segunda-feira, 30 de maio de 2011

Curtas: Arrumações


As arrumações, não diárias, têm sempre algum significado além o da organização. Sabe aquele dia que a gente acorda e resolve fazer "aquela" limpa no guarda-roupa e depois de tudo acabado parece que a alma também foi arrumada. Essa "arrumação" subjetiva tem sensação de novidade, de mudança, de um  abrir espaço para coisas novas. Normalmente, nessas arrumações, pode acontecer de encontrarmos coisas que durante muito tempo foram tão queridas, tão usadas, mas que de uns tempos para cá perderam aquele significado especial (quando novos hábitos substituem os velhos). Não podemos esquecer também daquelas que foram adquiridas por algum motivo, que acreditávamos muito querer, mas que praticamente nunca foram usadas. Para cada um há vários significados que podem vir junto a esse "corriqueiro movimento" de arrumar. Lembro que recentemente uma das minhas filhas (7 anos), pela milhionésima vez, queixava-se de uma amizade, do quanto não se sentia reconhecida, que sentia-se magoada com algumas atitudes, etc, etc, etc, e eu dirigindo na Rodovia Dutra. Em um determinado momento me cansei de tanta ladainha e resolvi dar um basta usando uma metáfora. Meu objetivo era que ela não entendesse bem sobre o que eu estava falando e mudasse de assunto. Falei enfaticamente, olhando a estrada e o retrovisor: "troca de sapato, esse não te serve mais, seu pé já está diferente, esse brilho um dia foi bonito, mas agora não é mais. Troca de sapato porque este não se serve mais". Silêncio. Pensei: "funcionou". Daqui a pouco ouço: "Você está falando sobre as amigas, não é?" Não acreditei na hora o quanto ela compreendeu e agora quando falo em sapatos elas já dizem: "chega dessa história de trocar de sapatos", uma porque não gosta de mudanças e a outra porque tem dificuldade de abandonar algo que antes brilhava e que agora não brilha mais. Todos temos nosso motivos para as arrumações. É bom fazer isso de vez em quando, dá uma sensação de leveza e revigora nossa energia. Como está seu armário? Precisando de arrumação? A minha arrumação fiz recentemente, por etapas, não dava para fazer tudo de uma vez. Agora está tudo parecendo tão no lugar e quero que fique assim, assentada, por um tempo. Muitas vezes se tem muita coisa acumulada, dá muito trabalho, só que o resultado pode surpreender.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Quando novos hábitos substituem os velhos


Lembro-me muito bem que anos atrás, em um processo seletivo, a selecionadora me pediu para que fizesse uma redação sobre mim (tema manjadíssimo em processos seletivos), só que no computador. Não esqueço a abordagem que fiz. Elaborei uma redação na qual defendia o quão não natural eu achava escrever sobre mim no computador. Tal ferramenta me permitia que eu corrigisse com frequência o que tinha escrito, e no papel, mesmo se houvesse rascunho, dificilmente poderia modificar muito do original. Coloquei também que sentia certa artificialidade nas palavras, porque quando usava a caneta, o lápis e o papel eu sentia que as palavras no papel eram extensão de mim. Vinham da minha mente, da minha alma e se materializavam através da escrita. Um processo totalmente meu, sem um intermediário, nesse caso o teclado (a selecionadora não me achou delirante, talvez esquisita). Mas não é isso que interessa, mas sim, refletir sobre esse processo de substituição dos velhos hábitos por novos, e como esse processo demanda tempo. 
Evolucionistas colocam que o ser humano no geral é resistente a mudanças porque, nos primórdios, algo novo poderia significar a extinção daquele bando. Era necessário antecipar os acontecimentos. Claro que isso faz parte, porém gostaria de "olhar" sob outro prisma. Quando uma empresa resolve mudar toda uma postura de recursos humanos, comercial ou de sua cultura dominante, não dá para querer que no dia seguinte todos os colaboradores e fornecedores vejam sentido nessa nova maneira de ser. Os gestores dessa empresa, com certeza, não planejaram e implantaram tais mudanças em dias, provavelmente por anos foram tomando forma. Os gestores tiveram oportunidade e tempo de expiar seus velhos hábitos, entendê-los e dar sentido aos novos. Só que isso acontecia a portas fechadas, era exclusivo, para poucos. Que direito, então, esses gestores têm de exigir que em um curto espaço de tempo os colaboradores e fornecedores tenham que aceitar sem resistências essas mudanças? Nenhum. Mas, infelizmente, no mundo corporativo não é assim que funciona. Os tais "resistentes" são substituídos. Lógico que existem resistentes patológicos, mas não é sobre eles a quem estou me referindo. Eu sempre tive meu textos, minhas idéias, minhas dúvidas em cadernos, desde minha juventude.
Tenho-os guardados comigo até hoje e trazem muito da minha história. Mas, de uns tempos para cá, aos poucos, essa artificialidade que eu acreditava existir, em escrever meus pensamentos com a tecnologia, começou a não me incomodar mais. Prova disso é o cotidiano reflexivo. A escrita sempre fez parte do meu subjetivo, sempre organizei meus pensamentos em cadernos, folhas e nunca no computador. Sentia que minha espontaneidade, minha naturalidade seria aniquilada se fosse diferente. Inclusive na faculdade alguns dos trabalhos que precisavam ser feitos eu antes fazia no papel para depois transcrever no computador. Em paralelo o mundo corporativo exigia que eu lidasse com a tecnologia também no meu processo criativo. Comecei a expor-me profissionalmente através da tecnologia, mas continuei mantendo o processo criativo pessoal com a escrita manual. Só que aos poucos fui me dando conta que o processo criativo próprio não iria perder seu sentido se eu usasse o teclado. Continuaria sendo uma extensão do meu eu. Finalmente o uso da tecnologia fez sentido, mas esse processo demorou um tempo.
Que venham as mudanças. Substituir velhos hábitos é muito bem vindo, sempre crescemos e aprendemos coisas novas, mas é necessário ter um tempo, um tempo próprio. Sempre que precisamos jogar fora algo nosso ou aposentá-lo, o que virá para substituir, precisa ter sentido. Muitas vezes o difícil é isso. . . .  . dar sentido ao novo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ainda somos um Brasil colônia


Hoje li no jornal que o prefeito do Rio de Janeiro arrependeu-se de sansionar uma lei municipal na qual qualquer obra, para as Olimpíadas de 2016, deverá ter sua aprovação submetida à câmara dos vereadores (veja matéria na íntegra). Essa lei contraria uma que é federal. O prefeito, quando percebeu o contrassenso, tentou voltar atrás, mas a câmara não deixou. Lógico que a câmara vai querer aprovar as obras por alguma troca financeira. O prefeito declarou que não leu o texto minuciosamente.  Não sei o que é o pior: um prefeito que assina uma lei sem ler direito ou se a proposta de tal lei. Tudo nessa história é péssimo e todos os dias nos deparamos com escândalos de corrupções, porém, em parte, talvez sejamos responsáveis pela manutenção desse ciclo. Não nos mobilizamos enquanto nação, enquanto povo e me incluo nessa posição. Ficamos indignados, comentamos entre os colegas, mas depois de um tempo deixamos para lá, . . . . . . . .é assim mesmo, sempre foi. O desrespeito ao ser humano pelo poder público é tanto que até comida estragada na merenda escolar é encontrada. Isso é gravíssimo e por que será que não nos mobilizamos? Acredito que um sociólogo ou um psicólogo social poderia explicar com mais conhecimento mas farei uma breve reflexão: fomos colonizados por países que se interessaram em sugar, destruir e usurpar qualquer algo de valor que tínhamos. As riquezas minerais eram extraídas e enviadas para fora. A mão de obra local eram escravos. Os não escravos, vampiros sociais e financeiros. A família real veio para cá fugida, não tinha nenhum interesse em desenvolver o país. O monarca que declarou nossa independência era um fanfarrão, mulherengo, que por algum motivo ligado a prazeres individuais fez tal declaração.
Quando fomos um povo que lutou junto para um bem coletivo? Qual é nossa identidade como nação? Até hoje deixamos que outros países do mundo venham aqui, tirem nossas riquezas, nossas identidades e continuamos imóveis.
A música do Chico Buarque, Geni e o Zepelim, fala claramente sobre a posição que o Brasil se coloca em relação aos outros. Daqui retiram tudo. Por mais resistente que eu seja em valorizar a cultura americana não posso deixar de admitir que eles tem uma identidade muito bem estabelecida. A Inglaterra idem. A monarquia está lá mantendo algo ligado às raízes daquele país, nós concordando ou não. E tantas outras noções também.
Nós sequer valorizamos a cultura de outros estados brasileiros. Os paulistas (sou um deles) enchem o peito para dizer que são a potência financeira do país . . . . só que funcionam como o modelo econômico americano. Produção, produção, dinheiro e dinheiro. Os mineiros já tem seu jeito próprio de ser, são valorizados, por quem? E os baianos? O que dizemos deles? Aí vem algum político dizer que o Brasil tem uma enorme riqueza cultural. . . . . .  que nosso valor está nisso, que no mundo não tem país semelhante . . . . . e? Somos unidos como nação? Eu tiro o chapéu para o Rio Grande do Sul. Sofrem críticas o tempo todo que são bairristas, mas se formos analisar friamente eles mantém muitas tradições vivas até hoje, é um povo unido. Na Argentina recentemente (vários anos) o povo foi às ruas em um panelaço..... diferentes pessoas se manifestaram. Aqui entregamos aos jovens a tarefa de sair às ruas para mostrar uma postura opositora. Lembram-se do impeachment do Collor, foram os estudantes cara pintada. É óbvio aquele fim já estava programado, o Collor fez algo que mexeu com muita gente. Não foi o movimento dos cara pintada, mais uma vez. . . . . massa de manobra. Acho que o único movimento popular autêntico, no Brasil, que eu presenciei foram As Diretas Já.... esse sim partiu de um povo já cansado de ficar calado de ser oprimido (Cálice - Chico Buarque). Depois disso, não lembro de outros movimentos sociais que nos tiraram de nosso modus operandi colônia vampirizada. Incluo-me nessa, nem sei por onde começar.

sábado, 21 de maio de 2011

Quando se tem muito a perder porque não se tem nada


Não são somente as crianças que são invadidas por produtos e engenhocas que garantem prazer instantâneo (veja texto o consumudo x nâo para os filhos). Os adultos também sofrem do mesmo mal e diferente das crianças, muitas vezes ficam aprisionados nesse ciclo de consumo, status e prazer imediato. Preenchem o vazio com coisas.
Tenho uma amiga cujo principal objetivo profissional era conquistar uma gerência na empresa que estava ou em outra. Para ela a satisfação de tal conquista era o principal juntamente com a recompensa financeira que viria. Acreditava que ter um carro melhor, poder viajar muito, morar em um lugar maior lhe traria felicidade absoluta. Hoje ela está questionando tudo isso, está com um cargo de gerência em uma multinacional, trabalha sob muita pressão e percebeu que é a marionete dos diretores, assim como todos os gerentes. Via de regra os profissionais de alto escalão - gerentes, diretores, superintendentes e presidentes têm muito a perder. Seus salários são elevados, os benefícios também e seu padrão de vida tem alto custo. Possuem apartamentos enormes cuja manutenção é alta, carros que andam e falam por conta própria, viagens ao exterior, jantares em lugares caros e da moda, roupas de grife, etc. Tudo isso tem um preço, financeiro e emocional e que em determinado momento perde sentido. Quando percebem que seus cargos estão ameaçados simplesmente passam a bola. Que perca o emprego outro e não eu. Não necessariamente essa pessoa é má, sem valores de coletividade, mas ao longo de tantos anos de vida sustentou seu valor como pessoa, no ter, por isso, para continuar a ser essa pessoa que acredita valorizar e que os outros valorizam precisa manter o status quo. 
Sofrem diariamente com conflitos morais.  Normalmente as pessoas de cargo elevado acumularam bens para satisfazer um desejo imediato, o prazer vem e vai  em pouco tempo. Portanto, na sequência,  precisam preencher o vazio com outra coisa que vem de fora. Defendem seus cargos como feras selvagens, doa a quem doer. Não é bem um estilo agressivo de administração, mas um estilo agressivo de defender aquilo que tem medo de perder.  Certa vez vi um documentário sobre uma tradicional casa de chás do Rio de Janeiro em um nobre (acho que foi no século 17) planejou uma festa e a realizou dentro do período de quase dois anos. Lembro que os cristais vieram da Suécia, de navio,  demoraram meses para chegar, e muitos outros detalhes para se concretizarem precisaram um longo período. Ou seja, por um longo tempo essa pessoa era preenchida com algum detalhe que faltava ou mesmo que já tinha chegado. O prazer daquela festa era contínuo e atingiu seu auge com sua realização, mas não necessariamente acabou naquele momento, ainda por vários meses oferecia algo para a pessoa. É como o processo de uma lareira. Demora a atingir o máximo de sua temperatura, leva um tempo para aquecer todo o ambiente, e quando não mais a alimentamos com lenha, seu calor ainda fica erradiando por um bom tempo. O prazer imediato é simplesmente colocar fogo no álcool gel. Pega logo, evapora logo, e o ambiente não se aqueceu. Freud trocava correspondências sobre suas teoria com vários colegas que habitavam outros países. Imaginem o tempo que isso não demorava, e não é por isso que sua obra é pobre. Muitos podem não concordar, mas não se pode dizer que não tem conteúdo. A postura que defendendo é totalmente contrária ao que a sociedade ocidental hoje valoriza. Prefiro ter menos bens materiais mas ter mais de mim mesma. Prefiro me sentir como aquele nobre que demorou meses para realizar a festa. Não preciso de coisas imediatas, de mostrar o que tenho, preciso é do dia a dia, de como ele se apresenta e de como me sinto.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Curtas: Por que os esquimós se fixaram no pólo norte?


Nesses dias com temperaturas mais baixas, ainda no outono, já está difícil sair do banho, esquentar o pé, a ponta do nariz. Quando chegar o inverno mesmo, aí sim é um sufoco. Nessas horas eu fico refletindo. O frio é muito ruim, castiga bastante o corpo humano, pode nos matar e mesmo assim os esquimós habitam o pólo norte. Por que? Nós somos o único animal que consegue instalar-se em ambientes agressivos à espécie graças a manufatura de instrumentos e vestimentas. Mas mesmo assim, porque eles ficaram por lá, nem plantar tem como, só tem frio. Já li que não se sabe com certeza o motivo, mas acredita-se que foram expulsos pelos índios americanos. Seja lá o motivo que for, mesmo assim, ficaram em uma região árida de vegetação e calor. Realmente são muito hábeis no "cultivo" da sobrevivência. As vestimentas são peles de urso ou foca, viradas para dentro para proteger mais. A linha são os tendões dos animais que caçam e desenvolveram técnicas para caça e pesca exclusiva para esse ambiente. Impressionante essa capacidade que a espécie humana desenvolveu de adaptar-se e sobreviver a praticamente a qualquer ambiente. E somos a única espécie que depende de ferramentas para nossa proteção. Essa é nossa defesa, a manufatura. Se um animal maior nos atacar, pode até ser um cachorro grande, não temos garras, mordidas, velocidade, força e outros mecanismos de defesa, somos presa fácil. Talvez, em algum momento de nossa evolução, a espécie humana tivesse ficado à mercê da extinção, mas isso deve ter sido há muito. . . . . . muito. . . . . . muito tempo atrás.

Diagnósticos precoces: rótulos infantis


Em uma das aulas de psicologia abordei o tema transtorno bipolar com um filme. Depois que o filme acabou os alunos fizeram várias perguntas, uma delas foi a respeito da idade em que os sintomas podem surgir.  É uma pergunta muito difícil de ser respondida porque em crianças e adolescentes os diagnósticos psicopatológicos têm que ser muito, mas muito minuciosos, pois a criança pode apresentar comportamentos e emoções que são parte daquela fase de desenvolvimento e não necessariamente sintomas de alguma patologia. É um assunto que me preocupa muito quando atendo pais que trouxeram diagnósticos psiquiátricos de seus filhos embasados somente por comportamentos, cuja história de vida social e familiar não foi investigada. Todos nós, sãos ou não, em diversos momentos de nossas vidas podemos apresentar comportamentos bizarros ou reações exacerbadas frente a situações no cotidiano. Isso não quer dizer que estamos com alguma patologia, nem que vamos desenvolver uma, pode estar relacionado ao momento de vida. Se com adultos desenvolvidos, com profissões estabelecidas, famílias constituídas já existe uma tendência a medicalização imaginem em crianças e adolescentes que estão em fase de desenvolvimento. Tudo pode ser normal para aquele momento, mas também pode ser a denúncia de que algo não vai bem. A profunda investigação é fundamental. Recentemente li uma matéria em uma revista de psicologia abordando essa questão “O desafio do diagnóstico precoce”: dois professores da Universidade La Sapienza de Roma defendem que há quadros estreitamente ligados ao processo de crescimento. Colocam que: “em linhas gerais, para chegar a um diagnóstico adequado, o clínico deve avaliar os pontos fortes e vulneráveis tanto da criança quanto de sua família, investigando a capacidade de adaptação e atuação”.
dinâmica familiar
Usam da seguinte frase: “cada caso é único”. Na mesma revista li outro artigo sobre o caso de um agricultor que queria ser lobisomem (reportagem na íntegra). Só de ler o título já se imagina que o homem está completamente surtado, mas com o decorrer do artigo me surpreendi com a humanização com o qual o caso é tratado. Esse agricultor trabalha de sol a sol, mantém relacionamentos familiares e amorosos estáveis. Tem uma vida comum, com emoções comuns, excetuando quando em algumas noites diz sentir-se transformado em lobisomem e sente atração de uivar para a lua. Além disso o artigo deixa claro que na família esse comportamento não é repudiado, pois o pai não se importa e a mãe valoriza, acha que o filho tem um dom, ela é bastante mística.  Existe, na psiquiatria, um nome para o delírio em que o paciente se identifica com os animais: licantrópico. Mas pelo visto, M. de 38 anos, tem tal delírio, mas isso não quer dizer que não possa conviver em sociedade sem medicações e rótulos. Com as crianças é igual. Antes do rótulo escolar, da família criticar pais e mães pelos comportamentos das crianças e levá-los a especialistas para torná-los “normais” é preciso investigar, perguntar, escutar a criança. Existem sim, quadros de psicopatologias infantis que devem ser cuidados, é muito sério, mas muito cuidado é pouco. Segue o link de um vídeo que retrata a confusão de hoje com  rótulos psiquiátricos. Vejam, usem mais uns minutos para refletir sobre o reflexo dos diagnósticos precoces.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Quando não se quer, não se pode ou não se consegue enxergar


Por esses dias comecei a ler uma reportagem em uma revista feminina sobre histórias de pessoas que internaram involuntariamente o filho por causa de drogas. A primeira história relatada era um contrassenso em termos de saúde mental. Uma mãe descobriu que o filho, de 18 anos, usava drogas havia anos e já tinha desenvolvido dependência. Primeiro internou-o por 15 dias para uma desintoxicação e não surtiu resultado. Então, a mãe resolveu interná-lo em uma clínica com um programa mais extenso, mas queria um lugar que aceitasse ela interna junto para que continuasse cuidando dele, para que ficasse ao lado dele o tempo todo. Diz ter procurado exaustivamente uma clínica que aceitasse a proposta, até que uma caríssima (palavras do depoimento) aceitou. Bizarro, que dinâmica familiar é essa? Provavelmente algumas clínicas não aceitaram porque têm práticas duvidosas e não queriam que fossem expostas. Mas no meu imaginário, algumas são sérias e se preocupam com a saúde mental. Devem ter dito claramente para essa mãe que isso era totalmente disfuncional, simbiótico, e que ao contrário de ajudar atrapalharia o tratamento do filho. A grosso modo, no tratamento de dependência química, um dos quesitos importantes é tirar o paciente da infantilização, da busca da satisfação dos prazeres de maneira imediata. É necessário que a angústia tenha espaço de permanência no indivíduo e que ele aprenda a fazer alguma coisa com isso, não anestesiá-la. O filho estava doente, precisando apropriar-se de seus sentimentos, emoções e limitações. Só que ela, se internando junto, tira do filho essas possibilidades, encapsula-o através da justificativa de ser uma mãe totalmente boa. Ficou 6 meses internada com o filho e disse sair da clínica só de final de semana. A reportagem relata que mãe e filho dormiam no mesmo quarto e no dia que chegaram os dois precisaram tomar calmantes, ela por seus motivos, e ele pelos dele. Quanto mais eu lia mais chocada eu ficava. A clínica aceitou esse quadro doentio por dinheiro, não estava nem um pouco interessada na saúde mental, mas na engorda da conta bancária. Fico imaginando que essa mãe deve ter ouvido de diversos profissionais e clínicas que não havia nada de saudável em tal plano. Mas ela não pôde, não conseguiu ou não quis enxergar sua própria disfuncionalidade e o quanto isso poderia ser danoso ao filho. Esse é um exemplo que escancara um mecanismo de defesa do ser humano, faz parte de sua sobrevivência emocional. Só que usá-lo com tal extremismo causa o efeito contrário, nossa morte psíquica e de quem está em volta.  Não enxergar tal comprometimento é assustador. Inclusive a mãe coloca na reportagem que, depois de duas semanas dessa “internação simbiótica” (eu que denominei), ela percebeu que ele não estava pronto e internou-o novamente. Será que ela se perguntou porque?
Certa vez dei uma devolutiva a uma mãe mostrando o que eu  estava enxergando no cenário da dinâmica familiar e o quanto essa dinâmica refletia na filha. Na sessão seguinte, quando trouxe a filha, me disse ter refletido muito durante a semana e completou: “minha mãe me disse que finalmente alguém teve coragem de dizer o que todo mundo estava vendo e só eu não”. Disse-me ter ficado chocada ao ouvir isso e que não sabia que as coisas estavam tão ruins assim. Foi um movimento foi bom, positivo ela conseguiu enxergar à sua volta. Em vários momentos da vida, por motivos que só cabe a nós, não podemos, não conseguimos ou não queremos ver. Só que quando abrimos a cortina e deixamos a luz mostrar o que está ali, temos  possibilidade de fazer escolhas, sejam elas quais forem. A disfuncionalidade está em manter-se na escuridão o tempo todo.  Usar de certa neblina visual, densa ou não de vez em quando, faz parte, retirar totalmente a luz . . . . . . . . .  um perigo.