sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O simples no cotidiano

Não é sobre o simples doméstico, que está mais complicado que atinga caderneta do seu Joaquim da padaria, é sobre o desuso e a descrença das conversas simples, a troca de ideias sem nenhum carater científico ou sobre "dicas" aprendidas por tentativa e erro. Sobre o juntar dois mais dois, o dia a dia, o cotidiano que tanto nos ensina, mas que teimamos em buscar respostas nas pesquisas e não na troca de experiências. Por que isso?
Chego a triste conclusão que estamos cada vez mais solitários e não trocamos com o outro nossas experiências, recitamos verbetes intelectuais e fórmulas de sucesso, palavras jargões, frases de efeito, mas e o que  a nossa experiência do dia a dia, onde fica?
Por esses dias fui visitar uma amiga que está com um bebezinho de alguns meses. O pequeno chora ao mamar e minha amiga também, mas por dentro. Visivelmente ele tem um desconforto e por mais que ela fale com o pediatra, esse profissional a diz para acalmar o bebê. Bem.... eu lá, dei meu pitacos, claro, baseados no que vivenciei. E em toda a nossa conversa ficou muito em pauta a ausência da simplicidade nas soluções e o isolamento social ao qual cada vez mais nos impomos. Sim, nos impomos....
Essa minha amiga me contou que seu filhinho estava ficando um pouco assado, trocaram de pomada algumas vezes e.... nada. Aí, outra amiga "palpiteira", disse a ela para colocar maizena sempre que houvesse a troca de fraldas. Bingo! A boa e velha conhecida, a dica simples, mas nada "científica", ou produzida por algum laboratório farmacêutico. É bem provável que diversos cientistas já devam ter estudado o "poder" da maizena para aliviar assaduras. Devem ter descoberto que o composto tem propriedades x ou y e publicaram uma pesquisa que  confirma essa sabedoria. Afinal os anos e anos nos quais o produto foi eficaz tem que ser comprovado pela ciência, já que o empírico é o empírico e não o científico.
Conversamos sobre tribos em que mães jovens são sempre ajudadas por diversas mulheres da tribo. Sobre a figura do pajé, ou curandeiro, ou mãe antiga, seja lá qual for a sua denominação. Não importa o nome e sim que o papel dessa figura é saber de "algo ou algos" para ajudar e orientar. Tá lá pra quem precisar. Esse é o lugar dessa figura naquele coletivo
Outro exemplo. Vendo o jornal de esportes matutino passou uma reportagem que analisou cientificamente ponto a ponto dos possíveis fatores mensuráveis para os quenianos serem tão excelentes em corridas. Bem... primeiro mostraram a hipótese da altitude de uma cidade da qual saíam mais campeões, depois o fato de terem canela fina e mais um monte de itens que cientificamente foram mensurados e comparados com outros atletas, mas nenhuma dessas hipóteses confirmava qual era o fator principal que dava a esses atletas essa excelência. Por fim mostraram qual era a principal "arma" que os diferenciava. O coletivo. Como assim? Sim, o coletivo. Eles treinam em grupos. Não correm sozinhos. Estão sempre em batalhão. Um dá sentido ao outro para estar lá. Nossa, mas como isso faz diferença na evolução do desempenho? Não dá para mensurar o subjetivo. Um atleta Neozolandês, vendeu tudo que tinha e foi morar no Quênia para treinar lá. Queria aprender com eles o que os fazia tão excelentes. E, esse Neozolandês, obteve o que procurava, a melhora em seu desempenho. O que tinha mudado em sua rotina de treino? Passou a treinar em coletivo. Simples assim! Como a ciência pode medir isso? Fico até imaginando a conversa desse Neozolandês com outros pares de sua terra natal. "Nossa fulano, como você melhorou seu desempenho depois que foi para a África. Me conta qual o segredo? Correr em grupo? Como? Correr em grupo? E como isso faz difernça? Não sei dizer, só sei que faz!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O universo em expansão

Meus leitores, os poucos porém fiéis, devem estar se perguntando: ela mudou de área? Não, continuo introspectiva e procurando refletir sempre com as experiências do dia a dia. Por isso citei o universo, mas não aquele que Einstein fala, mas aquele que todos os dias carregamos: nosso eu, nossas experiências de vida, nossa história, a de nossos pais, avós, bisavós, a história da nossa terra, e principalmente o dia a dia, que tanto nos fala de nós e muitas vezes pouco damos ouvido. Já falei muito sobre a história que não é só nossa, mas tem também a história que construímos originalmente com nossas vivências e que essa deixará de ser só nossa a medida que a transmitimos para outros a nosso redor. Mais uma vez o paradoxo aparece com sua marca inconfundível: é uma história só nossa, porque a escrevemos. Porém não imprimirá marcas e modificações só em nós, mas também naqueles que nos cercam e amamos, principalmente marido e filhos. Então, por pouco tempo é só nossa, acho que somente quando brota, a partir daí torna-se livre (surpreendemente livre). Seus frutos, seus desdobramentos farão parte de outros também. Nossa, como é lindo!! Vou ilustrar para que não fique só em palavras somadas e sim para que meu pensamento se mostre vivo. Para tal tarefa acredito que a figura ideal é o transtorno obsessivo compulsivo. Imaginem uma pessoa que é aterrorizada, e que sabe disso, por um sentimento de destruição iminente caso não cumpra uma determinada ordem de tarefas, de passos e movimentos. Esse indivíduo fica escravo de uma rotina que não permite que faça nada diferente. É isso mesmo, fica escravo. É terrível. O que ele consegue criar de novo em seu dia a dia? O que ele sente de diferente que lhe solicita que modifique algo em si? Nada. A vida desse sujeito simplesmente paralisa. É como se todos os dias fossem iguais. Ele está vivo? É angustiante pensar nisso. Abre parênteses: já viram aquele filme "Feitiço no Tempo"? Advirto, contarei sobre o que versa, ajuda a fazer sentido na compreensão das ideias. O personagem principal acorda todos os dias no mesmo dia. Sabe exatamente a sequência de acontecimentos. No começo tenta mudar a ordem das coisas e não consegue. Depois tenta se matar e não consegue. Depois percebe que ao invés de modificar os fatos deveria modificar a si mesmo e fazer várias coisas que gostaria, usar melhor de seus dias todos iguais. Aprende a tocar piano, aprende a ouvir melhor as pessoas, a considerar o outro e é claro, hollydianamente, sai desse "coma" quando amadurece e conquista seu amor, com sua essência (ele se descobriu no período em que ficou "recluso"). Fecha parênteses. Não é porque as coisas são sempre iguais que não estão se modificando. Está aí o nosso toque de singularidade. Trabalhamos todos os dias, acordamos, levamos filhos para a escola, para suas tarefas, cuidamos da casa, da nossa família, etc. Essas são as tarefas objetivas, mas nossa expansão não está em mudar as tarefas e sim em transformar nossa essência diante delas. Só buscando novas coisas, dentro do universo do cotidiano, é que poderemos modificar algo, criar, inovar e expandir. Se sempre ficarmos em nossa bolha protegida é bem provável que sintamos tédio em nossas vidas. O tédio não é fazer sempre a mesma tarefa, mas fazê-la sempre com o mesmo eu de 20 anos atrás. Aí está a água parada, a que não se renova. A ausência de tédio é conseguir fazer as mesmas tarefas com modificações em si mesmo, o que resulta em novas coisas. Não é mais a mesma tarefa, é uma tarefa expandida, um universo que cresceu. Façamos o mesmo, mas diferente. Nos permitamos sentir novas coisas, coragem de modificar algo que parecia tão redondo. Esse redondo não precisa necessariamente ficar quadrado, triangular, hexagonal, pode continuar redondo, mas com um diâmetro muuuiiiitoooo maior. E que novas experiências surjam, que novos desdobramentos se mostrem e que possamos encarar Einstein e dizer que não é só o universo físico que está expansão, que o universo pessoal também, e que ele pode nos levar a lugares "onde o homem jamais esteve" (um toque de star trek para expandir) .....

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sentir-se feliz dá trabalho


Felicidade e labuta aparentemente são palavras que não combinam no imaginário da sociedade atual tal qual ela tem difundido o conceito de felicidade. Mas felicidade, ou melhor, sentir-se bem, não se conquista sem labuta, ao contrário do hedonismo atual, que incentiva o prazer pelo prazer, sem conquista, sem labuta, sem dor ou sofrimento, e sem a existência do outro. Será que isso é felicidade mesmo ou serão apenas "caprichos" satisfeitos que por fim resultam em vazio? Ou uma busca desenfreada por sentir-se bem, mas como não se sabe o que é sentir nem se sabe o que buscar, tenta-se de tudo?
Vamos ao princípio: nascemos desamparados, se não cuidarem de nós, simplesmente morremos. É fato! Somos dependentes de um outro que nos alimente, nos conforte, nos dê carinho e que nos agasalhe. Sabem aquelas gracinhas de criança, aqueles sorrisinhos, aquela aprovação constantemente solicitada, que nos conquistam tanto, é uma maneira desenvolvida pela criança para envolver o outro, não perdê-lo, alguém do qual depende e a quem se apegou. Há um investimento nisso, a criança trabalha "duro" para ter a segurança do amor e de sua sobrevivência, ao mesmo tempo que está em desenvolvimento, descobrindo o mundo. Nessa etapa é como se a criança "soubesse" o quer e o que precisa, e se esforça para conquistar e manter esse algo e esse alguém. Vejam só quanta labuta, desde muito cedo, afinal ser bebê não é só dormir, mamar, ser trocado e banhado é também conquistar, aprender, desenvolver, enfim, crescer. Sempre coloco que vida de bebezinho também não é fácil, afinal às vezes a comida não chega quando está com fome, muitas vezes está brincando, lá no seu mundinho, e é interrompido porque alguém acha que está na hora trocar a fralda ou dar banho. Quando os dentes estão estourando a gengiva dói, o sono não fica tão bom, muitas vezes interfere na alimentação, tem um pouco de febre. E quando vai tirar a fralda, então ... o bebê tá lá, na boa, brincando, e o adulto vem e fala: vamos fazer xixi, o põe no penico e ele tem que aprender a se virar sozinho. Era tão mais fácil com fralda, sentia vontade, fazia xixi, e agora, tem que parar o que está fazendo para ir ao penico. Mas faz parte do crescimento, então aos poucos vai incorporando isso, se esforça. Aprende a mudar sua rotina, a adquirir novos hábitos. Vai dizer que isso não dá trabalho? E a sociedade atual está infundindo nos adultos que ser feliz é ter tudo o que quer, e tudo o que consegue comprar, gozar sempre que transa, não se envolver, já que o gozo é mais importante que uma relação madura, com momentos de angústia, mas também com possibilidades de crescimento, mudança, de estar junto ao outro e o outro junto a nós. Parece que hoje esqueceu-se que quando éramos pequenininhos havia sofrimento, trabalho, mas também conquista e alegria. Não existe prazer prolongado sem nos envolvermos, sem nos implicarmos .... e isso, sem dúvida, dá trabalho.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Frozen - uma aventura congelante

Mais uma vez vou usar da experiência de um filme infantil (como já disse.... filhos), filme muito rico em simbolismos - Frozen, uma aventura congelante. O que me marcou foi a importância de não fugirmos de nossa essência e sim lidarmos com ela. Somos todos diferentes uns dos outros, mas precisamos ter algo de similar ao outro para que possamos interagir e nos vincularmos. É a intersecção dos conjuntos. Lembram quando aprendemos que há um conjunto A, um conjunto B e quando há intersecção entre eles forma-se o conjunto C. É a partir desse conjunto C que as relações pessoais se desenvolverão, onde criaremos nossos laços com aquela pessoa, e onde conseguiremos nos comunicar. O que fica de fora desse conjunto é nossa singularidade que por vezes pode habitar o conjunto C e outras não, mas não é por isso que não possamos ter com alguém uma relação com certa plenitude, completude na qual também possamos manter algo próprio. A utopia de que nosso eu precisa se  encaixar completamente no eu de outro nada mais é do que encontrar a perda da singularidade e tornar-se simbiótico a alguém. O amadurecimento das relações vem daí, da possibilidade de, sem a fusão, interagirmos com o outro e nos sentirmos completos de alguma maneira e não aglutinados. A aglutinação sufoca, nos perdemos de nós mesmos, não há espaço para criar, pois se criarmos algo próprio aquela massa aparente "uniforme" não será mais assim, será outra coisa. É o medo de ser diferente e acreditar que não se tem lugar. Buscamos constantemente ser aceitos por nossos pares, e ao mostrarmos alguma diferença nos dá medo de perdê-los. Será que precisamos ter sempre esse medo de perder o outro para nossa singularidade? No filme havia duas irmãs, muito unidas, brincavam muito quando criança, porém a mais velha nasceu com algo muito singular, com um poder mágico de congelar, criar neve, e o país na qual eram princesas era sempre quente. Em uma das brincadeiras de congelar a mais velha, sem querer, acaba por machucar a irmã mais nova, e a solução foi isolar a mais velha, confinada em seu quarto, pois seu poder poderia trazer tristeza. Bem .... e trouxe mesmo. A mais nova sentia muita falta da irmã e a mais velha ficava triste em isolar-se, mas acreditava que era para o bem de todos, já que sua singularidade poderia ser mais uma "maldição" do que algo que poderia agregar, unir. Os anos se passam e Elsa, cada vez mais isolada, sentia perder o controle sobre seu poder. Seu quarto ficava o tempo todo congelado e sua tristeza cada vez mais aparente. Quando mais triste e distante do que queria, mais congelado ficava seu ambiente, interno e externo. Ao desenrolar da história a Elsa precisou sair de seu quarto para ser coroada rainha, já que seus pais haviam falecido e durante a coroação, em um momento de preocupação com sua irmã seu poder se descontrola e toda a cidade fica sabendo de sua magia. Elsa corre desesperada de seu reino, sobe as montanhas e lá percebe-se livre para usar de sua singularidade. (Vai aqui o link da música tema com algumas cenas dessa transformação) Constrói um lindo castelo de gelo, transforma-se, mostra-se feliz, por sentir-se livre, não mais aprisionada pelo medo de destruir ao outro. Só que não havia outros lá e por isso sentia-se segura. Sentiu-se bem, mas não por muito tempo, porque na verdade, seu destino era aprender a estar com o outro com sua singularidade, completando-o e podendo ser si mesmo, sem medo de machucar o outro ou ser machucada.
Lógico, é um filme infantil e Elsa consegue descobrir como controlar seu poder e oferecer com ele coisas novas para seu reino. E as irmãs voltam a ter a magia de sua união e compreensão mútua de volta. 
Será que precisamos ter tanto medo de nossa singularidade, dela não ser aceita, de machucarmos os outros com nossas diferenças? Será que o outro é tão frágil assim e será que somos tão poderosos assim? Ao invés de tentarmos isolar de nossas relações pessoais aquilo que sentimos como diferente, não deveríamos tentar integrá-las, por mais que às vezes fiquem à margem, mas elas fazem parte de nós, e se as deixarmos de lado não estaremos inteiros em uma relação, estaremos somente com aquilo que é comum a todos a aí nos aglutinamos. Somos mais do que a intersecção entre A e B que gera o conjunto C. Somos todas as partes, as que são integradas com o outro e as que não. Fugindo dessa integração ficamos frozen, congelados em um lugar que não é nosso, em um lugar de aprisionamento onde não somos livres.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Sociedade lego .... um lugar em que tudo se encaixa

Ontem fui ao cinema assistir "Uma aventura Lego" (sabem como é .... filhos). O filme é regular, só que é inegável a crítica que fazem à padronização dos comportamentos exigidos pela sociedade para que nos sintamos aceitos e tenhamos a ilusão que pertencemos àquele determinado grupo. O personagem principal, o Emmet (um bonequinho Lego), logo ao acordar pega um manual de como comportar-se, segue sem questionar as instruções, realiza as etapas exatamente conforme o "sugerido" e vai trabalhar. As cenas mostram toda uma cidade realizando os mesmos comportamentos, as mesmas falas, inclusive cantam uma única música durante o dia todo. Só que ao sair do trabalho alguns dos colegas falam de coisas particulares que gostam e o Emmet só sabe repetir o que dizem. Afinal era o que fazia todos os dias, repetia incansavelmente as "regras" do manual, sem questioná-las ou sem colocar algo próprio nelas. Bem ..... lógico que o Emmet acaba descobrindo sua individualidade e toda a cidade também se desveste dos padrões e adota certa singularidade.
Isso sempre me faz pensar na questão da individualidade versus o ser social? Como conseguimos ter nossa marca, nossa identidade preservada e ainda assim fazer parte da sociedade, cuja liberdade de expressão é entoada, mas na prática o esperado é que sejamos padronizados. Já abordei essa temática outras vezes, inclusive foi meu primeiro texto, quando debutei ao expandir minhas reflexões em um blog, e continuo com questionamentos parecidos. Um tema complexo, não acredito que tenha uma resposta fechada, precisamos da sociedade, o que ela nos oferece, mas também precisamos de nosso EU. Como equilibrar os dois? Há alguns meses vi no Facebook um vídeo de um comercial de telefonia de um pais europeu. O vídeo é ótimo, divertido, recomendo que assistam, são 30 segundos. É sobre um gato que questiona sua vida, acha-a sem graça e resolve que se "transformar" em cachorro, por acreditar vida é muito mais dinâmica, que tem muito mais a ver com ele. O gato fica só no sofá, na cozinha, parado, e começa a questionar seu modo vida, até diz que se odeia. "Magicamente" resolve ter atitudes de cachorro... rola na grama, corre atrás dos carros, joga frisbee, cava buracos, nada na água, corre com outros cachorros e além de tudo faz passeio de carro com a cabeça para fora. O gato se mostra tão feliz .....tendo comportamentos de cachorro. Não é que ser gato é ruim, para aquele gato a vida do cachorro é mais interessante e ao experimentá-la encontrou-se. E nós, quando nos permitimos isso? É inegável, o homem é um animal gregário, precisamos do outro, todos queremos carinho, amor, afeto, nascemos desamparados, e frequentemente essa sensação original se faz presente em nosso dia a dia. Mas ..... quem são esses outros? São todos ou podemos escolher? Talvez aí esteja "o pulo do gato".... Se conseguirmos nos entender, olhar para nossos buracos, vazios, dificuldades, nossa carência, saberemos encontrar um lugar em que possam ser mostradas sem que nos sintamos ameaçados, nossa "fragilidade" estará presente, além de nossas ideias, sentimentos e histórias de vida. Quando buscamos preencher o vazio com qualquer coisa (advirto: o vazio existe, estará sempre lá, o que muda é a forma de olharmos para ele), com o que não faz eco dentro de nós, o vazio aumenta por nos distanciarmos mais uma vez de nós mesmos. Será que o equilíbrio entre o ser social, o verniz que usamos não está na busca de lugares e momentos no dia a dia que nos permitam entrar contato com nossa singularidade sem que nos sintamos ameaçados ou rejeitados? Fácil? Não sei, mas não impossível. Ser quem se é com o padrão social sempre presente, existe, não é utópico. Nossa singularidade está presente conosco o tempo todo e mostrá-la, dar-lhe um lugar em nosso dia a dia nos enriquece e não necessariamente nos destruirá ou nos tornará alguém à margem do social. Seremos alguém que junto com o  social consegue ser si mesmo. Haverá rejeições, com certeza, não conseguimos ser amados por todos. Esse é nosso mais velado segredo, nosso desejo primário, que o mundo nos ame. Mas será que não é muita prepontência? Meio sufocante, eu acho. Então... sejamos mais simples .... mais nós sem termos que ser sós.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

As várias facetas da solidão

O homem é um animal gregário. Nunca esqueci essa frase inicial de um texto do Freud (psicologia das massas). Uma frase aparentemente simples, com 6 palavras, mas de uma verdade incontestável. Não é preciso dizer mais nada. Precisamos sempre do outro. Seja lá por quais motivos, em nossa natureza já vem impressa essa necessidade, a do outro. Somos um animal gregário (ponto). A partir disso muitos pensamentos podem ser colocados, mas gostaria de direcionar minhas reflexões para a solidão, sentimento tão difícil de coexistir, mas tão presente em nosso dia a dia. Quero começar com uma reflexão que fiz há mais ou menos uns seis meses, junto a uma amiga analista, sobre a solidão do analista. Durante muitos anos eu trabalhei no mundo corporativo e a dinâmica de tal instituição dilui a solidão que muitas vezes sentimos em nossas vidas, principalmente quando passamos por dificuldades, porque ao encontrarmos com outros (uma grei de certa forma), trocamos palavras, às vezes contamos sobre nosso humor, ou até para algumas pessoas mais próximas colocamos o que estamos passando. Há também a situação relacionada ao próprio trabalho em si, sempre temos com quem dividir a angústia de algo que não está indo bem, ou dúvidas que temos sobre o caminho a seguir, ou mesmo compartilhar uma conquista. Temos uma grei, temos pares, temos um conforto, mas também temos as desavenças, as dificuldades, mas sempre temos nossa grei. E no consultório? Estamos ali frente a frente com um ser em sofrimento, que traz questões muito próprias e íntimas, estamos lá ouvindo-o, tentando compreendê-lo, ajuda-lo de alguma forma, e estamos sós nessa escuta. No momento que a história é contada, que os sentimentos são expostos, não temos ninguém com quem dividir nossa percepção, nossas dúvidas. Por vezes ouvimos e nos sentimos angustiados, desconfortáveis, surgem dúvidas se vamos conseguir ajudá-lo, percebemos angústias muito profundas, e guardamos isso só para nós. Somos sós nessa percepção e além de sós temos que acreditar que o que percebemos é o que está acontecendo. Não há testemunho para aquele momento. Via de regra, um caso muito complicado, sempre levamos para a supervisão, o testemunho acontece lá, mas enquanto isso, ficamos sós em nossa percepção, em nossa angústia. E antes de analistas também somos pessoas com famílias e histórias de vida e por vezes elas entram conosco nas sessões, mas precisamos deixá-las de lado para conseguir ouvir ao pacientes. Não dá para bater papo com o paciente, ele está lá para ser ouvido e não ouvir. Mais uma vez nos desvestimos de nossa história, ficamos sós de nós mesmos, para conseguir compreender a solidão do outro. Esse retirar-se não é carteziano, não se separa integralmente um eu do outro, mas à medida que entro em contato com minha solidão como analista dou lugar para a solidão do outro - Isso é lindo!!!! E por mais contraditório que possa parecer uma das grandes conquistas na análise é o paciente conseguir entrar em contato com a própria solidão e suportá-la. É um paradoxo, somos gregários, em nossa natureza, mas em nossa essência também somos sós. Faz parte do viver com si mesmo, lidar com sua solidão, algo tão duro, angustiante, mas que ao olharmos para ela, lhe darmos o devido valor e respeito, o espaço para nossa singularidade se expande, criamos, e nos tornamos menos sós, dando espaço para o outro e não mutilando-nos ou nos deixando ser invadidos por aquilo que não é nosso. Nos fortalecemos ao conseguirmos ficar com nossa solidão. Nossa solidão é colorida, como também preta e branca, por dúvidas, angústias, incertezas, esperanças, isolamento, sonhos, coisas nossas, nossa singularidade. Então.... somos um animal gregário, precisamos de nossa grei, de nossos pares, das trocas afetivas, morais, das amizades, da família, mas também precisamos de nós .... sós. Essa interrelação é que cria a dinâmica do encontro com o outro, da troca com o outro e nos garante nossa individualidade. Adoro os paradoxos, eles nos enriquecem, é um espaço criativo, e a solidão precisa conviver com nossa grei. 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

A Mentira

Advirto: não leia antes de dormir, pode causar insônia.
Por esses dias vi um filme na televisão cujo título era: "O primeiro mentiroso". O filme é regular, porém achei o argumento bem interessante. Era sobre uma sociedade em que não existia a mentira e muito menos o conceito de verdade, afinal um não existe sem o outro. Era tudo concreto. As pessoas falavam o que pensavam, sem reflexões sobre o que pensavam, falavam apenas, assim se estabeleciam as relações humanas, se é que se poderia definir "aquilo" por relações humanas. Meio complicado de entender, vou dar alguns exemplos: uma moça foi sair com o protagonista e disse que estava saindo com ele só para preencher o tempo porque na verdade ele não era o tipo dela. Disse antes de sair que iria se masturbar, que ele chegou muito cedo e atrapalhou esse seu plano. A secretária do protagonista disse que não tinha anotado nenhum recado porque o chefe iria demiti-lo, que detestava trabalhar com ele, o achava um fracassado. O chefe quando foi demiti-lo falou que talvez não fizesse isso hoje porque se sentia mal com isso e voltaria amanhã para fazê-lo. O protagonista trabalhava em uma empresa de documentários, os filmes nessa sociedade eram só sobre os fatos acontecidos na história do mundo. O protagonista trabalhava com o século 14, século da peste negra, e o iriam demitir porque seus roteiros eram muito deprimentes. Lógico, esse século era deprimente diz o protagonista. Os fatos eram relatados exatamente conforme o acontecido, sem licença poética, sem ficção, sem ilusão, sem histórias paralelas. Era o que era. Ponto. Um vizinho do protagonista ao ser perguntado como estava relatou que passou a noite vomitando por ter tomado muitos comprimidos para se matar. Os diálogos eram muito chatos, depressivos. As pessoas só falavam delas e não viam ao outro. O outro não era levado em consideração em seus pensamentos, só existia o si mesmo. Quando isso mudou no filme? O protagonista foi demitido e seria despejado, por não ter dinheiro para o aluguel. Foi ao banco tirar o que lhe restava na conta. Ao chegar no banco a caixa disse que o sistema estava fora do ar, mas que ele poderia dizer qual a quantia que tinha ........ nesse momento apareceu uma imagem de um "curto" em seus neurônios e ao invés de dizer $ 300 disse $ 800, o que não era verdade. A caixa foi lhe dar o dinheiro e nesse exato momento o sistema voltou. O protagonista ficou arrasado .... a caixa consultou o sistema o informou: "aqui diz $ 300, o senhor disse $ 800, acho que nosso sistema está com algum problema, então vou lhe dar os $ 800". Bizarro, para nossos dias. Totalmente bizarro, naquela sociedade não existia a compreensão, o conceito do não fato, da não verdade, o que era dito por alguém era o que era. O protagonista saiu de lá confuso e foi visitar sua mãe que estava em um asilo. O slogan do asilo era: "lugar para deixar pessoas já sem esperança de vida e que foram abandonadas por seus parentes". A mãe estava morrendo e em seus últimos minutos dizia ao filho que estava com medo de ir para o vazio, porque a morte era o vazio. O filho, comovido com essas palavras, começou a dizer para a mãe que sabia que a morte não era um vazio e sim um lugar com mansões, que ela iria encontrar com outros parentes já mortos e teria uma eternidade de felicidade. A mãe morre com um sorriso e as enfermeiras e médicos que estavam no local se impressionam com o que ele sabia e começaram a divulgar sobre um homem que sabia coisas que ninguém mais sabia. Naquela sociedade não se questionava o dito. O dito era fato, o falado era A verdade. Se os neurônios do protagonista sofreram um "curto-circuito", os meus começaram a bombardear reflexões sobre mentira, verdade, o outro, o lugar da mentira nas relações humanas, etc. E ficou tudo muito confuso, mas também bem interessante. Adoro o complexo, o paradoxo, os acho tão parte do humano que resolvi colocar minhas conexões reflexivas para funcionar. Em nenhum momento me atrevo a pensar que chegarei a alguma conclusão, acredito que muitas teses de sociologia, filosofia, psicologia já foram feitas sobre o assunto. Vou refletir sobre mentira e verdade a partir dessa sociedade descrita no filme. Como os fatos eram só o que existia, desejo ou imaginação estavam fora de questão. Se alguém contasse que foi demitido, nessa sociedade o dito era: "tá ferrado, você é um fracassado". Quem de nós já não consolou uma amiga ou um amigo que perdeu o emprego e nossa fala foi: "tenho certeza que você conseguirá outro emprego logo, é uma questão de tempo, você é tão qualificado, etc.". Mas isso é verdade? Você tem certeza que será assim? Você não sabe, mas mesmo assim diz algo que não sabe porque acredita que isso possa ser verdade e também gosta muito daquele amigo e acha que ele merece essa injeção de ânimo. Dizer: "cara você tá ferrado, já passou dos 40, o mercado de trabalho está muito competitivo, tem gente mais qualificada que você, muito difícil de se recolocar", beira a crueldade. É chutar cachorro morto na calçada. Esse é o cenário, mas será que por ser esse o cenário não haverá outra alternativa? É uma mentira proporcionar consolo ao outro ou é uma ilusão necessária para que outros cenários possam ter lugar? Não só o concreto.  Por que chamar de mentira? A palavra mentira vem tão carregada de preconceito e moralidade que rejeitamos automaticamente dizer que a utilizamos. Mas fazemos isso sempre, vários dias contamos "mentirinhas" para nós mesmos e para outros. Essas mentiras são: pegar os fatos nus e crus, horrorosos, sem nuances e tons, e os colorir com nossos desejos, com nossas expectativas. Esse é o subjetivo, o que nos movimenta, o que dá sentido para continuar. O mentir está ligado ao desejo. Não estou falando sobre mentiras patológicas, o mentir para se sobrepor ou tirar algo do outro. Estou falando do lugar da mentira na construção do meu eu, do outro e dessa relação. E ao mesmo tempo sobre o lugar da verdade nessa mesma construção. Será que existe verdade e mentira ou existe o trânsito entre realidade, desejo e ilusão? Vamos falar das crianças, as super hábeis no universo desse trânsito. Não conheço criança alguma, e nem adulto que não tenha contado muitas mentiras quando criança. Por que criança faz isso com frequência? Por que a criança tem interesse em realizar seus desejos na hora em que aparecem, e por incontáveis vezes para que possam fazê-lo, precisam usar da sabedoria da mentira para os satisfazer. Ainda têm dificuldade em postergar a satisfação do desejo. E os adolescentes, então, são os mestres da mentira.  Estão na fase de se desligar dos modelos paternos e maternos e descobrir o seu modelo. Será que "mentira" e desejo andam juntos? Por que julgar tanto uma mentira e não questionar mais os motivos que me fazem usá-la? O tema vai ficando complexo. Existem tantos nuances na qualificação de verdade, mentira, ilusão, imaginação, que não há fechamento, só aberturas. E assim nos expandimos e não ficamos naquele mundinho concreto, e cinza, em que fato é fato, e só. Outro questão que quero abordar é o quanto no filme eu percebi que essa aparente autenticidade, em dizer tudo o que penso, era, não exatamente uma autenticidade, um egocentrismo extremo. Não há o outro e seus sentimentos, só os meus. Não importa que o que eu diga vá afetá-lo, deixá-lo triste ou abalado, eu digo o que digo e sou assim. Não havia espaço para a afetividade com o outro. Não que eu esteja defendendo que mentir para o outro é considerá-lo, longe disso. Mas considerar o que o outro sente, o que sinto pelo outro, estabelece a comunicação entre a realidade, imaginação, ilusão e desejo. 
O tema é complexo, mas tão interessante ....... são tantas as verdades, e tantas as mentiras, e tantos entres. Por que o verniz social é necessário? Por que deixamos esse verniz muitas vezes modelar nosso eu? Qual o espaço que posso ter nesse trânsito entre social, eu e o outro, afinal eu preciso do outro e o outro também precisa de mim? Mentimos para nós mesmos? ............ Boa reflexão para todos.