Recentemente um amigo que trabalha em uma clínica que cuida de dependentes químicos disse estar impressionado com pobreza da vida emocional de tudo que tem cercando a vida dessas pessoas que estão em recuperação. Grande parte dessa população é jovem, em uma faixa de 18 a 35 anos. Esse meu amigo disse que em sua época de juventude ele e seus amigos fizeram muita "farra". Mas colocou que ele e os amigos debatiam, iam para a praia para curtir, viviam algo. O que tinham em comum era que conversavam, se divertiam, iam a shows, realizavam debates, expandiam suas mentes para algo além do prazer instantâneo, do prazer só consigo mesmo. Tinham também prazer na companhia do outro. E é ver o outro, perceber o outro, interagir com o outro, que é incomum nos dias de hoje. Atualmente viver em coletividade é coisa do passado. O moderno é não ver o outro só a si mesmo. Só se interessar pela satisfação dos próprios prazeres. Recentemente li uma crônica do Arnaldo Jabor que refletia sobre sobre a busca por felicidade no homem moderno, em como é a busca por esse ideal. Ele colocou que em sua época de juventude o ideal de homem era ser como o James Bond que pegava todas as mulheres, lindas, espiãs, um homem charmoso, com um tremendo poder de sedução, mas que tinha um trabalho. Arnaldo Jabor frisa que hoje o homem moderno busca constante a satisfação imediata de seu prazer pessoal e que seu trabalho se resume a isso. Satisfazer-se e que não tem nenhum compromisso com o futuro ou com alguém. A sociedade de hoje tem caminhado cada vez mais por essa rota. Hoje os jovens desde muito cedo "aprendem" que devem ir para as baladas e beijar a maior quantidade de homens ou mulheres pois é a imagem de um ser (tanto o verbo como o sustantivos) interessante. Ser beijador é ter poder e status. Qual o sentido emocional de si com o outro em beijar na mesma noite três pessoas diferentes. Busca-se só o beijar pelo beijar e não que o beijar antecede o possível início de uma relação, seja ela qual for. O importante é beijar e dizer que beijou e não que encontrou alguém interessante com a qual sentiu certa afinidade. O outro inexiste nesse movimento do beijar pelo beijar. Então o encontro com o outro não é também para saber o que ele pensa, se tem haver com o que você pensa, se ele tem algo para te oferecer ou mesmo você a ele. Esse "encontro" com o outro nada tem haver com o outro só consigo mesmo. É para satisfazer o prazer sexual do beijar e o prazer do status em dizer que beijou. A criança por volta dos dois a três anos que é assim. Está começando a ter autonomia em relação a si mesma, já anda, fala e tem o controle dos esfincters e por isso acredita que já tem certa potência para alcançar o que deseja. Inclusive é por volta dessa idade que ela começa a se diferenciar dos outros, quando começa a perceber que tem uma identidade separada dos outros que estão a sua volta. E para acontecer amadurecimento afetivo a criança precisa experenciar a satisfação precisa quando dá e não exatamente no minuto seguinte ao desejo. A frustração, a não satisfação das necessidades imediatamente, sua preparação como um ser coletivo, com papéis naquele seu bando, naquela sua coletividade são importantes de serem vivenciados. É assim que vamos nos tornando adultos amadurecidos, assumindo responsabilidades, cuidando de nós e do outro. Quando não amadurecemos, não aprendemos a esperar, projetar futuro, traçar objetivos de longo prazo, nos mantemos aprisionados em uma fase infantil. Satisfação imediata dos prazeres. Isso deveria ser consequência do amadurecimento e não objetivo de vida. Usei como exemplo a área sexual, mas as outras áreas do indivíduo também têm sido regidas pelo princípio do prazer imediato. Profissionalmente, precisa-se rapidamente alcançar altos cargos e elevados salários, só assim sente-se prazer no sucesso profissional. Na área familiar há uma intensificação dos discursos de liberdade de pensamentos, mas essa liberdade é cercada só pelo eu, e não também pela liberdade do outro. E assim sucessivamente em todas as relações. Não dá para dizer se é por causa da tecnologia, se é em função da revolução industrial ou se esse movimento se iniciou no mito da caverna de Platão. O que dá para afirmar é: estamos na ERA do EU. . . . . . . infantil.
Momentos de reflexão sobre o cotidiano do ser humano a partir do dia a dia que vivemos.
sábado, 23 de julho de 2011
domingo, 17 de julho de 2011
Medicina hiper diagnóstica laboratorial
A medicina de hoje está muito avançada para diagnosticar e o conhecimento da existência de uma série de doenças, raras ou não, está cada vez mais presentes. E esse conhecimento, essa descoberta dessas doenças desencadeia o desenvolvimento de testes laboratorias específicos para confirmar as suspeitas. Afinal, o médico cria hipóteses de possibilidades ao examinar clinicamente um paciente, ao ouvir seu histórico e a descrição e seus sintomas e existem determinados casos que é necessário um exame laboratorial para confirmar ou descartar hipóteses levantadas. Mas também há casos que só o histórico clínico já indica a doença. Mas uma coisa é sempre igual, o exame clínico realizado pelo médico é imprescindível para gerar hipóteses e os laboratorias para confirmá-las ou não. Hoje, esse panorama que eu apresentei . . . . só no mundo da imaginação. Vou ilustrar minha reflexão com um caso específico em que a intensificação do diagnóstico laboratorial pode trazer muito prejuízo na vida das pessoas. Há pouco mais de um mês nasceu uma sobrinha minha, filha da irmã de meu marido e uma alegria na família, uma vivência única e agradável que sempre acontece quando há um bebezinho. E nesse caso específico foi o primeiro filho de um casal que teve muita dificuldade para a concepção. Tudo estava muito bem quando, após uns 20 dias do nascimento, o médico liga dizendo ser necessário fazer outro exame do pezinho porque deu alteração em uma proteína que pode indicar fibrose cística. É uma doença crônica e fatal, a expectativa de vida do indivíduo por maior que seja é de 30 anos. Foi um pânico, minha cunhada e meu cunhado foram do céu ao inferno em questão de segundos. Para resumir a segunda prova deu negativa, ela está ótima, mas depois eu soube detalhes sobre esse teste, o porque da investigação e fiquei indignada com a irresponsabilidade dos médicos em pedir tal teste aos recém nascidos. O bebezinho nasce com uma proteína sensível para essa doença e se essa proteína estiver em níveis elevados pode indicar probalidade da criança ter essa doença. E que com o passar dos dias, o nível dessa proteína vai baixando para aqueles que não têm a doença, portanto é muito comum bebês recém nascidos saudáveis terem em seus primeiros dias de vida essa proteína aumentada. Além disso existem sintomas clínicos claros desde os primeiros dias do bebê que podem indicar a existência dessa doença: o mecônio demora para descer, não pega peso, não evacua normalmente, essa proteína interfere na digestão e na absorção dos nutrientes. É um caso muito diferente de outra patologia que é detectada pelo teste do pezinho, o hipotireodismo congênito que se detectado cedo as intervenções podem impedir que haja comprometimento no desenvolvimento neurológico da criança. No caso da fibrose cística muito pouco pode ser feito logo que o bebê nasce para impedir prejuízos maiores. Minha cunhada também contou outro caso de uma vizinha dela, também com um bebê recém-nascido cuja primeira e segunda prova do teste do pezinho deram positivo para a doença e que o próximo passo era fazer o teste do suor no H.C. Essa mãe contou para minha cunhada que quando chegou no H.C. existiam muitas mães na mesma situação que ela. No caso deles o sofrimento foi de quase dois meses, pois além da segunda prova o teste do suor demora 45 dias para ficar pronto e deu negativo. Qual será que foi o dano psicológico e emocional para esses pais e esse bebezinho, e para os outros milhares que sofreram na mesma situação até descobrir que seu bebezinho goza de ótima saúde? Tem algum teste laboratorial para comprovar? Qual o custo benefício de se fazer o teste nos recém nascidos se essa proteína é tão sensível de ser detectada? É como no hipotireodismo congênito que internvenções emergentes podem fazer toda a diferença? Será que a medicina laboratorial acredita que há sofrimento para os pais, que a produção do leite materno pode ser afetado, que a ansiedade de saber se seu filho tem ou não uma sentença de morte pode afetar periodicamente o desenvolvimento da criança e a relação deles. Onde está a medicina clínica? Será que ao invés de desenvolver o teste laboratorial para fibrose císitca e torná-lo rotina os médicos pediatras não deveriam ser treinados a conhecer mais sobre a doença e seus sintomas para que, se perceberem tais sintomas na criança, aí sim pedir exames para confirmar ou descartar o diagnóstico. Nesse caso específico da fibrose cística (caso que conheci recentemente) a medicina do diagnóstico laboratorial tem condenado pais e bebezinhos ao inferno, por muitos dias, sem serem "pecadores". Um crime. Acho que a medicina avançou muito em tecnologia, mas a formação clínica dos médicos está cada vez mais pobre. Eles têm dificuldade em acreditar nos sinais clínicos que enxergaram, precisam das provas laboratoriais. Os médicos estão tornando-se "covardes", estão perdendo a capacidade de acreditarem em si mesmos, pois a medicina do diagnóstico laboratorial está encapsulando a clínica. Tem também uma parcela de médicos que acha mais fácil ser um leitor de resultados de exames porque não precisa se responsabilizar por ter investigado mal, por não ter dado atenção a determinados sintomas. São os do tipo "corpo fora". Tenho também um exemplo ótimo para os do tipo do "corpo fora". Uma vez meu marido ficou com uma febre de uns 38 graus, que pouco abaixava e uma dor de cabeça fortíssima. No terceiro dia surgiram umas manchas vermelhas no seu braço. Fomos ao médico do P.S que mal o examinou e pediu um exame de licor para descartar meningite, além do hemograma. Questionamos se não poderiam ser antes descartadas outras coisas e o médico disse: "vou então pedir a opinião de um colega." A porta estava aberta e um outro médico passou e ele chamou. O outro médico ficou na porta mesmo e o que nos atendia disse: "dor de cabeça, febre, manchas no corpo, peço licor (sic)", e outro disse: "Oh". Foram as três horas mais longas, tínhamos filhas pequenas, a irmã dele com um problema de saúde, etc..... ficamos no isolamento. O enfermeiro que foi nos atender quando soube do possível diagnóstico saiu fora na hora para verificar uma "coisa". Meu marido fez o exame, bem invasivo, depois de feito a pessoa precisa ficar 24 deitada e só levantar para o essencial. O plantão trocou e o médico que veio nos dar a boa notícia, questionou de maneira sutil porque foi feito o licor e disse que o hemograma estava típico de uma virose. Dissemos que as manchas vermelhas no corpo era o que havia de estranho. Esse outro médico apertou uma delas, que ficou amarela. Ele disse: "são manchas alérgicas, manchas de meningite se apertadas continuam vermelhas, pois são pequenos derrames de sangue". Lógico que fiz uma e-mail enorme para o hospital que dias depois me ligou dizendo que em função da minha reclamação alguns procedimentos no hospital foram alterados. O atendente do hospital, que me ligou, se esquivava de toda e qualquer pergunta que eu fazia para me aprofundar no caso. Ficou claro para mim que se o hospital assumisse que o médico realmente errou feio ao pedir o exame poderíamos entrar com um processo. Além do nervoso, do procedimento invasivo, temos que pagar mais pelos nossos convênios médicos, pois quanto mais os procedimentos são feitos mais os convênios aumentam suas mensalidades. Além de tudo somos invadidos em nosso bolso pelos médicos do "corpo fora". Depois de tudo isso eu pergunto: onde estão os médicos clínicos, para mim uma raça em extinção. Tem um livro ótimo chamado "A cidadela"de A. J. Cronin, que mostra o trabalho de um médico em uma mina de mineração e várias conclusões sobre alguns dos males provocados por esse trabalho. As conclusões a que ele chegou foram através de sua observação do dia a dia do trabalho e dos sintomas que os trabalhadores apresentavam. Tem também uma história de romance e algumas crises existenciais, mas mostra também o trabalho de um médico clínico.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Marginalidade
Sempre ouço rádio de notícias no caminho ao trabalho. Hoje não foi diferente. Teve o relato de um ouvinte que chamou minha atenção. Não só pelo fato em si, mas também pelo que comecei a pensar. O ouvinte, em seu relato, disse ter sido assaltado por três adolescentes em um farol que portavam revólveres. Após o assalto foi à delegacia fazer um boletim de ocorrência e o delegado disse saber quem eram. Pegou uma foto que foi tirada por câmeras de trânsito e, para espanto do assaltado, reconheceu os três no momento em que viu a foto. O delegado mencionou conhecê-los há muito tempo, tinham em torno de 12 e 13 anos e por serem menores não havia o que ser feito. O assaltado também relatou que nas duas horas em que ficou na delegacia chegaram mais pessoas que vitimas de assalto, na mesma condição que ele e pelos mesmos infratores.
Fiquei muito triste ao ouvir esse relato. Não só pelo medo da violência. Imaginei como esses meninos viverão muito pouco, se é que já não estão mortos. Em breve vão perder suas vidas e provavelmente também tirar a vida de outras pessoas, se é que já não tiraram. Esses meninos, como outros em condições similares, são negligenciados (não só por familiares, mas pela sociedade em geral). Não demonstram sentir medo. Não mostram possuir qualquer freio social. A lei moral para eles nada representa.
Essas leis não se constituíram, não se estabeleceram só para repreender, para tornar as pessoas engessadas ou submissas. Elas existem também para as bases de sustentação de qualquer ordem social e do constructo do indivíduo.
Não é só a espécie humana que têm essa organização. Os chimpanzés possuem normas de conduta, estrutura hierárquica social, assim como outros primatas superiores. Existe um sentido muito vivo nessa ordem.
Uma dessas leis que rege nossa sociedade é a preservação da vida, tanto a sua como a do outro. Se a maneira de reprimir a vontade de matar outro ser humano é através de religião, leis jurídicas, mandingas, ardência no fogo do inferno, pouco importa. O principal é uma existir uma "barreira", uma norma e uma conduta naquela sociedade. Se não for seguida a consequência acontecerá, seja ela qual for.
Além de manter a ordem essa norma contribui para o desenvolvimento psicossocial do indivíduo. Para segui-la a pessoa precisa desenvolver mecanismos internos para conter uma ação decorrente de uma emoção instantânea. Por exemplo: uma criança pequena, uns 7 ou 8 anos, reclama que não quer ir à escola, que aprender é chato, e os pais resolvem "respeitar" o desejo de seu filho e o liberaram de ir à escola. Nessa idade a criança não tem condições de fazer escolhas dessa natureza, que envolvem sua pertinência social e seu desenvolvimento individual. Essa criança não sabe projetar futuro, não tem vivência e nem maturidade emocional para fazer uma escolha que está diretamente ligada a sua sobrevivência física e emocional.
Toda pessoa, ao longo de seu desenvolvimento infantil, precisa de uma contenção externa, precisa de um condutor. Não conseguimos desenvolver contenção interna se no externo não tiver nada que me dê base.
Então, esses meninos, simplesmente não tiveram ninguém que fizesse esse papel de contenção externa, conheceram a marginalidade muito cedo e nela ficaram. Sentem-se potentes portando armas, e são mesmo, podem matar alguém. Mas, e se tirarmos isso deles, o que será que sobra? Essas crianças não desenvolveram mecanismos de defesa e pertencimento mais elaborados. Se desenvolveram de uma única maneira. Atacam para obter o que querem no momento em que querem. Não existe o outro, talvez até por eles não existirem para ninguém. Não precisam, elas têm armas e muito cedo se envolvem em situações de risco tanto para si como para o outro. Isso é muito triste. Nesses casos a gente nunca sabe onde começa uma coisa e termina outra. O quanto tem do social, do familiar. Senti certa tristeza por esses meninos, e pelas vidas que tiraram ou tirarão. Só mortes, eles mortos como pessoas, e em breve seus corpos também.
Já fui assaltada a mão armada em outra ocasião, foi assustador. Não quero passar por isso de novo. Mesmo assim, eu continuo me perguntando: será que esses meninos tiveram alguma chance de ser diferentes ou será que já nasceram pré-destinados pela combinação de fatores sócio, econômicos e familiares?
Fiquei muito triste ao ouvir esse relato. Não só pelo medo da violência. Imaginei como esses meninos viverão muito pouco, se é que já não estão mortos. Em breve vão perder suas vidas e provavelmente também tirar a vida de outras pessoas, se é que já não tiraram. Esses meninos, como outros em condições similares, são negligenciados (não só por familiares, mas pela sociedade em geral). Não demonstram sentir medo. Não mostram possuir qualquer freio social. A lei moral para eles nada representa.
Essas leis não se constituíram, não se estabeleceram só para repreender, para tornar as pessoas engessadas ou submissas. Elas existem também para as bases de sustentação de qualquer ordem social e do constructo do indivíduo.
Não é só a espécie humana que têm essa organização. Os chimpanzés possuem normas de conduta, estrutura hierárquica social, assim como outros primatas superiores. Existe um sentido muito vivo nessa ordem.
Uma dessas leis que rege nossa sociedade é a preservação da vida, tanto a sua como a do outro. Se a maneira de reprimir a vontade de matar outro ser humano é através de religião, leis jurídicas, mandingas, ardência no fogo do inferno, pouco importa. O principal é uma existir uma "barreira", uma norma e uma conduta naquela sociedade. Se não for seguida a consequência acontecerá, seja ela qual for.
Além de manter a ordem essa norma contribui para o desenvolvimento psicossocial do indivíduo. Para segui-la a pessoa precisa desenvolver mecanismos internos para conter uma ação decorrente de uma emoção instantânea. Por exemplo: uma criança pequena, uns 7 ou 8 anos, reclama que não quer ir à escola, que aprender é chato, e os pais resolvem "respeitar" o desejo de seu filho e o liberaram de ir à escola. Nessa idade a criança não tem condições de fazer escolhas dessa natureza, que envolvem sua pertinência social e seu desenvolvimento individual. Essa criança não sabe projetar futuro, não tem vivência e nem maturidade emocional para fazer uma escolha que está diretamente ligada a sua sobrevivência física e emocional.
Toda pessoa, ao longo de seu desenvolvimento infantil, precisa de uma contenção externa, precisa de um condutor. Não conseguimos desenvolver contenção interna se no externo não tiver nada que me dê base.
Então, esses meninos, simplesmente não tiveram ninguém que fizesse esse papel de contenção externa, conheceram a marginalidade muito cedo e nela ficaram. Sentem-se potentes portando armas, e são mesmo, podem matar alguém. Mas, e se tirarmos isso deles, o que será que sobra? Essas crianças não desenvolveram mecanismos de defesa e pertencimento mais elaborados. Se desenvolveram de uma única maneira. Atacam para obter o que querem no momento em que querem. Não existe o outro, talvez até por eles não existirem para ninguém. Não precisam, elas têm armas e muito cedo se envolvem em situações de risco tanto para si como para o outro. Isso é muito triste. Nesses casos a gente nunca sabe onde começa uma coisa e termina outra. O quanto tem do social, do familiar. Senti certa tristeza por esses meninos, e pelas vidas que tiraram ou tirarão. Só mortes, eles mortos como pessoas, e em breve seus corpos também.
Já fui assaltada a mão armada em outra ocasião, foi assustador. Não quero passar por isso de novo. Mesmo assim, eu continuo me perguntando: será que esses meninos tiveram alguma chance de ser diferentes ou será que já nasceram pré-destinados pela combinação de fatores sócio, econômicos e familiares?
domingo, 10 de julho de 2011
Mãe continente
Quando estava na faculdade tive aulas sobre a psicologia da gestação. Estava no primeiro ano, logo no começo do semestre, muita coisa era nova para mim, então eu mais absorvia do que refletia. Lembro-me bem de algo que me chamou muito a atenção, mais pela palavra em si e pelos significados que poderiam existir do que pelo fato em si. O conhecimento que me foi transmitido é que via de regra a mulher que engravida sabe disso inconscientemente e é comum sonhar com objetos continentes, bolsas, casas, caixas, etc.... Não vou afirmar ou contradizer, não é esse o meu objetivo. O que quero é chamar a atenção para a palavra: continente. Essa palavra, o que ela poderia significar ficou anos ecoando no meu universo reflexivo e só há pouco tempo pude compreender o que para mim tanto chamou a atenção. Lembro que eu ficava repetindo: "objetos continentes, que contém, a gestante tem dentro de si um ser em desenvolvimento e ela simboliza isso através de objetos continentes". . . . só que sempre parecia que faltava algo. Sempre me perguntava: "esses objetos podem conter coisas, mas quais são essas coisas que eles podem conter? Se formos pensar em uma bolsa de mulher, muita coisa dá para caber, dependendo do tamanho e da vida que esta mulher leva. Lembro-me que quando engravidei prestei atenção a meus sonhos, e não foram com objetos continentes e sim com muita água. Sonhei com abundância de água. E lógico, fiquei com mais pontos de interrogação. E além de ficar sempre pensando o que poderia conter nesses objetos também lembrava dos continentes que aprendi em geografia. Uma porção muito grande de terra cercada de água por seus lados. Abre parênteses: Até hoje não vejo onde Europa e Ásia são separados, mas isso é outra história - fecha parênteses. Minhas filhas nasceram, tão diferentes, duas, eu não sabia se conseguiria ser uma mãe suficientemente boa. Lembro bem da amamentação. Gostava de amamentar cada uma de uma vez. Era mais trabalhoso, demandava mais tempo, eu descansava menos, mas me sentia melhor. Gostava de ficar olhando. Lembro-me de muitas coisas, mas particularmente de Estrela, que sempre foi muito voraz e via o movimento na garganta, eu achava tão interessante. Sentia-me bem em observar. Só que tal momento costumava ser interrompido porque a irmã da que estava no peito tinha acordado e reclamava também sua porção de leite. E eu, ficava angustiada. Torcia para que, quem estivesse no peito logo se saciasse, para que eu pudesse atender as necessidades da outra. Dar os peitos simultaneamente seria um solução para a angústia, mas mesmo sabendo disso eu mantinha a rotina de uma por vez. Tentava administrar. Só, em raras ocasiões, dei os peitos simultâneamente, não gostava. Eu vaca leiteira, elas bezerrinhas. Se alguma perdesse o bico eu tinha que chamar alguém para ajudá-la. "Ei, fulano, ajuda aqui, fulana perdeu o bico. . . isso . . . ajeitou . . . obrigada". "Ei fulano, ajuda aqui, fulana já acabou, pega e faz arrotar enquanto termino aqui." Linha de produção era a sensação que eu tinha, definitivamente não gostava. Eu não conseguia explicar ou mesmo entender os motivos de tanta resistência. Hoje, depois de muitos anos, de muitas coisas, compreendi. O bebezinho veio ao mundo, saiu de um lugar que parecia só dele, quase sempre com a mesma temperatura, com os mesmos barulhos, com sua comida disponível no horário que quisesse, para um lugar diferente. O bebezinho, logo que nasce, precisa sentir segurança, conforto, calor. Precisa ficar em uma relação parcialmente simbiótica, com momentos simbióticos, cujo sentido só é compreendido pelo bebezinho e sua mãe ou cuidador. Então o dar de mamar ou mesmo a mamadeira, o cuidar do bebê, trocar sua fralda, dar um banho é uma experiência única que acontece entre o bebezinho e seu cuidador. É como se naquele momento nada mais houvesse e o continente é formado apenas pelo cuidador e o bebê. Ser continente é aquele que separou dentro de si um espaço de bom tamanho para caber aquele outro (podemos estender para nossas relações com marido, irmãos e amigos). É abrir espaço, um lugar para o outro dentro do espaço que já construímos para nós mesmos. Por isso que, por vezes, mesmo angustiada que minha outra filha poderia acordar com fome e eu não a atenderia prontamente, eu me sentia bem, estava sendo continente com uma e depois seria com a outra. Cada uma tinha o seu espaço nessa relação.
domingo, 3 de julho de 2011
Curtas: Coisas de mulher
sábado, 2 de julho de 2011
Nossas origens
Hoje pela manhã li uma reportagem no caderno ciência sobre uma equipe de pesquisadores da UNB que está utilizando o Google Earth para fazer um "transporte" do hoje para nossa época Brasil Colônia. Inclusive o projeto já está disponibilizando seus primeiros mapeamentos, suas primeiras idéias. Vale a penas dar uma visitadinha - atlas.cliomatica.com. A reportagem coloca: "a idéia dos pesquisadores é sobrepor os mapas do Brasil-Colônia às imagens de satélite atuais, empregando também recursos interativos. Em vários casos vai ser possível ver como o povomaneto avançou e mapear com precisão os ciclos regionais de prosperidade (e bancarrota) durante a era colonial." Sempre gosto muito de projetos e descobertas que estão relacionados a nossas origens, a nossa construção histórica, cultural e evolutiva. Inclusive a busca de nossas origens parece ser intrínseca ao ser humano. Há ainda muito "mistério" sobre nós. A começar sobre nossos sentimentos. Nos últimos anos intensificou-se muito a busca por respostas neuronais pela causa dos nossos sentimentos ou motivação de nossas escolhas. A neurologia e a neuropsicologia têm realizado inúmeras pesquisas através de mapeamentos cerebrais buscando respostas para nossas atitudes. O que conseguem mostrar é qual região do cérebro fica mais ativa em determinadas situações, porém nenhuma delas é conclusiva sobre o porque, a origem. Fico imaginando a frustração desses pesquisadores, buscando respostas, só que junto a elas surgem mais perguntas. Meu marido é astrônomo, e nosso binômio parece tão bizarro, a princípio. Uma psicóloga e um astrônomo, como assim? Só que temos mais em comum do que aparentemente se pode achar. Ambos buscamos origens. Ele em sua pesquisa busca descobrir o nascimento e morte de estrelas de alta massa. Fiquei outro dia sabendo, através de um colega dele, que essas estrelas que ele busca conhecer são escondidas por nuvens de poeira, ou seja, mais difíceis de se acessar, mais "escondidas". Eu busco junto com meus pacientes a compreensão das origens de suas dificuldades, de seus conflitos, busco a reconstrução e resignificação de sua história através das origens, do seu encoberto com as nuvens de poeira da vida dos acontecimentos e dos sentimentos. Então, eu e meu marido, muito temos em comum, somos envolvidos com as origens. Ele no plano astronômico, um macro universo, e eu no plano individual no micro universo pessoal. E essa busca não é só nossa, a história está repleta de simples pessoas que realizaram grandes descobertas sobre origens. São tantas as profissões: arqueólogos, biólogos, químicos, astrônomos, físicos, antropólogos, historiadores, cartógrafos, etc. Por falar em cartógrafos o projeto da UNB me fez lembrar o quanto eu sempre admirei os cartógrafos antigos. Não existiam satélites, não existiam máquinas fotográficas. Seu material era: papel, pena, algum instrumento de medição e observação. Não tinham super visão como águias, viam ao alcance máximo que nossa visão permite ou com alguma lente, mas longe de ser essas super lentes de telecóspio. E no entanto fizeram mapas tão precisos. Estudamos geografia na escola, aprendemos sobre os continentes que foram mapeados muito antes de tantos recursos tecnológicos. Uma vez vi um filme sobre a busca da nascente do Rio Nilo, quanto sofrimento para chegar até lá. Uma história de coragem e sofrimento. E por que? A busca de uma origem, a busca de um grande feito relacionado a origem, a nascente do Rio Nilo. Por que? Quem em sua adolescência não ficava perguntando. De onde viemos, para onde vamos, por que eu nasci, estamos aqui ou somos uma projeção? E os pais ficam em pânico com tais perguntas, pois além de não terem as respostas eles, talvez, ainda tenham essas perguntas ecoando dentro de si. Alguns com elas gritando, e outros talvez uma pequenas brasa. A questão relacionada a nossas origens está presente o tempo todo conosco e com nossa evolução. Essa questão nos movimenta, nos faz continuar a buscar. Por isso espero que essa resposta nunca seja totalmente respondida. Tenho a sensação de que quando isso acontecer o sentido de continuarmos buscando, simplesmente, findará. E a partir desse momento a vida vai perder sentido. Precisamos aprender a conviver com a não resposta e continuar mesmo assim nossa busca pela resposta. Nossas origens são nosso principal sentido e nos afastaramos delas é um afastamento de nosso próprio sentido.
sábado, 25 de junho de 2011
O previsível e o imprevisível
terça-feira, 21 de junho de 2011
Curtas: O amor está no ar
Minha filha Feliz (7 anos) está mais feliz ainda. Descobriu-se enamorada de um Dom Juan (também com 7 anos) que corajosamente colocou em baixo de sua carteira na escola um bilhete: "eu te amo". Além de tal declaração esse jovem rapaz não deu-se por satisfeito e pedagogicamente pediu uma confirmação da reciprocidade: "se você me ama ponha um X no quadradinho". Feliz ficou tão radiante que pegou um papel toalha no banheiro e escreveu um bilhete: "te amo". Entregou-o ao rapazinho que, ligeiramente escreveu em baixo das palavras da amada: "eu também". Isso tudo em uma única manhã. Além de tal troca afetiva dos enamorados, Feliz compartilhou com duas colegas o recebimento do carinho. Recebeu conselho de uma delas que seria uma fria e a outra tratou de espalhar para todos da sala que estava havendo um romance. E mais, espalhou-se para todos os segundos anos, inclusive sua irmã Estrela ficou sabendo. Mesmo assim, com sua intimidade espalhada, Feliz disse-me: "mãe, eu não consigo tirar esse sorrizinho da minha cara". À noite esmerou-se para escrever um bilhete para o amado: "você quer conversar comigo no pátio?" Também me fez diversas perguntas sobre como é o amor, o que é o amor, o assunto começou a ficar complexo, mas mesmo assim tão desinteressado de enfeites, eram apenas correspondências, fiquei observando. Feliz, ao me relatar tão singelos acontecimentos, não deixava de colocar que seu Dom Juan também era diferente. No passado ela teve dificuldades com o ambiente social da escola (era outra) e agora algumas delas ainda persistem. Muitas vezes ela se interessa por coisas que outras crianças não, e não gosta de fazer parte de "panelinhas". Ela é na dela, inclusive é uma menina que não liga muito para a opinião dos outros, gosta do seu jeito e quando questionada diz gostar de si mesmo. Então, Feliz, com seu jeito peculiar de ser, em nenhum momento planejou algo ou fez algo intencionalmente para conquistar seu admirador. Sem esperar, recebe uma declaração explícita: "gosto de você do jeito que você é". Ela está radiante, com muito motivo, quem não quer isso para si? A começar pela auto-estima. Nos tempos atuais, gestos naturais de aceitação de como somos estão escassos. Temos protocolos para tudo e o politicamente correto muitas vezes mascara o que é na realidade. Hoje entoamos discursos de liberdade de ser, mas . . . . .isso acontece de fato? Temos liberdade de sermos diferentes do que esperam de nós e continuarmos a contribuir em nossa coletividade? Acredito que temos vivido muito para fora e pouco para dentro. Mostramos o que temos e o que sabemos fazer, mas pouco do que pensamos ou sentimos. É muito fácil acabar caindo naquele vazio do, quando se tem muito a perder porque não se tem nada. Só que enquanto isso, vou ter que pensar, refletir como mãe, observar a evolução dos acontecimentos e ao mesmo tempo admirar tal singela manifestação de carinho. Por isso coloco para os meus leitores o link do música "Love is in the air", para aproveitarmos esse momento em que o amor está no ar.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Curtas: Tempos modernos informatizados
Hoje fui ao Poupa Tempo renovar minha habilitação. Fiz todo o processo em uma hora e saí de lá esvaziada. O Poupa Tempo se aproximou muito do filme "Tempos Modernos" do Charlie Chaplin. O personagem fica apertando os parafusos em um movimento contínuo, sem mais perceber o que estava fazendo, não parava. Essa sistemática ritmada e sequencial foi desenvolvida por teorias da administração para que a produção fosse com o menor número de movimentos e com a melhor otimização do tempo. A teoria chamava-se (não sei se é assim ainda) tempos e movimentos. Bem, o Poupa Tempo implantou algo parecido para os procedimentos dos documentos. Em cada guichê para o qual se é encaminhado o atendente tem uma única tarefa a cumprir. Primeiro a checagem da documentação, depois o guichê que emite a guia, na sequência tirar a foto e digitais, pagar no banco, pegar a senha do exame médico, fazer o exame e voltar no guichê para pegar o protocolo. Os atendentes simplesmente executam, nada além disso. O guichê no qual eu mais demorei foi o da foto e das digitais. Como foram dos 10 dedos é demorado mesmo. Tive, então, oportunidade de observar a atendente. Sua fisionomia era de tédio, ela olhava para o computador, esperando carregar a digital para falar: "agora o outro dedo" e isso se repetiu por 10 vezes. Multipliquemos isso por, sei lá, uma média de 50 pessoas por dia (acho que é muito mais) e ela fala isso 500 vezes por dia e por semana 2.500 vezes. Na semana seguinte a contagem se repete: "agora o outro dedo" ou variações do tipo "novamente". Fiquei imaginando se um filho ou o marido, a mãe ou sei lá quem pergunta como foi o dia, o que aconteceu no trabalho, o que será que ela responde? Será que ela consegue sentir algo em relação a sua rotina? Não temos mais aqueles operários como no filme, mas a era da informática e das normatizações ajudam a manter a mesma mecanização. O que mudou? Agora estamos no século XXI. Indivíduos com pouco ou nenhum espaço para criar, para ter algo de si na tarefa, execuções totalmente mecanizadas. Inclusive, esse Poupa Tempo é enorme, cheio de gente. Tive uma sensação de estar em um curral bem grande, com aparente liberdade para pastar, mas . . . cada coisa em seu lugar. Lá dentro estávamos todos mortos como indivíduos. A diferença entre mim e os atendentes é que saí de lá e fui fazer outras coisas que me trouxeram vida. . . . . eles tem que viver essa morte todos os dias. Cruel.
domingo, 19 de junho de 2011
House, um deus grego?
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Q.I. - Quoeficiente de Inteligência, uma bobagem
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Furor Curandis
Há algum tempo eu ouvi de uma analista, de quem gosto muito que Freud já nos alertava sobre o furor curandis, a excessiva necessidade do analista curar seu paciente de seus sintomas sem dar ouvidos ao que ele quer. Muitas vezes esse é o desejo do analista, eliminar os sintomas, mas será que é também do paciente? Ontem, em um encontro psi falamos bastante sobre isso, não só no âmbito de nossos pacientes como também da relação cotidiana com as pessoas. Primeiro vou estabelecer o setting psicológico para a partir disso chegar ao cotidiano. Aos que não apreciam muito essa tragetória sugiro que pulem essa parte, e aos que não se incomodam ... vamos lá. Uma colega uma vez atendeu uma paciente com sintomas depressivos, traços obsessivos, com uma história de vida recheada de muito sofrimento, desde a mais tenra infância. O sofrimento de sua história transbordava na mesma medida dos sintomas que desenvolveu, principalmente os obsessivos. Ao mesmo tempo que relatava fatos de imenso sofrimento, pouco contato fazia com eles, se fixava muito no dia a dia, em como as coisas deveriam ser e o quanto ela não conseguia modificá-las para o que achava certo. Vivia muito sob a espada do certo e errado. Isso trazia sofrimento, sem dúvida, mas nem se comparava ao sofrimento que ela conteve durante tantos anos através dos mecanismos obsessivos. Os traços obsessivos a ajudaram a desenvolver-se e construir algo ao seu redor. Isso não quer dizer que as pessoas à sua volta não foram afetadas por seus sintomas, é claro que sim. Mas também foram construídos solos férteis, com áreas inférteis, e lugar para crescimento onde outras coisas puderam surgir. O que minha colega fez não foi escancarar para a paciente que seus sintomas depressivos e seus traços obsessessivos eram doença e por isso precisavam ser curados. Ela a ouviu, tentou entender o ela queria, muitas vezes nem o paciente tem essa clareza, e a ajudou, andou junto na trajetória, no caminho que a paciente estabeleceu. Nesse caso, a paciente queria sofrer menos no dia a dia. Seus traços obsessivos se mantiveram, menos intensos, seus surtos de fúria findaram. Hoje ela sofre menos até porque seus sintomas perderam intensidade, mas, de outra forma se mantém já que foram desenvolvidos, por ela, para lidar com vida. Sua história sofrida continua lá, não quer mexer, dói demais. Ela hoje está bem, à sua maneira. De acordo com o senso comum, não, mas de acordo com ela, sim. É uma história muito bonita, a natureza humana foi preservada.
Farei agora o transporte dessa experiência analítica para o cotidiano e nossas relações pessoais. Trabalhamos em empresas, vivemos em sociedade, o coletivo faz parte de nossa natureza (deveríamos saber lidar com ele) mas o tempo todo buscamos transformar o que está a nossa volta de acordo com o nosso desejo. É difícil aceitar a natureza daquilo que é. Um clássico exemplo é o ambiente corporativo. Uma empresa tem uma filosofia própria, um jeito próprio para lidar com seus processos fabris, comerciais, administrativos e com os que nela trabalham. Só que o que mais acontece dentro desses ambientes é as pessoas tentando mudar o modo de funcionamento da empresa para como acha que é melhor. Tentam mudar os colegas de trabalho na busca ilusão que o ambiente adapte-se ao seu jeito, e não o contrário, adpatar-se ao ambiente. É um esforço inútil, e tal como o analista que teima que o paciente tem que fazer o que ele acha, o indivíduo também tenta isso no seu dia a dia. O ser humano tem em sua natureza primária uma pré-potência intensa, um egoscentrismo primário, afinal, nascemos tão desampardos, se o outro não cuidar de nós morremos. Entrar em contato com isso é muito assustador. Porém à medida que nos desenvolvemos, que vamos tendo mais autonomia, essa pré-potência diminui para dar espaço para a natureza do coletivo. Fazia parte da sobrevivência não estacionar no modelo egocêntrico, precisávamos nos tornar seres coletivos, o bando precisava e nós e nós do bando. Só assim continuaríamos sendo parte de um bando e sobreviveríamos. Só que a sociedade de hoje não nos proporciona, não nos solicita mais (ilusoriamente) que nos tornemos seres coletivos e com isso corremos o risco de estacionarmos no modelo pré-potente e egocêntrico de nossa natureza. Hoje as famílias não reforçam mais a necessidade do quid pro quo, quando os filhos já desenvolveram certa autonomia. Não estabelecem esse limite: fiz e continuarei a fazer a minha parte, agora chegou a hora de você começar a fazer a sua. Não é abandonar, nem deixar de se preocupar, é muito mais que isso, é deixar crescer e desenvolver-se de acordo com a sua natureza. Como é gostoso aquele bebezinho, aquele serzinho que depende nós. Nos sentimos tão potentes, tão importantes e assim nos distanciamos de como somos impotentes e talvez menos importantes do que nosso egocentrismo gostaria. Tal qual o analista que só se vê bom quando retira o sintoma do paciente, o indívduo só se sente potente quando muda o ambiente. Será que nossa potência tem sempre que estar ancorada em grandes feitos? Será que nossa potência não é, todos os dias, nos relacionarmos com o outro conciliando como somos e como o outro é? Vale pensar.
Farei agora o transporte dessa experiência analítica para o cotidiano e nossas relações pessoais. Trabalhamos em empresas, vivemos em sociedade, o coletivo faz parte de nossa natureza (deveríamos saber lidar com ele) mas o tempo todo buscamos transformar o que está a nossa volta de acordo com o nosso desejo. É difícil aceitar a natureza daquilo que é. Um clássico exemplo é o ambiente corporativo. Uma empresa tem uma filosofia própria, um jeito próprio para lidar com seus processos fabris, comerciais, administrativos e com os que nela trabalham. Só que o que mais acontece dentro desses ambientes é as pessoas tentando mudar o modo de funcionamento da empresa para como acha que é melhor. Tentam mudar os colegas de trabalho na busca ilusão que o ambiente adapte-se ao seu jeito, e não o contrário, adpatar-se ao ambiente. É um esforço inútil, e tal como o analista que teima que o paciente tem que fazer o que ele acha, o indivíduo também tenta isso no seu dia a dia. O ser humano tem em sua natureza primária uma pré-potência intensa, um egoscentrismo primário, afinal, nascemos tão desampardos, se o outro não cuidar de nós morremos. Entrar em contato com isso é muito assustador. Porém à medida que nos desenvolvemos, que vamos tendo mais autonomia, essa pré-potência diminui para dar espaço para a natureza do coletivo. Fazia parte da sobrevivência não estacionar no modelo egocêntrico, precisávamos nos tornar seres coletivos, o bando precisava e nós e nós do bando. Só assim continuaríamos sendo parte de um bando e sobreviveríamos. Só que a sociedade de hoje não nos proporciona, não nos solicita mais (ilusoriamente) que nos tornemos seres coletivos e com isso corremos o risco de estacionarmos no modelo pré-potente e egocêntrico de nossa natureza. Hoje as famílias não reforçam mais a necessidade do quid pro quo, quando os filhos já desenvolveram certa autonomia. Não estabelecem esse limite: fiz e continuarei a fazer a minha parte, agora chegou a hora de você começar a fazer a sua. Não é abandonar, nem deixar de se preocupar, é muito mais que isso, é deixar crescer e desenvolver-se de acordo com a sua natureza. Como é gostoso aquele bebezinho, aquele serzinho que depende nós. Nos sentimos tão potentes, tão importantes e assim nos distanciamos de como somos impotentes e talvez menos importantes do que nosso egocentrismo gostaria. Tal qual o analista que só se vê bom quando retira o sintoma do paciente, o indívduo só se sente potente quando muda o ambiente. Será que nossa potência tem sempre que estar ancorada em grandes feitos? Será que nossa potência não é, todos os dias, nos relacionarmos com o outro conciliando como somos e como o outro é? Vale pensar.
terça-feira, 7 de junho de 2011
Curtas: curiosidades do frio
Sempre gostei muito do outono, do inverno, do frio. Não por passar frio, mas porque via poesia nessas estações. O outono chegando, o céu escurecendo, as folhas caindo, davam sensação de troca, de tempo para aquietar, para que quando as estações mais brilhantes chegassem emergisse o que ficou hibernando. O inverno, para mim, sempre despertou fantasias de introspecção, o chocolate quente em baixo dos edredons. . . . .e mais um monte de significados subjetivos. Hoje, minha visão do frio está bem diferente, bem mais objetiva, e mudou já há alguns anos. Desde que tive minhas filhas o frio passou a ser ameaçador e também trabalhoso para lidar com ele no dia a dia. Ameaçador porque minhas pequenininhas, como todos os bebezinhos, não falavam e muito menos sabiam reconhecer e nomear as sensação que sentiam. Sabiam resmungar e chorar para avisar que algo não ia bem. Nos dias frios, principalmente durante a noite quando a temperatura caía, me preocupava se elas estavam suficientemente agasalhadas e protegidas. Detalhe: como todos os bebezinhos e crianças pequenas, durante a noite elas se descobriam. Instintivamente passei a acordar de duas a três vezes durante a noite para ver se estavam cobertas, e raramente estavam. Meu sono era totalmente recortado. Elas iam para o berçário e ficavam o dia todo, portanto, a mochila era tipo mala de viagem para uma semana. Hoje maiorzinhas, já se cobrem e sabem diferenciar as sensações, sabem me dizer se estão com frio ou calor. Agora já durmo a noite toda, mas como é recente essa nova fase, ainda na minha memória está muito presente aquele levantar constante. Passei a não apreciar a vinda das estações frias por causa da preocupação em relação à saúde das minhas filhas. Por isso toda aquela poesia e encanto que eu via no frio foi por água abaixo. Ou seja, o meu instinto deu um "bico" nas minhas fantasias de instrospecção e colocou no lugar a sobrevivência, o afetivo de mãe. Interessante esse processo, como nos modificamos. Como mesmas coisas podem ter significados tão diferentes ao longo de nossa vida. É óbvio? Sim. Mas acho que pouco paramos para refletir sobre esses significados, no que mudaram e seus porques. Confesso sentir certo saudosismo da minha visão romântica do inverno, mas o sentido agora é outro, nesse momento, não cabe mais. Talvez por isso me pergunte tanto: por que os esquimós se fixaram no pólo norte?segunda-feira, 6 de junho de 2011
Medicina sexista?
domingo, 5 de junho de 2011
Curtas: Woody Allen
Recentemente li uma notícia sobre o próximo filme do Woody Allen, "Meia noite em Paris". O que me chamou bastante atenção foi a declaração do cineasta que transcreverei na íntegra, porque espelha muito de sua personalidade e mostra, no caso dele, o processo criativo que normalmente os geniais tentam colocar sob uma "aura" de obscuridade. Woody Allen disse: "Eu não sabia o que ia escrever. Sabia que ia fazer um filme em Paris. Pensei em um título que adorei - 'Meia-noite em Paris', que sugeria muito romance -, mas não sabia o que iria acontecer à meia-noite em Paris. Passaram meses e eu não pensava em nada [da história]. E então me ocorreu que, um dia, alguém estaria andando nas ruas, um carro aparece, alguém de dentro grita 'entre' e o leva para um lugar diferente. Tive sorte que desta vez pensei em algo. Mas poderia não ter pensando em nada - e ter de mudar o título para outra coisa." Woody Allen é assim, em seus filmes ele retrata o cotidiano, o simples, que não são tão simples e que fazem parte. No cotidiano não há relações sem conflitos e confusões, existem zilhões de perguntas sem respostas, e muitas dúvidas sobre o desenrolar dos acontecimentos e de nossas escolhas. Sua declaração mostra isso, escolheu um título e nem sabia como seria o conteúdo. O início de um processo criativo não nessariamente é algo com raízes obscuras, em que o autor mergulhou em pesquisas ou em si mesmo e a partir de então a "grande obra" surgiu. Para Woody Allen o processo criativo também é algo corriqueiro e espontâneo. Gostou de um título....... um dia algo surgiu que cabia, que bom. Simples. Seus filmes são assim. Falam das pessoas, suas dúvidas, suas dificuldades, de maneira tragicômica (a vida é assim) e bem realista (no sentido de espelhar o processo que ocorre na realidade). Seus filmes espelham uma realidade das relações mais desnudada, rotineira, e não é por isso que são monótonos. Pelo contrário, trazem alívio, nos vemos como "normais", porque consciente ou inconscientemente nos identificamos com seus personagens confusos. Ele tem essa capacidade, seus personagens são sempre cheios de conflitos, têm dificuldades de tomar decisões, aprisionados em situações que não querem mais e não que conseguem se desvenciliar. Woody Allen tem a genialidade cotidiana. Nos deixa confortáveis em nos sentirmos como seus persongens, deixa de lado o conceito moral de certo e errado e mostra a aparente simplicidade e complexidade dos conflitos humanos. Dia desses vi já começado um filme seu no qual o personagem principal era um escritor que buscava seu espaço e que tinha muita dificuldade em colocar para o outro o seu desejo, sempre abria mão de si mesmo. Uma das situações era com seu analista, que já há dois anos frequentava e nunca tinha ouvido uma palavra dele enquanto deitado no divã divagava sobre sua vida. Já no fim do filme, esse escritor conseguiu finalmente tomar decisões por si próprio e mudar várias coisas em sua vida e pergunta ao analista: "o que você acha disso"?. O analita devolve a pergunta: "o que você acha disso?". Identifiquei-me na hora, tanto como analista como analisanda, acontece comigo frequentemente tanto de um lado como de outro. A cena foi tão isenta de enfeites, de brocados, é assim que acontece mesmo, é a vida como ela é. Woody Allen tem essa habilidade especial. Nos mostra o cotidiano, os nossos conflitos de maneira tão natural que por fim nos sentimos tão bem ao assistir seus filmes. Nos sentimos nós e isso faz muito bem.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Curtas: Arrumações
As arrumações, não diárias, têm sempre algum significado além o da organização. Sabe aquele dia que a gente acorda e resolve fazer "aquela" limpa no guarda-roupa e depois de tudo acabado parece que a alma também foi arrumada. Essa "arrumação" subjetiva tem sensação de novidade, de mudança, de um abrir espaço para coisas novas. Normalmente, nessas arrumações, pode acontecer de encontrarmos coisas que durante muito tempo foram tão queridas, tão usadas, mas que de uns tempos para cá perderam aquele significado especial (quando novos hábitos substituem os velhos). Não podemos esquecer também daquelas que foram adquiridas por algum motivo, que acreditávamos muito querer, mas que praticamente nunca foram usadas. Para cada um há vários significados que podem vir junto a esse "corriqueiro movimento" de arrumar. Lembro que recentemente uma das minhas filhas (7 anos), pela milhionésima vez, queixava-se de uma amizade, do quanto não se sentia reconhecida, que sentia-se magoada com algumas atitudes, etc, etc, etc, e eu dirigindo na Rodovia Dutra. Em um determinado momento me cansei de tanta ladainha e resolvi dar um basta usando uma metáfora. Meu objetivo era que ela não entendesse bem sobre o que eu estava falando e mudasse de assunto. Falei enfaticamente, olhando a estrada e o retrovisor: "troca de sapato, esse não te serve mais, seu pé já está diferente, esse brilho um dia foi bonito, mas agora não é mais. Troca de sapato porque este não se serve mais". Silêncio. Pensei: "funcionou". Daqui a pouco ouço: "Você está falando sobre as amigas, não é?" Não acreditei na hora o quanto ela compreendeu e agora quando falo em sapatos elas já dizem: "chega dessa história de trocar de sapatos", uma porque não gosta de mudanças e a outra porque tem dificuldade de abandonar algo que antes brilhava e que agora não brilha mais. Todos temos nosso motivos para as arrumações. É bom fazer isso de vez em quando, dá uma sensação de leveza e revigora nossa energia. Como está seu armário? Precisando de arrumação? A minha arrumação fiz recentemente, por etapas, não dava para fazer tudo de uma vez. Agora está tudo parecendo tão no lugar e quero que fique assim, assentada, por um tempo. Muitas vezes se tem muita coisa acumulada, dá muito trabalho, só que o resultado pode surpreender.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Quando novos hábitos substituem os velhos
Lembro-me muito bem que anos atrás, em um processo seletivo, a selecionadora me pediu para que fizesse uma redação sobre mim (tema manjadíssimo em processos seletivos), só que no computador. Não esqueço a abordagem que fiz. Elaborei uma redação na qual defendia o quão não natural eu achava escrever sobre mim no computador. Tal ferramenta me permitia que eu corrigisse com frequência o que tinha escrito, e no papel, mesmo se houvesse rascunho, dificilmente poderia modificar muito do original. Coloquei também que sentia certa artificialidade nas palavras, porque quando usava a caneta, o lápis e o papel eu sentia que as palavras no papel eram extensão de mim. Vinham da minha mente, da minha alma e se materializavam através da escrita. Um processo totalmente meu, sem um intermediário, nesse caso o teclado (a selecionadora não me achou delirante, talvez esquisita). Mas não é isso que interessa, mas sim, refletir sobre esse processo de substituição dos velhos hábitos por novos, e como esse processo demanda tempo.
Evolucionistas colocam que o ser humano no geral é resistente a mudanças porque, nos primórdios, algo novo poderia significar a extinção daquele bando. Era necessário antecipar os acontecimentos. Claro que isso faz parte, porém gostaria de "olhar" sob outro prisma. Quando uma empresa resolve mudar toda uma postura de recursos humanos, comercial ou de sua cultura dominante, não dá para querer que no dia seguinte todos os colaboradores e fornecedores vejam sentido nessa nova maneira de ser. Os gestores dessa empresa, com certeza, não planejaram e implantaram tais mudanças em dias, provavelmente por anos foram tomando forma. Os gestores tiveram oportunidade e tempo de expiar seus velhos hábitos, entendê-los e dar sentido aos novos. Só que isso acontecia a portas fechadas, era exclusivo, para poucos. Que direito, então, esses gestores têm de exigir que em um curto espaço de tempo os colaboradores e fornecedores tenham que aceitar sem resistências essas mudanças? Nenhum. Mas, infelizmente, no mundo corporativo não é assim que funciona. Os tais "resistentes" são substituídos. Lógico que existem resistentes patológicos, mas não é sobre eles a quem estou me referindo. Eu sempre tive meu textos, minhas idéias, minhas dúvidas em cadernos, desde minha juventude.
Tenho-os guardados comigo até hoje e trazem muito da minha história. Mas, de uns tempos para cá, aos poucos, essa artificialidade que eu acreditava existir, em escrever meus pensamentos com a tecnologia, começou a não me incomodar mais. Prova disso é o cotidiano reflexivo. A escrita sempre fez parte do meu subjetivo, sempre organizei meus pensamentos em cadernos, folhas e nunca no computador. Sentia que minha espontaneidade, minha naturalidade seria aniquilada se fosse diferente. Inclusive na faculdade alguns dos trabalhos que precisavam ser feitos eu antes fazia no papel para depois transcrever no computador. Em paralelo o mundo corporativo exigia que eu lidasse com a tecnologia também no meu processo criativo. Comecei a expor-me profissionalmente através da tecnologia, mas continuei mantendo o processo criativo pessoal com a escrita manual. Só que aos poucos fui me dando conta que o processo criativo próprio não iria perder seu sentido se eu usasse o teclado. Continuaria sendo uma extensão do meu eu. Finalmente o uso da tecnologia fez sentido, mas esse processo demorou um tempo.
Que venham as mudanças. Substituir velhos hábitos é muito bem vindo, sempre crescemos e aprendemos coisas novas, mas é necessário ter um tempo, um tempo próprio. Sempre que precisamos jogar fora algo nosso ou aposentá-lo, o que virá para substituir, precisa ter sentido. Muitas vezes o difícil é isso. . . . . dar sentido ao novo.
Que venham as mudanças. Substituir velhos hábitos é muito bem vindo, sempre crescemos e aprendemos coisas novas, mas é necessário ter um tempo, um tempo próprio. Sempre que precisamos jogar fora algo nosso ou aposentá-lo, o que virá para substituir, precisa ter sentido. Muitas vezes o difícil é isso. . . . . dar sentido ao novo.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Ainda somos um Brasil colônia
Quando fomos um povo que lutou junto para um bem coletivo? Qual é nossa identidade como nação? Até hoje deixamos que outros países do mundo venham aqui, tirem nossas riquezas, nossas identidades e continuamos imóveis.
A música do Chico Buarque, Geni e o Zepelim, fala claramente sobre a posição que o Brasil se coloca em relação aos outros. Daqui retiram tudo. Por mais resistente que eu seja em valorizar a cultura americana não posso deixar de admitir que eles tem uma identidade muito bem estabelecida. A Inglaterra idem. A monarquia está lá mantendo algo ligado às raízes daquele país, nós concordando ou não. E tantas outras noções também.
Nós sequer valorizamos a cultura de outros estados brasileiros. Os paulistas (sou um deles) enchem o peito para dizer que são a potência financeira do país . . . . só que funcionam como o modelo econômico americano. Produção, produção, dinheiro e dinheiro. Os mineiros já tem seu jeito próprio de ser, são valorizados, por quem? E os baianos? O que dizemos deles? Aí vem algum político dizer que o Brasil tem uma enorme riqueza cultural. . . . . . que nosso valor está nisso, que no mundo não tem país semelhante . . . . . e? Somos unidos como nação? Eu tiro o chapéu para o Rio Grande do Sul. Sofrem críticas o tempo todo que são bairristas, mas se formos analisar friamente eles mantém muitas tradições vivas até hoje, é um povo unido. Na Argentina recentemente (vários anos) o povo foi às ruas em um panelaço..... diferentes pessoas se manifestaram. Aqui entregamos aos jovens a tarefa de sair às ruas para mostrar uma postura opositora. Lembram-se do impeachment do Collor, foram os estudantes cara pintada. É óbvio aquele fim já estava programado, o Collor fez algo que mexeu com muita gente. Não foi o movimento dos cara pintada, mais uma vez. . . . . massa de manobra. Acho que o único movimento popular autêntico, no Brasil, que eu presenciei foram As Diretas Já.... esse sim partiu de um povo já cansado de ficar calado de ser oprimido (Cálice - Chico Buarque). Depois disso, não lembro de outros movimentos sociais que nos tiraram de nosso modus operandi colônia vampirizada. Incluo-me nessa, nem sei por onde começar.
sábado, 21 de maio de 2011
Quando se tem muito a perder porque não se tem nada
Não são somente as crianças que são invadidas por produtos e engenhocas que garantem prazer instantâneo (veja texto o consumudo x nâo para os filhos). Os adultos também sofrem do mesmo mal e diferente das crianças, muitas vezes ficam aprisionados nesse ciclo de consumo, status e prazer imediato. Preenchem o vazio com coisas.
Tenho uma amiga cujo principal objetivo profissional era conquistar uma gerência na empresa que estava ou em outra. Para ela a satisfação de tal conquista era o principal juntamente com a recompensa financeira que viria. Acreditava que ter um carro melhor, poder viajar muito, morar em um lugar maior lhe traria felicidade absoluta. Hoje ela está questionando tudo isso, está com um cargo de gerência em uma multinacional, trabalha sob muita pressão e percebeu que é a marionete dos diretores, assim como todos os gerentes. Via de regra os profissionais de alto escalão - gerentes, diretores, superintendentes e presidentes têm muito a perder. Seus salários são elevados, os benefícios também e seu padrão de vida tem alto custo. Possuem apartamentos enormes cuja manutenção é alta, carros que andam e falam por conta própria, viagens ao exterior, jantares em lugares caros e da moda, roupas de grife, etc. Tudo isso tem um preço, financeiro e emocional e que em determinado momento perde sentido. Quando percebem que seus cargos estão ameaçados simplesmente passam a bola. Que perca o emprego outro e não eu. Não necessariamente essa pessoa é má, sem valores de coletividade, mas ao longo de tantos anos de vida sustentou seu valor como pessoa, no ter, por isso, para continuar a ser essa pessoa que acredita valorizar e que os outros valorizam precisa manter o status quo. 
Sofrem diariamente com conflitos morais. Normalmente as pessoas de cargo elevado acumularam bens para satisfazer um desejo imediato, o prazer vem e vai em pouco tempo. Portanto, na sequência, precisam preencher o vazio com outra coisa que vem de fora. Defendem seus cargos como feras selvagens, doa a quem doer. Não é bem um estilo agressivo de administração, mas um estilo agressivo de defender aquilo que tem medo de perder. Certa vez vi um documentário sobre uma tradicional casa de chás do Rio de Janeiro em um nobre (acho que foi no século 17) planejou uma festa e a realizou dentro do período de quase dois anos. Lembro que os cristais vieram da Suécia, de navio, demoraram meses para chegar, e muitos outros detalhes para se concretizarem precisaram um longo período. Ou seja, por um longo tempo essa pessoa era preenchida com algum detalhe que faltava ou mesmo que já tinha chegado. O prazer daquela festa era contínuo e atingiu seu auge com sua realização, mas não necessariamente acabou naquele momento, ainda por vários meses oferecia algo para a pessoa. É como o processo de uma lareira. Demora a atingir o máximo de sua temperatura, leva um tempo para aquecer todo o ambiente, e quando não mais a alimentamos com lenha, seu calor ainda fica erradiando por um bom tempo. O prazer imediato é simplesmente colocar fogo no álcool gel. Pega logo, evapora logo, e o ambiente não se aqueceu. Freud trocava correspondências sobre suas teoria com vários colegas que habitavam outros países. Imaginem o tempo que isso não demorava, e não é por isso que sua obra é pobre. Muitos podem não concordar, mas não se pode dizer que não tem conteúdo. A postura que defendendo é totalmente contrária ao que a sociedade ocidental hoje valoriza. Prefiro ter menos bens materiais mas ter mais de mim mesma. Prefiro me sentir como aquele nobre que demorou meses para realizar a festa. Não preciso de coisas imediatas, de mostrar o que tenho, preciso é do dia a dia, de como ele se apresenta e de como me sinto.

Sofrem diariamente com conflitos morais. Normalmente as pessoas de cargo elevado acumularam bens para satisfazer um desejo imediato, o prazer vem e vai em pouco tempo. Portanto, na sequência, precisam preencher o vazio com outra coisa que vem de fora. Defendem seus cargos como feras selvagens, doa a quem doer. Não é bem um estilo agressivo de administração, mas um estilo agressivo de defender aquilo que tem medo de perder. Certa vez vi um documentário sobre uma tradicional casa de chás do Rio de Janeiro em um nobre (acho que foi no século 17) planejou uma festa e a realizou dentro do período de quase dois anos. Lembro que os cristais vieram da Suécia, de navio, demoraram meses para chegar, e muitos outros detalhes para se concretizarem precisaram um longo período. Ou seja, por um longo tempo essa pessoa era preenchida com algum detalhe que faltava ou mesmo que já tinha chegado. O prazer daquela festa era contínuo e atingiu seu auge com sua realização, mas não necessariamente acabou naquele momento, ainda por vários meses oferecia algo para a pessoa. É como o processo de uma lareira. Demora a atingir o máximo de sua temperatura, leva um tempo para aquecer todo o ambiente, e quando não mais a alimentamos com lenha, seu calor ainda fica erradiando por um bom tempo. O prazer imediato é simplesmente colocar fogo no álcool gel. Pega logo, evapora logo, e o ambiente não se aqueceu. Freud trocava correspondências sobre suas teoria com vários colegas que habitavam outros países. Imaginem o tempo que isso não demorava, e não é por isso que sua obra é pobre. Muitos podem não concordar, mas não se pode dizer que não tem conteúdo. A postura que defendendo é totalmente contrária ao que a sociedade ocidental hoje valoriza. Prefiro ter menos bens materiais mas ter mais de mim mesma. Prefiro me sentir como aquele nobre que demorou meses para realizar a festa. Não preciso de coisas imediatas, de mostrar o que tenho, preciso é do dia a dia, de como ele se apresenta e de como me sinto.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Curtas: Por que os esquimós se fixaram no pólo norte?
Nesses dias com temperaturas mais baixas, ainda no outono, já está difícil sair do banho, esquentar o pé, a ponta do nariz. Quando chegar o inverno mesmo, aí sim é um sufoco. Nessas horas eu fico refletindo. O frio é muito ruim, castiga bastante o corpo humano, pode nos matar e mesmo assim os esquimós habitam o pólo norte. Por que? Nós somos o único animal que consegue instalar-se em ambientes agressivos à espécie graças a manufatura de instrumentos e vestimentas. Mas mesmo assim, porque eles ficaram por lá, nem plantar tem como, só tem frio. Já li que não se sabe com certeza o motivo, mas acredita-se que foram expulsos pelos índios americanos. Seja lá o motivo que for, mesmo assim, ficaram em uma região árida de vegetação e calor. Realmente são muito hábeis no "cultivo" da sobrevivência. As vestimentas são peles de urso ou foca, viradas para dentro para proteger mais. A linha são os tendões dos animais que caçam e desenvolveram técnicas para caça e pesca exclusiva para esse ambiente. Impressionante essa capacidade que a espécie humana desenvolveu de adaptar-se e sobreviver a praticamente a qualquer ambiente. E somos a única espécie que depende de ferramentas para nossa proteção. Essa é nossa defesa, a manufatura. Se um animal maior nos atacar, pode até ser um cachorro grande, não temos garras, mordidas, velocidade, força e outros mecanismos de defesa, somos presa fácil. Talvez, em algum momento de nossa evolução, a espécie humana tivesse ficado à mercê da extinção, mas isso deve ter sido há muito. . . . . . muito. . . . . . muito tempo atrás.
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