Não consigo entender. Uma vez li um livro escrito por um antropólogo que defendeu a tese que essa agressividade, que esse sadismo também é presente nos chimpanzés e por isso temos esse "algo" filogenético. O livro "O macho demoníaco" mostra como os chipanzés também se juntam e machucam outros de suas espécie por prazer ou para demonstrar poder. Os chimpanzés gostam de poder, o disputam e machucam o outros para enviar "recados". Em contrapartida, nesse mesmo livro, aprendi sobre os bonobos. Também primatas superiores e muito pacíficos, com a empatia presente em suas ações. Segundo o livro o bando tem a figura da fêmea-alpha e não o macho-alpha com na "sociedade" dos chimpanzés. Além disso todos os conflitos que acontecem no grupo são resolvidos através do sexo. Deu problema . . . . sexo, inclusive entre pares do mesmo gênero. Parecem o oposto dos chimpanzés. Uma das colocações do livro é que como devemos ter herança genética tanto de um como de outro temos as duas tendências: agressividade e pacificação. Agora, se um jeito de lidar com o sadismo e os conflitos é com o sexo, de maneira muito simplista e sem ofender o pensador, Freud estava "coberto" de razão. Nossas pulsões sexuais são "comandantes" em nossas relações. Então, simplificando muito mais, será que ao invés de corrermos tanto atrás em aumentar nosso patrimônio, ter uma casa mais confortável, trocar de carro, não deveríamos procurar um parceiro sexual bem legal e, quem sabe, a paz mundial se instaurar. Desde que o mundo é mundo sexo é um tabu, e desde que o mundo é mundo o homem dizima povos, rouba culturas, se sobrepõe sobre o outro por prazer, ganância, por fim, um narcisista sádico. A tourada é um exemplo de um sadismo coletivo como outros tantos que nossa história está recheada. Será que isso um dia muda ou o ser humano vai continuar escrevendo sua história com a tinta do sadismo, do poder e da perversão?
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Curtas: Sinto uma "coisa"
Em diversas situações no dia a dia nos ouvimos dizendo: "sinto uma coisa", uma frase assim, bem pouco específica. Quando alguém pergunta: mas que "coisa" se responde: sei lá, um treco, um troço, aqui no peito, na barriga, uma sensação, uma "coisa". O dia acaba e na maioria das vezes não conseguimos denominar o que sentíamos, "apenas" uma "coisa", uma sensação muito real, mas uma "coisa". As palavras para descrevê-las não são encontradas, são sensações, não parece caber palavras. Essa "coisa" me faz lembrar de um livro, cujo título é: "A coisa" (autor: Alberto Moravia). Cheguei até ele da seguinte forma: era uma época em que eu procurava ler autores não tão divulgados, menos mencionados nas mídias, de preferência europeus (certo preconceito, confesso) e cujo enredo da história parecesse intimista, nos recônditos do ser humano. Procurava primeiro livros de contos para depois, se eu gostasse, comprar algum romance do autor. Também gosto muito de contos, sinto uma certa densidade, não sei porque ..... é uma sensação. Fazendo, então, a garimpagem na livraria vi esse livro e resolvi comprar. Me surpreendi com o conteúdo. Eram contos com temáticas bem originais, intimistas e profundas. Levavam o leitor a universos pouco mencionados, bizarros, mas tão reais no imaginário coletivo que me envolvi. Uma "coisa" meio underground, meio que do submundo do inconsciente, meio erotizado. O conto que deu origem ao nome do livro não foi o que mais gostei, o meu eleito foi um cujo nome acho chamar-se "O diabo". Tem aproximadamente uns 15 anos que li o livro, hoje não está mais comigo, então vou falar por lembrança, acreditando que pouca coisa ficará distorcida (se algo estiver muito distorcido com certeza terá um motivo que depois vejo se descubro, algum ato falho, talvez muito falho). Seu conteúdo, seu enredo ainda é muito vivo para mim. Vou advertir os leitores que conterei sobre o que versa o conto e inclusive seu final. O conto começa com um senhor sentado em um parque vendo as crianças brincarem. Esse senhor de meia idade era um cientista brilhante, que tinha uma certa perversão, da qual possuía consciência, mas não atuava, sentia. Seguia seus dias entre seu brilhantismo e sua perversão. Além desse cientista o outro personagem era o diabo. O objetivo do diabo era conseguir almas, para colecionar em seu inferno. Para alcançar seu intento barganhava com as pessoas, prometendo-lhes aquilo que mais desejavam em troca de sua alma. Só que esse cientista não era muito simples de ser seduzido. O diabo se transforma e busca seduzi-lo, através da perversão inconfessável do cientista, que somente o diabo e o cientista sabiam. É uma sedução crescente, sutil, nada grosseira. À medida que as páginas vão virando o diabo investe cada vez mais nessa sedução e o cientista vai afundando-se cada vez mais em seu conflito. Há uma genuína tensão crescente à medida que a história vai se desenrolando. O cientista vive cada vez mais em conflito e o diabo se envolve cada vez mais com a vida e obra do cientista. Já próximo do final o diabo descobre que o cientista estava provando (não lembro ao certo se é o fim do mundo ou a existência de Deus. No mínimo uma dúvida estranha, mas ambas as hipóteses ilustram a tensão final) e fica extasiado com tal brilhantismo. Percebe-se enamorado, apaixonado pelo cientista, que acaba assinando o contrato. O diabo querendo viver intensamente seu desejo de amor pelo cientista busca beijá-lo e nesse momento se desfaz em fumaça. Absurdamente original. O cientista perdeu sua alma e o diabo não pode vivê-la, já que "brotou" uma alma própria, e não de outra pessoa. Muito "louco", interessantíssimo. Até hoje não sei dizer que "coisa" gostei tanto no conto, além da originalidade. São sensações, sensações e sensações. Não consigo interpretar, fico perplexa, atônita em ver como é o "fim do mundo ou a existência de Deus". Existem "coisas" que não conseguimos explicar, só sentimos, mas que insistimos em tentar explicar. Será que esses "buracos" de explicação precisam ser preenchidos com palavras? Só sentir ...... que mal há? E como explicar? Precisa?
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