domingo, 25 de dezembro de 2011

Segurança 100% . . . tem como?

No dia natal, as crianças estão brincando com os presentes que ganharam na véspera . Minhas filhotas também ganharam seus presentes e, dentre eles, uns "meio perigosos": uma pediu um patinete e a outra um par de patins. Como hoje o politicamente correto é garantir a segurança total dos filhos, cada uma ganhou junto ao seu tão desejado presente um kit "segurança" . . . . capacete, joelheira e cotoveleira. Inclusive, Feliz, quando pediu seu patinete disse que esse kit era importantíssimo, pois eu não iria querer que ela de maneira alguma se machucasse (palavras dela). Apesar de eu achar um exagero não iríamos querer o rótulo de displicentes, que não se preocupam com a segurança dos filhos, então seguimos a "tendência" mundial. Estávamos na pracinha vendo-as equilibrarem-se em suas novidades do natal quando avisto uma outra criança, de aproximadamente uns 4 anos, vindo com sua provável bicicleta nova com rodinhas e, além disso, um acessório de segurança . . . . um capacete. Fiquei me perguntando: será que é preciso toda essa parafernália? Será que o menino, já com as rodinhas, ainda precisava do capacete? Ao mesmo tempo olhava para minhas filhotas e os tombos que levaram foram todos de bumbum. Ou seja, o kit não "protegeu", não haviam "bumbunzeiras". Claro que acredito em vários equipamentos de segurança, o cinto de segurança em carros, as cadeirinhas para crianças, afinal o carro atinge velocidades elevadas e os impactos podem não só machucar mas também levar a óbito. Mas para brincar, para viver o dia a dia, será que é necessário tudo isso, será que dá para garantir que nada sairá errado, que não haverão arranhões e machucados? O que me preocupa não é só o exagero, mas como esse cerco de segurança ilusória pode desenvolver adultos medrosos, que tem medo de arriscar, que tem medo de viver se as coisas não estiverem 100% dentro do esperado, dentro do "adequado". Para mim por trás de toda essa parafernália estamos dando outra mensagem, que emocionalmente pode ser muito mais danosa do que arranhões ou braços quebrados. Será que com esse exagero de segurança não estamos transformando nossas crianças em pessoinhas infantilizadas emocionalmente? Pessoas que vão acreditar que algo do externo estará sempre pronto a lhes proteger e por isso não amadurecem, não conseguem desenvolver um acreditar em si mesmo para arriscar e, caso se machuquem saibam cuidar de si mesmas, levantar, sacudir a poeira e continuar. Acredito que a sociedade de hoje está infantilizando muito o ser humano, incentivando-o a olhar e acreditar no que vem de fora e consequentemente ignorar o de dentro. Acreditar em si mesmo é coisa do passado, hoje temos que acreditar nos equipamentos. Para ilustrar: dá para imaginar as ginastas olímpicas treinando de capacete, joelheira e tornozeleira?
Sempre que eu assisto uma apresentação dessas me dá muito frio na barriga quando vão dar aqueles mortais, aquelas piruetas, saltar no cavalo . . . . fico imaginando não só o quanto treinaram mas o quanto de coragem e segurança em si mesmas desenvolveram para se  "aventurarem" em tais exercícios. E os artistas do circo de soleil . . . . será que nos proporcionariam espetáculos tão lindos e interessantes se ficassem aprisionados pela segurança e seus kits? Quantos jovens hoje, ao se formarem, desejam trabalhar na empresa X ou Z porque é "segura", está há anos no mercado de trabalho e é líder a outros tantos. Será que esses jovens entram nessa empresa porque se sentem profissionalmente maduros para contribuir ou porque querem um porto seguro já que sua segurança em si mesmo é deficiente? Na vida temos poucas certezas (se é que temos alguma), temos muito mais dúvidas e incertezas, só que o imaginário social está tentando a fórceps derrubar uma das poucas certezas que o ser humano pode ter . . . . si mesmo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Desorganização e excesso

Já escrevi várias vezes sobre arrumações: arrumação 1 e arrumações 2. Só que outro dia me "toquei", nunca falei sobre a desorganização. E falar sobre desorganização está totalmente relacionado à fase que estou vivendo. Faz mais de um mês que postei minha última reflexão e de lá para cá vários assuntos têm passado pela minha mente porém nenhum deles eu desenvolvo. Comecei até achar que eu estava esvaziada de sentido, esvaziada do cotidiano, afinal minha proposta está relacionada ao dia a dia que vivemos, que enfrentamos . . . . então, se pouco sentido estava vindo desse dia a dia era bem possível que eu estivesse ou pouco reflexiva ou anestesiada. Só que reflexão é minha principal ferramenta de trabalho, é como me desenvolvi, então essa hipótese foi descartada. Anestesiada, também difícil, lido com saúde mental, com desorganização psíquica, com sofrimento, se estivesse anestesiada não estaria conseguindo ouvir o outro. O ponto de interrogação se manteve até que, acredito ter tido uma luz sobre o principal "responsável" pela escassez de textos. O excesso . . . . . a desorganização . . . um certo caos interno e psíquico. Muitas coisas tem acontecido, tenho ocupado demais o espaço criativo para organizar questões internas, pessoais e por isso tem me sobrado pouco espaço interno ao olhar o dia a dia, ao olhar para fora e fazer conexão com o de dentro. E essa desorganização, esse excesso de estímulos têm me mobilizado a procurar formas de organizar, de produzir novos sentidos. O excesso provoca distorções, provoca uma aparente perda de sentido porque muitas são as possibilidades, muitas são as ideias para a organizar, finalizar e quando o excesso está "atuando" a organização parece muito difícil. É por isso que vários temas têm me surgido à mente e não consigo desenvolvê-los, do mesmo jeito que surgem, somem e logo na sequência surge outro e . . . . aparentemente só mais uma ideia solta. Há muito tempo, há mais de ano escrevi uma reflexão sobre um conceito (depressividade) que o psicanalista Fedida introduziu. Vou usar parte dessa reflexão para ilustrar algo que tenho percebido como necessário para organizar-se no excesso: a necessidade de permeabilidade. O caos é caracterizado pelo excesso de "coisas" e para organizá-las é preciso vê-las em separado e não absorver tudo de uma única vez. Para que o indivíduo possa continuar "abrindo espaços psíquicos", produção de sentidos de novas experiências é necessária uma certa seletividade nas experiências subjetivas e intersubjetivas vivenciadas. É como se esse mecanismo fosse uma membrana semipermeável. Um conceito aparentemente simples, mas em sua essência resguarda uma complexidade a ser respeitada. Para auxiliar na ilustração usarei nossa pele como exemplo. Ela tem um papel fundamental e muito importante na manutenção de nosso equilíbrio orgânico sendo responsável por excretar o suor e sais, ou seja, através de seus poros substâncias saem. Também é responsável por impedir a entrada de substâncias que alterariam o equilíbrio orgânico. Ao mesmo tempo que é barreira de entrada para a água não o é para uma pomada, caso tenhamos que tratar alguma lesão. Nesse caso a pele terá a capacidade de absorção. Então, a pele deixa tanto entrar como sair, mas não é qualquer coisa que entra ou sai, há uma seletividade. A pele é sempre a mesma e o que a faz deixar entrar ou sair está relacionado à característica da substância que está interagindo com ela. E lidar com os excessos é similar a esse processo seletivo. Saber o que está dentro, o que está fora e as possibilidade de interação e intercâmbio é que produzirá um novo sentido, antes não experenciado por aquele indivíduo. Esse novo sentido será um sentido organizador. Então o excesso diminui, o caos diminui e a possibilidade de organização já se mostra. A desorganização faz isso por nós, nos dá possibilidade de criarmos novos sentidos, de revermos velhas maneiras e criarmos novas. A desorganização pode ser criativa mas exige muita, mas muita paciência. Termino o texto com uma certa sensação de pouca organização e de talvez não ter conseguido expressar-me adequadamente. Ao mesmo tempo uma sensação de originalidade (sentido de origem, tudo que veio foi a partir da desorganização) porque esse excesso têm estado muito presente no meu cotidiano e posso tê-lo espelhado no texto, algo consonante em relação ao meu momento. Quem sabe já não é um sentido de organização?

domingo, 6 de novembro de 2011

Curtas: Politicamente correto, solo fértil para . . . . . .


Trabalho em uma instituição psiquiátrica e tenho ficado cada dia mais impressionada com a quantidade de pessoas que são internadas com distúrbios de desorganização psíquica grave cuja família parece vir de um comercial de margarina. Ouço o relato da família sobre o desenvolvimento do paciente e fico estarrecida, perdida porque tudo parece tão no lugar. Fico me perguntando: o que aconteceu para aquele sujeito ter se desorganizado tanto? Os relatos dos cuidados são tão redondos. . . . . . os discursos de afetividade são tão amorosos . . . . que fico me perguntando, onde está a "loucura" nessa família. É fato que, para um sujeito desenvolver um transtorno mental grave a ponto de precisar ser internado, há uma disfunção familiar, é sistêmico. A desorganização psíquica é intrínseca nas relações parentais, não há como dizer que a criança não é afetada pela desorganização do adulto. Mas, no passado, essa desorganização era escancarada, não havia a casca do politicamente correto para encobrir as disfunções familiares. Hoje, os adultos colam em seus corpos maneiras de lidar com o outro e a naturalidade fica completamente esquecida, fica obsoleta. A naturalidade não é ferramenta para esconder-se. Na verdade a naturalidade hoje é banida dos círculos sociais, afinal pode ser uma denunciadora do que não está bem. Só que se vemos o que não está bem existe a possibilidade do cuidar . . . . . . mas também  alguém pode apontar. Você não sabia? Você não viu? Você não leu? A sociedade de hoje prega sucesso, perfeição, maneiras de usar todo o seu potencial, é de uma prepotência e arrogância intensa. Como uma mãe vai poder admitir que acredita ter deixado de ser suficientemente boa em alguma coisa. Simplesmente, se assumir isso, será apedrejada em praça pública. Terá cometido o maior dos pecados, terá admitido que errou, que surtou, que cansou, mas também existe a possibilidade dela ter, junto com tudo isso, cuidado, acarinhado, amado e acompanhado. Atendo as famílias e as vejo dissociadas. Tudo foi tão bem. Quando criança o paciente era ótimo, na escola ótimo, os pais sempre ótimos, sempre acompanhando . . . . de repente tudo mudou. E a família fica me dizendo isso de uma maneira tão superficial que fico procurando onde está o encoberto, o que não estão me contando, como descobrir isso? Antes do politicamente correto, dos livros com dicas de educação perfeita, de faça isso que acontecerá aquilo, havia espaço para a ira, o ressentimento, o ciúme, a loucura, a desorganização, mas também para a união, para o amor  e o carinho. Hoje tudo tem que ser plástico, perfeito. Ninguém pode ser pessoa, sujeito desejante, frustrado, amoroso e raivoso. Tem que ser perfeito e politicamente correto. Se o politicamente correto é trocar a fralda do meu filho a cada duas horas é o que vou fazer. Não vou esperá-lo chorar, ou não vou no cansaço do cuidar tirar um cochilinho fora de hora e acordar com meu pequeno chorando precisando de ajuda. Não . . . . .  para ser boa mãe, politicamente correta eu tenho que ficar olhando no relógio a hora de dar o suquinho, a hora da mamadeira, a hora do cochilo e não ter espaço para colocar o que de fato estou sentindo junto com aquele serzinho, que pode ser medo, aflição, ignorância, amor, cansaço, um monte de coisa junta. Não, vou abstrair tudo o que sinto e no lugar colocar o que deve ser feito para que meu filho tenha a melhor assistência possível. E aí ele cresce no vazio, e a mãe educa no vazio e aí mais tarde interna o filho em uma instituição psiquiátrica e conta uma história de vida do filho que não preenche uma folha, tudo meio vazio. Mas para preencher esse vazio temos o politicamente correto, ajuda na manutenção dos códigos sociais e diz que humaniza mais as relações, será?

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Curtas: Touradas e sadismo


Insônia . . . .  fui ler notícias na internet. Havia uma notícia sobre um toureiro ferido pelo touro e a reportagem advertia que a imagem era forte. Mesmo assim fui olhar, não sei porque, queria ver como o toureiro tinha sido ferido. Achei a imagem chocante, mais pelo sangue que escorria do lombo do touro do que pelo toureiro. Foi estranho, ao olhar a foto não pude deixar de sentir que o touro nada mais fez do que reagir com raiva e atacou quem o machucava. Aparentemente o touro deveria estar sentindo muita dor. Não entendo nada de touradas e também não conheço muito da cultura espanhola, mas existe algo que é universal, o sadismo. Na tourada o objetivo nada mais é do que inflingir dor, mostrar superioridade e poder. É uma tortura lenta. É um sadismo atuante e perverso, tanto do toureiro como de quem assiste. E em toda a história de nossa "civilização" tem exemplos e mais exemplos do homem sádico, às vezes uma nação inteira sádica, se sobrepondo ao outro em função de um narcisismo e um egocentrismo. A vida do outro existe para que sinta dor e com isso alimentar o prazer no sádico. Não consigo entender. Uma vez li um livro escrito por um antropólogo que defendeu a tese que essa agressividade, que esse sadismo também é presente nos chimpanzés e por isso temos esse "algo" filogenético. O livro "O macho demoníaco" mostra como os chipanzés também se juntam e machucam outros de suas espécie por prazer ou para demonstrar poder. Os chimpanzés gostam de poder, o disputam e machucam o outros para enviar "recados". Em contrapartida, nesse mesmo livro, aprendi sobre os bonobos. Também primatas superiores e muito pacíficos, com a empatia presente em suas ações. Segundo o livro o bando tem a figura da fêmea-alpha e não o macho-alpha com na "sociedade" dos chimpanzés. Além disso todos os conflitos que acontecem no grupo são resolvidos através do sexo. Deu problema . . . .  sexo, inclusive entre pares do mesmo gênero. Parecem o oposto dos chimpanzés. Uma das colocações do livro é que como devemos ter herança genética tanto de um como de outro temos as duas tendências: agressividade e pacificação. Agora, se um jeito de lidar com o sadismo e os conflitos é com o sexo, de maneira muito simplista e sem ofender o pensador, Freud estava "coberto" de razão. Nossas pulsões sexuais são "comandantes" em nossas relações. Então, simplificando muito mais, será que ao invés de corrermos tanto atrás em aumentar nosso patrimônio, ter uma casa mais confortável, trocar de carro, não deveríamos procurar um parceiro sexual bem legal e, quem sabe, a paz mundial se instaurar. Desde que o mundo é mundo sexo é um tabu, e desde que o mundo é mundo o homem dizima povos, rouba culturas, se sobrepõe sobre o outro por prazer, ganância, por fim, um narcisista sádico. A tourada é um exemplo de um sadismo coletivo como outros tantos que nossa história está recheada. Será que isso um dia muda ou o ser humano vai continuar escrevendo sua história com a tinta do sadismo, do poder e da perversão?

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Curtas: Sinto uma "coisa"

Em diversas situações no dia a dia nos ouvimos dizendo: "sinto uma coisa", uma frase assim, bem pouco específica. Quando alguém pergunta: mas que "coisa" se responde: sei lá, um treco, um troço, aqui no peito, na barriga, uma sensação, uma "coisa". O dia acaba e na maioria das vezes não conseguimos denominar o que sentíamos, "apenas" uma "coisa", uma sensação muito real, mas uma "coisa". As palavras para descrevê-las não são encontradas, são sensações, não parece caber palavras. Essa "coisa" me faz lembrar de um livro, cujo título é: "A coisa" (autor: Alberto Moravia). Cheguei até ele da seguinte forma: era uma época em que eu procurava ler autores não tão divulgados, menos mencionados nas mídias, de preferência europeus (certo preconceito, confesso) e cujo enredo da história parecesse intimista, nos recônditos do ser humano. Procurava primeiro livros de contos para depois, se eu gostasse, comprar algum romance do autor. Também gosto muito de contos, sinto uma certa densidade, não sei porque ..... é uma sensação. Fazendo, então, a garimpagem na livraria vi esse livro e resolvi comprar. Me surpreendi com o conteúdo. Eram contos com temáticas bem originais, intimistas e profundas. Levavam o leitor a universos pouco mencionados, bizarros, mas tão reais no imaginário coletivo que me envolvi. Uma "coisa" meio underground, meio que do submundo do inconsciente, meio erotizado. O conto que deu origem ao nome do livro não foi o que mais gostei, o meu eleito foi um cujo nome acho chamar-se "O diabo".  Tem aproximadamente uns 15 anos que li o livro, hoje  não está mais comigo, então vou falar por lembrança, acreditando que pouca coisa ficará distorcida (se algo estiver muito distorcido com certeza terá um motivo que depois vejo se descubro, algum ato falho, talvez muito falho). Seu conteúdo, seu enredo ainda é muito vivo para mim. Vou advertir os leitores que conterei sobre o que versa o conto e inclusive seu final. O conto começa com um senhor sentado em um parque vendo as crianças brincarem. Esse senhor de meia idade era um cientista brilhante, que tinha uma certa perversão, da qual possuía consciência, mas não atuava, sentia. Seguia seus dias entre seu brilhantismo e sua perversão. Além desse cientista o outro personagem era o diabo. O objetivo  do diabo era conseguir almas, para colecionar em seu inferno. Para alcançar seu intento barganhava com as pessoas, prometendo-lhes aquilo que mais desejavam em troca de sua alma. Só que esse cientista não era muito simples de ser seduzido. O diabo se transforma e busca seduzi-lo, através da perversão inconfessável do cientista, que somente o diabo e o cientista sabiam. É uma sedução crescente, sutil, nada grosseira. À medida que as páginas vão virando o diabo investe cada vez mais nessa sedução e o cientista vai afundando-se cada vez mais em seu conflito. Há uma genuína tensão crescente à medida que a história vai se desenrolando. O cientista vive cada vez mais em conflito e o diabo se envolve cada vez mais com a vida e obra do cientista. Já próximo do final o diabo descobre que o cientista estava provando (não lembro ao certo se é o fim do mundo ou a existência de Deus. No mínimo uma dúvida estranha, mas ambas as hipóteses ilustram a tensão final) e fica extasiado com tal brilhantismo. Percebe-se enamorado, apaixonado pelo cientista, que acaba assinando o contrato. O diabo querendo viver intensamente seu desejo de amor pelo cientista busca beijá-lo e nesse momento se desfaz em fumaça. Absurdamente original. O cientista perdeu sua alma e o diabo não pode vivê-la, já que "brotou" uma alma própria, e não de outra pessoa. Muito "louco", interessantíssimo. Até hoje não sei dizer que "coisa" gostei tanto no conto, além da originalidade. São sensações, sensações e sensações. Não consigo interpretar, fico perplexa, atônita em ver como é o "fim do mundo ou a existência de Deus". Existem "coisas" que não conseguimos explicar, só sentimos, mas que insistimos em tentar explicar. Será que esses "buracos" de explicação precisam ser preenchidos com palavras? Só sentir ...... que mal há? E como explicar? Precisa?

domingo, 25 de setembro de 2011

Arrumações 2



Tudo começou de uma maneira meio desarrumada. Domingo, bem cedo, dia livre, filhas nos avós pensei em fazer várias coisas pendentes. Ler um texto do grupo de estudos, fazer uma postagem, ver um filme. Por fim resolvi começar pelo texto do grupo de estudos que cuida da relação do psicanalista e suas teorias. Abre parênteses: durante a semana tem um colega de trabalho, que chamarei de Rodrigues, me pediu alguma literatura sobre mecanismos de defesa e emprestei dois livros meus. Um com linguagem simples, que além dos mecanismos de defesa versa sobre a psicanálise abordando os principais aspectos dessa teoria de maneira acessível e outro um pouco mais denso. Dias depois o Rodrigues disse estar gostando muito da leitura e achando a psicanálise interessante. A partir dessa fala dele, lembrei de outro texto de Freud (As cinco lições da psicanálise) que na época da faculdade li, achei extremamente interessante, e a partir daí, mesmo sem saber na época, me apaixonei pela psicanálise. Transferencialmente pensei em emprestar ao Rodrigues também esse texto. Fecha parênteses.  Resolvi começar o dia pelo texto do grupo de estudos sobre psicanálise. Logo no início li algo, sobre a psicanálise, que achei tão lindo, imediatamente começou o desencadeamento de sensações. Me remeti ao meu primeiro despertar, ao texto de Freud, ao interesse do meu colega de trabalho na psicanálise, então, larguei o que fazia resolvi procurar o texto para entregar ao Rodrigues. Não sei porque mas era algo urgente. Eu tinha certeza que esse texto estava junto ao meu material da faculdade, até hoje o guardava na íntegra: cadernos, trabalhos, textos e produções monográficas. Comecei a remexer, não encontrava o texto, e ao mesmo tempo me deparei com um monte de coisas que não faziam mais sentido em guardar. Resolvi que iria jogar um monte de coisas fora. Comecei uma certa desorganização, tão sem linearidade, pareciam movimentos meio aleatórios. Ao mesmo tempo me intrigava não ter dado de cara logo com o texto do Freud porque recentemente o usei para preparar uma aula. Tentando fazer a triagem do que ficar e do que jogar, lembrei: o texto das cinco lições estava em outro lugar. Abandonei a triagem, tinha um monte de coisas espalhadas pelo chão, algo meio bagunçado e fui procurar as cinco lições em outro lugar. Achei logo e imediatamente que senti satisfação também percebi que aquele lugar também estava meio bagunçado, precisava de organização. Resolvi organizar lá primeiro não havia tantas coisas a serem jogadas fora, só melhor dispostas. Depois de fazer isso voltei ao lugar onde tudo começou. Então, mais organizadamente consegui selecionar o que jogaria fora e o que não. Na época da faculdade, tudo o que o que se relacionava a ela era tão significativo que sentia necessidade de acumular, deixar tudo com a mesma  importância.  Hoje, muito diferente, meu caminho já está tão mais sólido, mais lúcido, que não preciso mais de tanto volume. Mas . . .  minha agenda do ano de 2007 não consegui me desfazer. Foi um ano importante, um marco para uma série de mudanças que até hoje estão acontecendo. O significado desse ano ainda é muito vivo, muito presente. Durante algum tempo sinto que essa agenda vai permanecer onde a coloquei, pelo menos ela mudou de lugar, já é alguma coisa, já uma ressignificação. Fiquei horas me reorganizando, inclusive elegi um canto no qual coloquei várias quinquilharias que não sei o que fazer. Acho que terá a hora certa para arrumá-lo, mas por enquanto esse lugar vai representar o reservatório daquilo que não sei o que fazer, mas que em algum momento receberá um novo destino. É assim com tudo em nossa vida. Vez por outra, precisamos reforçar nosso lugar ou encontrar outro destino, outro significado. Hoje foi um dia de arrumações, de trocar de sapato. Joguei aqueles que não me servem mais, que um dia foram bonitos, mas meu pé cresceu, mudou, está diferente e eles não combinam mais. Ainda sobraram alguns, com quais não sei bem o que fazer. Não os quero mais usar, não fazem mais sentido, mas não consigo me desfazer. Por isso os guardei em um lugar lembrável, onde eu possa vê-los de vez em quando, que algo deve ser feito, não estão bloqueando minha passagem, é um lugar mais de lado . . . . . . só que não é esquecido.  

domingo, 18 de setembro de 2011

Curtas: Poroca - um encontro

Há uns 10 anos atrás, ainda na faculdade, estava aprendendo sobre psicodrama e a professora leu um trecho em que Jacoby Moreno, o pai do psicodrama, escreveu sobre o encontro de duas pessoas.


A partir dessa leitura eu escrevi um texto, e não sei porque resolvi colocá-lo hoje no meu cantinho de reflexões. Fala sobre algo que acontece o tempo todo em nossas vidas, sobre o encontro com o outro. Aqui vai um pensamento de 10 anos atrás: "Quando leio ou escuto a palavra encontro, nunca  deixo de lembrar o dia em que aprendi sobre a pororoca, que é o encontro das águas do Rio Amazonas com o mar. Ao ler a poesia, imediamente a palavra pororoca veio-me à mente e enxerguei o encontro proposto por Moreno como um encontro da pororoca, só que ao invés de águas, um turbilhão de emoções. Quando encontra-se com o outro, ou seja, que ocorre uma interrelação e papéis são vividos, emoções são sentidas e trocadas. Quando há a proposta de vivenciar a experiência do outro através da representação da troca dos olhos, há um benefício mútuo. Passo a ver-me sob outro ângulo e a pessoa também passa a ver-se sob outra ótica. Processo muito construtivo para uma auto-avaliação e conscientização de suas atitudes e maneira sde lidar com os papéis e as relações pessoais. Maneira de entrar em contato com os próprios sentimentos e conflitos. Volto novamente à pororoca. Ela é um fenômeno da natureza que não é presente, nem passado, nem futuro. A vivência dos papéis, o olhar a si mesmo e ao outro é uma experiência atemporal e que flui trazendo uma série de renovações internas. Assim como a pororoca está sempre ocorrendo com águas renovadas e trocadas. Ninguém consegue aprisionar ou controlar esse fenômeno. O encontro deve ser espontâneo e criativo assim como a natureza o é." Hoje após 10 anos eu escreveria diferente, mas não mudaria muito. A importância e intensidade do encontro com o outro é única com aquele outro. Saber encontrar-se, consigo e com o outro, não tem preço.