domingo, 3 de julho de 2011

Curtas: Coisas de mulher

Se você for homem, já vou advertindo, talvez o assunto não o agrade: coisas de mulher. Por vários dias vi a propaganda de uma nova marca de absorventes íntimos e fiquei interessada em experimentar. Achei que  o produto parecia bom e a propaganda mostrava uma certa sensibilidade, uma delicadeza que transmitia a impressão de preocupação com o conforto da mulher. Sempre achei que a menstruação é algo próprio da mulher e que seus significados vão muito além do incômodo mensal. Somos férteis e podemos gestar vidas, para mim é isso que significa. Sou mulher. Também sou daquelas afortunadas que não sofrem de cólicas ou que tem TPMs insuportáveis. Tudo transcorre com tranquilidade, sem muitas alterações. Sendo assim, enquanto comprava o produto uma pergunta surgiu na minha cabeça. Quem será que inventou o absorvente íntimo, o Modess - o primeiro produto dessa categoria? Concluí que só poderia ser uma mulher, porque só nós sabemos o quanto a segurança e a facilidade são importantes nesse período.  Abre parênteses: toda vez que vou fazer uma mamografia fico pensando que quem inventou aquela máquina só poderia ser um homem. Duvido que um homem inventasse uma máquina para diagnosticar câncer de próstata que ficasse puxando o escroto dele, que ficasse achatando suas bolas. Temos uma medicina um pouco sexista. Sem sombra de dúvida o exame é importante, mas muito desconfortável - fecha parênteses. Voltando ao absorvente, pesquisei na internet e não achei a autoria do absorvente íntimo, mas que foi uma indústria americana que lançou o Modess na década de 30. Fiquei muito intrigada tentando imaginar a reunião. Nessa época somente homens tinham cargos de liderança. Dá para imaginar uma reunião de produto com os homens dimensionando o absorvente, conversando sobre fluxo menstrual, sobre sua fixação na roupa da mulher? Difícil, até hoje é um assunto tabu e naquela época deveria ser mais ainda. Como será que o executivo que teve essa ideia a apresentou em uma reunião com o Presidente? Gostaria de saber como foi a abordagem, os cálculos dos lucros? Como será que montaram a linha de produção, como treinaram os operários, desenvolveram as embalagens? E as propagandas com eram? Tento imaginar a reunião, um homem levantando e dizendo: "tenho uma ideia que vai gerar muito lucro para a empresa e deixar as mulheres felizes e satisfeitas. Vamos fazer um produto para elas usarem quando estiverem menstruadas e poderem jogar fora, não vão precisar lavar nem reutilizar, será um absorvente menstrual descartável". . . . . . . . .tenho a sensação que deve ter havido um looooooooooooongo silêncio . . . . . .será?

sábado, 2 de julho de 2011

Nossas origens


Hoje pela manhã li uma reportagem no caderno ciência sobre uma equipe de pesquisadores da UNB que está utilizando o Google Earth para fazer um "transporte" do hoje para nossa época Brasil Colônia. Inclusive o projeto já está disponibilizando seus primeiros mapeamentos, suas primeiras idéias. Vale a penas dar uma visitadinha - atlas.cliomatica.com. A reportagem coloca: "a idéia dos pesquisadores é sobrepor os mapas do Brasil-Colônia às imagens de satélite atuais, empregando também recursos interativos. Em vários casos vai ser possível ver como o povomaneto avançou e mapear com precisão os ciclos regionais de prosperidade (e bancarrota) durante a era colonial."  Sempre gosto muito de projetos e descobertas que estão relacionados a nossas origens, a nossa construção histórica, cultural e evolutiva. Inclusive a busca de nossas origens parece ser intrínseca ao ser humano. Há ainda muito "mistério" sobre nós. A começar sobre nossos sentimentos. Nos últimos anos intensificou-se muito a busca por respostas neuronais pela causa dos nossos sentimentos ou motivação de nossas escolhas. A neurologia e a neuropsicologia têm realizado inúmeras  pesquisas através de mapeamentos cerebrais buscando respostas para nossas atitudes. O que conseguem mostrar é qual região do cérebro fica mais ativa em determinadas situações, porém nenhuma delas é conclusiva sobre o porque, a origem. Fico imaginando a frustração desses pesquisadores, buscando respostas, só que junto a elas surgem mais perguntas. Meu marido é astrônomo, e nosso binômio parece tão bizarro, a princípio. Uma psicóloga e um astrônomo, como assim? Só que temos mais em comum do que aparentemente se pode achar. Ambos buscamos origens. Ele em sua pesquisa busca descobrir o nascimento e morte de estrelas de alta massa. Fiquei outro dia sabendo, através de um colega dele, que essas estrelas que ele busca conhecer são escondidas por nuvens de poeira, ou seja, mais difíceis de se acessar, mais "escondidas".  Eu busco junto com meus pacientes a compreensão das origens de suas dificuldades, de seus conflitos, busco a reconstrução e resignificação de sua história através das origens, do seu encoberto com as nuvens de poeira da vida dos acontecimentos e dos sentimentos. Então, eu e meu marido, muito temos em comum, somos envolvidos com as origens. Ele no plano astronômico, um macro universo, e eu no plano individual no micro universo pessoal. E essa busca não é só nossa, a história está repleta de simples pessoas que realizaram grandes descobertas sobre origens. São tantas as profissões: arqueólogos, biólogos, químicos, astrônomos, físicos, antropólogos, historiadores, cartógrafos, etc. Por falar em cartógrafos o projeto da UNB me fez lembrar o quanto eu sempre admirei os cartógrafos antigos. Não existiam satélites, não existiam máquinas fotográficas. Seu material era: papel, pena, algum instrumento de medição e observação. Não tinham super visão como águias, viam ao alcance máximo que nossa visão permite ou com alguma lente, mas longe de ser essas super lentes de telecóspio. E no entanto fizeram mapas tão precisos. Estudamos geografia na escola, aprendemos sobre os continentes que foram mapeados muito antes de tantos recursos tecnológicos. Uma vez vi um filme sobre a busca da nascente do Rio Nilo, quanto sofrimento para chegar até lá. Uma história de coragem e sofrimento. E por que? A busca de uma origem, a busca de um grande feito relacionado a origem, a nascente do Rio Nilo. Por que? Quem em sua adolescência não ficava perguntando. De onde viemos, para onde vamos, por que eu nasci, estamos aqui ou somos uma projeção? E os pais ficam em pânico com tais perguntas, pois além de não terem as respostas eles, talvez, ainda tenham essas perguntas  ecoando dentro de si. Alguns com elas gritando, e outros talvez uma pequenas brasa. A questão relacionada a nossas origens está presente o tempo todo conosco e com nossa evolução. Essa questão nos movimenta, nos faz continuar a buscar. Por isso espero que essa resposta nunca seja totalmente respondida. Tenho a sensação de que quando isso acontecer o sentido de continuarmos buscando, simplesmente, findará. E a partir desse momento a vida vai perder sentido. Precisamos aprender a conviver com a não resposta e continuar mesmo assim nossa busca pela resposta. Nossas origens são nosso principal sentido e nos afastaramos delas é um afastamento de nosso próprio sentido.    

sábado, 25 de junho de 2011

O previsível e o imprevisível


Quando na faculdade aprendi superficialmente sobre o conceito da dialética no diálogo fiquei encantada com as possibilidades que se apresentavam. No meu imaginário vi uma escadaria em constante crescimento. O degrau acima nunca poderia ser construído se o de baixo não tivesse vindo primeiro, e assim por diante. Pode parecer ingenuidade, mas fez tanto sentido perceber que minhas idéias e conceitos aparentemente volúveis faziam parte de toda uma construção. Que questionamentos sobre as próprias idéias, até conceitos morais fundamentais que usamos para nortear a nossa existência, eram próprios de um processo de evolução. E o previsível e o imprevisível são parte dessa engrenagem, tão delicada e tão cheia de sutiliezas. Conceitos que fazem parte de nosso cotidiano sendo que um não existiria um sem o outro. Um é a oposição do outro. É preciso lidar com os dois em nosso dia a dia, e só quem consegue estabelecer sua relação com o previsível e o imprevisível é o próprio indivíduo. Só ele sabe o que quer e o que aguenta e por questões de sobrevivência precisamos do previsível. Precisamos saber onde pegar nosso alimento, onde vamos nos abrigar, onde vamos conseguir nosso salário para nosso sustento, etc. É natural. É muito comum no caminho ao trabalho, pelas manhãs, mentalmente fazermos um balanço de como será nosso dia, uma espécie de preparação. Nesse processo, via de regra não se deixa espaço para o imprevisível, acredita-se que o dia transcorrerá muito similar ao imaginado. E, na realidade, imaginar algo imprevisível  já o tornaria previsível. O imprevisível é um lugar vazio, dentro de nós, a ser ocupado por algo não pré-visto. Tais lugares vazios são importantes para nosso desenvolvimento, é onde "habita" o imprevisível e nossa cultura ocidental está tentando tampar esses vazios.  Cada vez mais é reforçada a idéia de que tudo é previsível. Há uma intensa tentativa de fazer com que o mundo, a natureza e nós nos tornemos previsíveis. Só que se o imprevisível tiver cada vez menos lugar em nossa evolução a nossa escadaria vai estagnar. Viver no previsível é como viver em uma bolha. Vive-se somente as experiência que aquele diâmetro limitado pode fornecer. Chega-se em um determinado momento que não existe mais nada novo, só a repetição do velho. Algo além disso, só se sair da bolha, porém existirá o imprevisível. Inclusive viver dentro da bolha elimina também o previsível, instala um ciclo de continuidade da mesmice. Recentemente escrevi sobre a rotina de trabalho no Poupa Tempo. Um morte de alma assustadora. Só agora eu percebo o quando aquela rotina está relacionada ao previsível. Nos dias atuais, dizer-se imprevisível é muito previsível. O imprevisível é algo que chega sem avisar, que não sabemos de onde veio com o qual temos que fazer alguma coisa se quisermos continuar crescendo. Ter todo dia uma atividade diferente, não se ligar a alguém, comprar o que quiser, isso tudo é previsível, você quis. Lidar com aquilo que não quis que acontecesse, com o inesperado, com algo que está fazendo sua vida ser revista totalmente, esse é o imprevisível. A vivência do imprevisível pode trazer sofrimento, mas também torna as coisas diferentes, mudadas, acontecem transformações. A vida pessoal fica mais rica. É importante valorizar nossas experiências com o imprevisto, são elas que trazem novos degraus para nossa própria escada. E é importante deixar espaços vazios para que possam ser preenchidos com o imprevisto. 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Curtas: O amor está no ar

Minha filha Feliz (7 anos) está mais feliz ainda. Descobriu-se enamorada de um Dom Juan (também com 7 anos) que corajosamente colocou em baixo de sua carteira na escola um bilhete: "eu te amo". Além de tal declaração esse jovem rapaz não deu-se por satisfeito e pedagogicamente pediu uma confirmação da reciprocidade: "se você me ama ponha um X no quadradinho". Feliz ficou tão radiante que pegou um papel toalha no banheiro e escreveu um bilhete: "te amo". Entregou-o ao rapazinho que, ligeiramente escreveu em baixo das palavras da amada: "eu também". Isso tudo em uma única manhã. Além de tal troca afetiva dos enamorados, Feliz compartilhou com duas colegas o recebimento do carinho. Recebeu conselho de uma delas que seria uma fria e a outra tratou de espalhar para todos da sala que estava havendo um romance. E mais, espalhou-se para todos os segundos anos, inclusive sua irmã Estrela ficou sabendo. Mesmo assim, com sua intimidade espalhada, Feliz disse-me: "mãe, eu não consigo tirar esse sorrizinho da minha cara". À noite esmerou-se para escrever um bilhete para o amado: "você quer conversar comigo no pátio?" Também me fez diversas perguntas sobre como é o amor, o que é o amor, o assunto começou a ficar complexo, mas mesmo assim tão desinteressado de enfeites, eram apenas correspondências, fiquei observando. Feliz, ao me relatar tão singelos acontecimentos, não deixava de colocar que seu Dom Juan também era diferente. No passado ela teve dificuldades com o ambiente social da escola (era outra) e agora algumas delas ainda persistem. Muitas vezes ela se interessa por coisas que outras crianças não, e não gosta de fazer parte de "panelinhas". Ela é na dela, inclusive é uma menina que não liga muito para a opinião dos outros, gosta do seu jeito e quando questionada diz gostar de si mesmo. Então, Feliz, com seu jeito peculiar de ser, em nenhum momento planejou algo ou  fez algo intencionalmente para conquistar seu admirador. Sem esperar, recebe uma declaração explícita: "gosto de você do jeito que você é". Ela está radiante, com muito motivo, quem não quer isso para si? A começar pela auto-estima. Nos tempos atuais, gestos naturais de aceitação de como somos estão escassos. Temos protocolos para tudo e o politicamente correto muitas vezes mascara o que é na realidade. Hoje entoamos discursos de liberdade de ser, mas . . . . .isso acontece de fato? Temos liberdade de sermos diferentes do que esperam de nós e continuarmos a contribuir em nossa coletividade? Acredito que temos vivido muito para fora e pouco para dentro. Mostramos o que temos e o que sabemos fazer, mas pouco do que pensamos ou sentimos. É muito fácil acabar caindo naquele vazio do, quando se tem muito a perder porque não se tem nada.   Só que enquanto isso, vou ter que pensar, refletir como mãe, observar a evolução dos acontecimentos e ao mesmo tempo admirar tal singela manifestação de carinho. Por isso coloco para os meus leitores o link do música "Love is in the air", para aproveitarmos esse momento em que o amor está no ar.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Curtas: Tempos modernos informatizados


Hoje fui ao Poupa Tempo renovar minha habilitação. Fiz todo o processo em uma hora e saí de lá esvaziada. O Poupa Tempo se aproximou muito do filme "Tempos Modernos" do Charlie Chaplin. O personagem fica apertando os parafusos em um movimento contínuo, sem mais perceber o que estava fazendo, não parava. Essa sistemática ritmada e sequencial foi desenvolvida por teorias da administração para que a produção fosse com o menor número de movimentos e com a melhor otimização do tempo. A teoria chamava-se (não sei se é assim ainda) tempos e movimentos. Bem, o Poupa Tempo implantou algo parecido para os procedimentos dos documentos. Em cada guichê para o qual se é encaminhado o atendente tem uma única tarefa a cumprir. Primeiro a checagem da documentação, depois o guichê que emite a guia, na sequência tirar a foto e digitais, pagar no banco, pegar a senha do exame médico, fazer o exame e voltar no guichê para pegar o protocolo. Os atendentes simplesmente executam, nada além disso. O guichê no qual eu mais demorei foi o da foto e das digitais. Como foram dos 10 dedos é demorado mesmo. Tive, então, oportunidade de observar a atendente. Sua fisionomia era de tédio, ela olhava para o computador, esperando carregar a digital para falar: "agora o outro dedo" e isso se repetiu por 10 vezes. Multipliquemos isso por, sei lá, uma média de 50 pessoas por dia (acho que é muito mais) e ela fala isso 500 vezes por dia e por semana 2.500 vezes. Na semana seguinte a contagem se repete: "agora o outro dedo" ou variações do tipo "novamente". Fiquei imaginando se um filho ou o marido, a mãe ou sei lá quem pergunta como foi o dia, o que aconteceu no trabalho, o que será que ela responde? Será que ela consegue sentir algo em relação a sua rotina? Não temos mais aqueles operários como no filme, mas a era da informática e das normatizações ajudam a manter a mesma mecanização. O que mudou? Agora estamos no século XXI. Indivíduos com pouco ou nenhum espaço para criar, para ter algo de si na tarefa, execuções totalmente mecanizadas. Inclusive, esse Poupa Tempo é enorme, cheio de gente. Tive uma sensação de estar em um curral bem grande, com aparente liberdade para pastar, mas . . .  cada coisa em seu lugar. Lá dentro estávamos todos mortos como indivíduos. A diferença entre mim e os atendentes é que saí de lá e fui fazer outras coisas que me trouxeram vida. . . . . eles tem que viver essa morte todos os dias. Cruel.

domingo, 19 de junho de 2011

House, um deus grego?


Via de regra, quando as mulheres se referem a um homem como um deus grego estão se referindo à beleza estonteante do espécime. No caso da minha comparação com o personagem House nada tem a ver com a estética, mas sim com suas características emocionais. Várias delas são muito parecidas as de  alguns dos deuses gregos. Não tenho nenhum conhecimento específico sobre mitologia grega, o que sei é bem superficial, mas acho que já dá construir uma reflexão, sem ser leviana. Alguns dos deuses gregos tinham características bem marcantes de egocentrismo, eram vingativos, sádicos e "usavam" os "mortais" para satisfazer seus prazeres. Eram temidos, tinham poderes de destruição e quando contrariados voltavam sua ira contra os chamados "mortais". Vários desses deuses pareciam crianças mimadas. Se não tinham seus desejos atendidos prontamente se jogavam no chão, gritavam através de raios, trovões, tempestades, se vingavam. Havia, também, muita disputa egóica entre os pares. O Olimpo estava longe de ser um lugar de paz, solidariedade e sabedoria, era um meio instável. Mas, se formos observar mais imparcilamente, as características emocionais dos deuses gregos nada mais eram do as características comuns do seres humanos só que potencializadas. Todos somos egocêntricos e reclamões, todos ficamos frustrados quando nossos desejos não são atendidos prontamente. Quem já não teve desejo de vingança contra alguém que o magoou? Mas como nos tornamos pessoas adultas, com necessidade de conviver em sociedade, em ambientes familiares e corporativos temos que aprender a lidar com esses sentimentos, com essas frustrações. Esse aprender a lidar não é necessariamente rerpimir, fingir que não sente, mas reconhecê-las e fazer algo por si. Somos mortais, se não fizermos isso nossa colheita afetiva será muito pobre e precisamos dela. Só que o personagem de House não precisa fazer nada disso para ter a colheita afetiva. Ele pode lidar com as pessoas tal qual os deuses gregos. Tudo começa por sua equipe de trabalho. Os trata com desdém, os expõe ao ridículo, e de maneira sádica, invasiva, quer sempre tirar uma confissão de alguma aparente fraqueza, tragédia ou sordidez de suas histórias de vida. E o mais interessante é que os personagens médicos, membros de sua equipe são tão insípidos. Nenhum deles cativa, se o personagem for substituído não fará falta alguma, são fantoches na série. Sua principal serventia é para criar um contexto para que o lado divino de House possa ser mostrado. House tem o poder  da cura. Ele não faz isso diretamente, mas seu saber é tão especial que acaba salvando vidas E os pacientes e familiares, como são explorados na série. Também são uns bobões. House trata a todos com desdém e estupidez. "Cutuca" a todos, faz procedimentos invasivos, tanto invasões emocionais como com aquela batelada de exames e remédios que ele vive entupindo nos pecientes. Ele só se dá por satisfeito e só consegue "a cura" quando descobre algo bem sórdido. Algo que satisfaça seus desejos de reafirmar a degradação e a podridão do ser humano. A célebre frase de House: todos mentem, é a mais pura verdade. Todos nós, sem exceção, mentimos e escondemos coisas sobre nossas vidas, e temos nossos motivos para isso. Desde algo banal, do dia a dia, até hábitos e histórias de vida bizarras. Mas House, como é um deus, pode fazer isso. Escancarar sem pedir licença ao que é mais humano no paciente. Então, mesmo com a tortura, o egocentrismo, o sadismo, os procedimentos invasivos, House é colocado em seu altar. É comum no final do episódio a Coddy dizer: House salvou mais uma vida. Obviamente que para eu estar escrevendo sobre a série é porque a assisto e me fascina como um personagem tão vil pode fazer tanto sucesso. Muitas vezes ao terminar de assistir ao episódio sinto até raiva de mim por ter perdido tempo, mas não sei explicar o que acontece se estiver passando eu assisto. House é certamente um personagem que fascina, por diversos motivos, que nada tem a ver com a realidade objetiva, e sim com identificações subjetivas ou mesmo satisfação de desejos jamais confessados. Acho que os deuses gregos tinham essa representação para aquele povo, como talvez o personagem House tenha para nossa cultura ocidental. Alguém absurdamente desprezível mas com um lugar de destaque na sociedade, com o aval social para poder viver o lado mais obscuro do ser humano. Talvez, em alguns momentos, até gostaríamos de ser como o persongagem. Porém  esse  aval só existe porque ele tem um poder. O poder de salvar vidas. Realmente um deus.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Q.I. - Quoeficiente de Inteligência, uma bobagem


É isso mesmo, cheguei a conclusão que, para o que eu acredito hoje, o quoeficiente de inteligência é uma bobagem.  Tenho um amigo que eu o classificava, através dos padrões do senso comum do QI, alguém com a inteligência acima da média. Se seu QI fosse medido com certeza estaria na curva dos acima, nem perto da média. Além de brilhante em sua especialidade (é físico) é uma pessoa interessante, consegue falar com segurança sobre quase todos os assuntos, sempre demonstra conhecimento, e gosta de reflexões sobre questões subjetivas e sobre nossa evolução como primatas. Junto nesse pacote de especialidades não é uma pessoa arrogante, quando defende seu ponto de vista não é agressivo e muitas vezes engraçado. Dou muita risada até hoje quando lembro de nossa conversa sobre médiuns e suas psicografias. Ele em sua defesa colocou que Chico Xavier deveria ser preso e enfatizava: "prendam Chico Xavier, prendam Chico Xavier", foi muito engraçado. Até hoje rimos do assunto. Uma das temáticas que já travávamos era sobre inteligência. Eu defendia que existiam pessoas mais inteligentes que outras e ele sempre defendeu que esse conceito era irreal, que as diferenças não eram quantitativas. Eu ouvia tudo aquilo, e confesso, não entendia sua defesa. E esse tema, inteligência sempre fez parte da minha evolução. Na minha família sempre achei meu pai inteligentíssimo. É um homem de exatas e os números e o raciocínio lógico são para ele como o alfabeto é para mim, algo comum. Até hoje, ele com seus 76 anos de idade, faz as compras no supermercado e armazena em seu cérebro o preço de cada item que pegou, compara preços, vai calculando de cabeça e quando chega ao caixa diz quanto dará a conta. Nunca é exato o valor, mas muito próximo. Inclusive ele tem uma margem de erro que fica em torno de 1% de tão calculado que é a história. Dentro do meu universo familiar eu o colocava no topo da pirâmide, e logo abaixo meu irmão, também uma pessoa de exatas. Eu o achava muito inteligente, nunca precisou estudar para passar de ano, nunca pegou um exame na escola, só prestar atenção na aula bastava. Em terceiro eu colocava a minha irmã, também muito inteligente, lia muito, livros diferencidados e entrou muito bem colocada na USP. Logo depois minha mãe, ela fez USP, inclusive em uma época que poucas mulheres cursavam universidade. Por sinal todos que me cercam fizeram USP, pai, mãe, irmãos, marido e cunhados. E eu, segundo os critérios que eu mesma estabelecia, ficava lá, na lanterninha, não tinha essa habilidade exata e muito menos entrei na USP. Tenho uma tia que se sente como eu, batalhadora, esforçada mas que não se configura na lista dos Top ten. Bem. . . . os anos foram passando e minha visão sobre inteligência foi mudando. Primeiro eu revi o ranking da família e subi minha irmã uma colocação. Comecei a ver que tudo que ela focava fazia com facilidade, que ela tinha uma habilidade natural para o aprendizado, o que ela não tinha era foco, só que então muito  inteligente. Depois comecei a me rever. Será que por eu não ter habilidade com números e habitar o reino do subjetivo,  fluente em uma área em que não há medições cartezianas, isso me põe fora da lista dos inteligentes? Até então eu tinha esse conceito muito engessado e hoje penso muito diferente daquela época. O que mudou? Muita coisa, mas recentemente, através das minhas filhas consegui me ver livre do carteziano, da comparação. São gêmeas bivitelinas, estão na mesma escola, mas em salas diferentes. Essa escola tem um planejamente bem rigoroso e os professores têm que transmitir o mesmo conteúdo para seus alunos. As provas são iguais tal qual os conteúdos ensinados. Só que minhas filhas tem posturas de vida muito diferentes entre si. Uma é mais organizada e mais aplicada, demominarei de Feliz. A outra é meio desleixada e pouco organizada, será a Estrela. Nas provas trimestrais a escola enviou um roteiro de estudo. Seguimos esse roteiro as três juntas. Feliz separava as matérias, respondia os exercícios de forma organizada e com sequência lógica. Estrela respondia no meio de uma página, virava a folha, às vezes não queria anotar e por inúmeras vezes se destraia com alguma outra coisa. A apreensão dos conteúdos era similar o que difenciava eram as condutas. Estrela, meio que nem aí, Feliz empenhada. Qual não foi a minha surpresa quando chegaram os resultados quantitativos da escola. Seus desempenhos foram muito diferentes. Estrela teve um desempenho quantitativo excelente, suas notas, de cinco matérias quatro foram 10 e essa única que não, 9,5. Feliz quantitativamente muito bem, mas com notas que variaram de 8,5 a 10. E tão mais interessada . . . . . por que isso?. Nas outras avaliações que seguiram a mesma coisa. Estrela sempre com o desempenho máximo e Feliz variando. Comecei a refletir sobre isso, fiquei dias pensando. Finalmente eu compreendi, o que meu amigo tanto me falava. . . .  a princípio parecerá um conceito complexo, mas no dia a dia, no cotidiano vai fazendo tanto sentido. Somos indivíduos com características próprias, tanto biológicas quanto emocionais e por isso os processos de elaboração e devolução do aprendizado ao mundo são muito próprios, são únicos. Feliz e Estrela tem a capacidade de compreensão similar, porém elas devolvem ao mundo essa compreensão de maneira diferente. Muitas vezes coloco que Feliz parece um lençol freático, sabe-se que existe, mas não o vemos, só quando aparece em sua nascente. Ela é assim, mais introspectiva, seu mundo interno é mais complexo e é isso que ela mostra ao mundo. Para ela as coisas não são tão simples. Já Estrela é impulsiva, mais extrovertida, acumula menos "preocupações", suas emoções são explícitas. É isso o que ela mostra ao mundo. Para ela tudo é mais  simples, direto, sem rodeios. Por fim, não existe mais inteligente ou menos inteligente, nossos processos mentais e emocionais são diferentes e o produto dessa diferença é o que mostramos para o mundo. Esse produto pode ser algo que muda radicalmente a vida da humanidade como Darwin, Freud, Einstein. Ou talvez algo mais singelo que ajude uma pessoa a mudar sua maneira de ver, tanto as pessoas como a si mesmo. O produto de Feliz, Estrela e meu amigo me ajudaram a mudar e concluir que, para mim, testes de QI . . . .  . são uma bobagem. Talvez minha família é que não fique muito feliz. Eliminei o ranking, estamos todos nivelados, eu, meu pai, minha mãe e meus irmãos.